Recente ataque dos EUA à Venezuela é mais um capítulo de uma longa história de intervenções militares e influência política americana na região, que remonta há mais 200 anos, com vários exemplos durante a Guerra Fria.Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, as forças americanas capturaram o controverso presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Ambos foram transferidos para os Estados Unidos, onde Maduro, agora deposto, enfrenta acusações de narcoterrorismo.

A operação americana – questionada por muitos especialistas em direito internacional – quebrou um jejum de décadas de um longo histórico de intervenções dos Estados Unidos na América Latina, sendo o primeiro episódio do tipo do século 21.

Em seu livro Covert Regime Change: America’s Secret Cold War, Lindsey O’Rourke, professora de ciência política no Boston College, identificou 23 casos em que os Estados Unidos tentaram derrubar governos na América Latina entre 1949 e 1989. Eles incluem o apoio oculto a nove dos golpes militares ocorridos durante a Guerra Fria, como no Brasil e no Chile, repetidas tentativas de matar o cubano Fidel Castro e a invasão do Panamá para derrubar o ditador (e ex-aliado) Manuel Noriega.

De acordo com o trabalho de O’Rourke, essas ações não foram exclusivas da Guerra Fria, mas parte de uma estratégia geopolítica centenária de dominar o Hemisfério Ocidental – e frequentemente resultaram em maior instabilidade política nos países-alvo.

Essas intervenções se deram tanto de forma direta, com o uso de forças militares e de inteligência americanas, como indireta, executadas por atores locais insuflados e apoiados pelos EUA, como aponta o historiador John Coatsworth, ex-reitor da Universidade de Columbia, em análise divulgada em uma revista da Universidade de Harvard.

As intervenções diretas são mais facilmente identificadas e amplamente documentadas, como foi o caso recente da Venezuela, enquanto as indiretas exigem um “exercício de julgamento histórico”, apontou Coatsworth. Ditaduras latino-americanas instaladas durante a Guerra Fria são alguns desses casos menos óbvios.

As autoridades americanas atribuíram quase todos os seus movimentos intervencionistas na região à defesa da segurança dos EUA, mesmo o país não tendo enfrentado nenhuma ameaça militar significativa na América Latina em nenhum momento do século 20, observou Coatsworth.

Muitas dessas intervenções podem ser relacionadas à Doutrina Monroe, um princípio de política externa que, apesar de suas origens no século 19, continuou a influenciar a política externa dos EUA nos últimos 200 anos.

O que é a Doutrina Monroe?

A Doutrina Monroe remonta a 1823, quando o presidente James Monroe advertiu as potências europeias contra a intromissão nos assuntos do Hemisfério Ocidental.

A doutrina foi posteriormente ampliada pelo presidente Theodore Roosevelt em 1904, no que ficou conhecido como o Corolário Roosevelt. Ele argumentou que os EUA têm o direito de intervir nos países latino-americanos para impedir o que chamou de “delitos crônicos” e instabilidade.

A estratégia de segurança nacional dos EUA publicada em 2025 afirma: “Após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e aplicarão a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e proteger nossa pátria e nosso acesso a regiões geográficas importantes em toda a região”.

Trump também se referiu à doutrina logo após as forças americanas capturarem Maduro, dizendo: “A Doutrina Monroe é muito importante, mas a substituímos por algo muito, muito maior. Agora a chamam de Doutrina ‘Donroe ‘”.

Abaixo, estão listados alguns exemplos de intervenções dos EUA na América Latina desde a Segunda Guerra Mundial:

1954, Guatemala: Governo derrubado por um golpe apoiado pela CIA

Em uma das primeiras intervenções da Guerra Fria na América Latina, os EUA apoiaram a derrubada do presidente democraticamente eleito da Guatemala, Jacobo Arbenz. Ele havia introduzido reformas agrárias que nacionalizariam propriedades, incluindo as pertencentes à United Fruit Company (agora Chiquita Brands International), com sede nos EUA.

O governo Eisenhower considerava o governo de Arbenz uma ameaça comunista, com o secretário de Estado John Foster Dulles acusando Arbenz de instalar um “reinado de terror do tipo comunista”.

Agentes da CIA apoiaram uma força de exilados guatemaltecos e instalaram Carlos Castillo Armas como presidente, que rapidamente reverteu as reformas agrárias.

1961, Cuba: Invasão da Baía dos Porcos

Após a revolução comunista de Fidel Castro em 1959, os EUA ficaram cada vez mais preocupados com a relação de Cuba com a União Soviética. O presidente Dwight D. Eisenhower elaborou um plano para derrubar o líder cubano, que foi executado pelo presidente John F. Kennedy em 1961.

1.400 exilados cubanos treinados pela CIA desembarcaram na Baía dos Porcos, a cerca de 200 km da capital, Havana. Com a expectativa de desencadear uma revolução e derrubar Castro, o plano rapidamente fracassou. Castro enviou cerca de 20 mil soldados para as praias, forçando a rendição.

O fracasso foi um grande constrangimento para os EUA, intensificando as tensões da Guerra Fria na região.

1965, República Dominicana: segunda Cuba?

O então presidente dos Estados Unidos, Lyndon B. Johnson, enviou 20 mil fuzileiros para a República Dominicana para reprimir o conflito civil que assolava o país, após a chegada de Juan Bosch ao poder depois da morte do ditador Leónidas Trujillo, em 1961, deposto pelos militares.

A intenção dos Estados Unidos era evitar que o país caísse nas mãos do comunismo e que se criasse “uma segunda Cuba” nas Caraíbas.

Washington colocou o general Antonio Imbert Barrera à frente do governo e, em setembro de 1966, as tropas norte-americanas abandonaram o país, pouco antes da realização das eleições presidenciais, nas quais Bosch foi derrotado por Joaquín Balaguer, que havia feito parte do governo do ditador Trujillo e permaneceria no poder até 1996.

1973, Chile: Operações secretas e um golpe militar

Ainda alarmados com o regime comunista em Cuba e a perspectiva da influência soviética no Hemisfério Ocidental, os EUA se opuseram ao governo socialista do presidente Salvador Allende no Chile desde o início. Washington via a nacionalização de indústrias-chave e os laços estreitos de Allende com a União Soviética como uma ameaça aos interesses dos EUA.

Embora os EUA não tenham realizado diretamente o golpe, Washington procurou desestabilizar o Chile por meio de pressão diplomática, restrições financeiras, financiamento de grupos de oposição e propaganda anti-Allende.

Em setembro de 1973, as forças armadas do Chile, lideradas por Augusto Pinochet, derrubaram Allende. Pinochet assumiu o poder após a morte de Allende durante o golpe .

O ditador de direita governaria o Chile por 17 anos, marcando o fim de uma história de 46 anos de regime democrático no país. Seu governo foi marcado por desaparecimentos e torturas generalizadas.

1983, Granada: Operação Fúria Urgente

Após o assassinato do primeiro-ministro de Granada Maurice Bishop, durante um golpe interno, o presidente Ronald Reagan ordenou a invasão da ilha caribenha. Ele citou a necessidade de proteger os cidadãos americanos e garantir a segurança da região.

Conhecida como Operação Fúria Urgente, a invasão ocorreu em um momento em que os EUA estavam alarmados com as relações de Granada com a União Soviética e com Cuba.

A invasão foi fortemente criticada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, que escreveu que a intervenção era “uma violação flagrante do direito internacional e da independência, soberania e integridade territorial daquele Estado”.

1989, Panamá: Operação Causa Justa

Em dezembro de 1989, o presidente George H.W. Bush lançou uma invasão em grande escala no Panamá sob a Operação Causa Justa, enviando cerca de 24 mil soldados para destituir o general Manuel Noriega do poder.

Noriega, que já fora aliado dos EUA, foi indiciado e preso nos EUA sob acusações que incluíam tráfico de drogas, extorsão e lavagem de dinheiro.

Após a invasão, os EUA instalaram Guillermo Endara como presidente.

Ao contrário das intervenções anteriores da Guerra Fria, a invasão do Panamá não teve como alvo um comunista, mas um antigo aliado e informante.