A república islâmica tem poucos aliados no cenário internacional. Um dos principais é a Rússia, que pode acabar se beneficiando com o conflito no Oriente Médio.Poucas horas depois de as bombas israelenses e americanas começarem a atingir Teerã em 28 de fevereiro, a Rússia emitiu uma declaração contundente, com o representante permanente do país na ONU, Vassily Nebenzia, classificando o ataque como “agressão armada injustificada contra um Estado-membro soberano e independente da ONU”.

Moscou é um dos poucos, mas mais fiéis aliados de Teerã, e um possível colapso do regime iraniano poderia ser um golpe para os interesses geopolíticos e econômicos da Rússia. Então, por que o país de Vladimir Putin não veio, pelo menos de forma aberta, em socorro de Teerã?

Parceira Rússia-Irã

Moscou e Teerã têm cooperado em vários projetos econômicos vitais para a Rússia, lembra o analista Nikita Smagin à DW.

“O corredor internacional de transporte Norte-Sul é um deles – especialmente desde o início da Guerra na Ucrânia, em 2022, quando a Rússia foi isolada de suas rotas tradicionais de trânsito.”

A Rússia, a Índia e o Irã assinaram o acordo para a rede multimodal de 7,2 mil quilômetros em 2000. De acordo com o centro de estudos Gulf Research Center, com sede na Arábia Saudita, 75% do projeto já foi concluído.

Em termos militares, o Irã também tem sido crucial para a Rússia, sobretudo pelo fornecimento dos chamados drones Shahed, o que ocorre desde 2023. Esses equipamentos remodelaram em grande parte a guerra na Ucrânia, aponta Julian Waller, analista de pesquisa do Programa de Estudos sobre a Rússia do centro de estudos Center for Naval Analyses (CNA), com sede nos Estados Unidos.

“O Irã foi útil para o esforço de guerra russo, mesmo que a produção [de drones] tenha agora sido amplamente internalizada pela Rússia, que melhorou o seu design”, diz Waller à DW.

A Rússia também teria compartilhado informações de inteligência com o Irã e enviado mísseis e munições para Teerã. De acordo com o jornal The Washington Post, Moscou estaria por trás da localização de alvos dos EUA atacados pelo Irã no Oriente Médio. Oficialmente, no entanto, não há uma aliança entre ambos os países para combater o outro lado, formado por Israel e Estados Unidos.

“A parceria entre Rússia e Irã não tem a ver com ideologia. Os políticos russos não gostam particularmente do Irã”, sublinha Smagin, “mas consideram Teerã um parceiro estratégico confiável, já que ambos os países estão sob sanções internacionais – ao contrário da Turquia ou do Egito, que poderiam interromper o comércio com a Rússia se pressionados pelo Ocidente”, diz ele.

Gregoire Roos, diretor para a Europa e Rússia do think tank Chatham House, com sede em Londres, é da opinião de que Teerã se tornou, em certa medida, o mentor de Moscou. “O Irã tem uma experiência significativa em contornar sanções internacionais há muitos anos e tem aconselhado a Rússia sobre como fazer isso”, declara ele à DW.

Erro de cálculo do Irã?

No entanto, os especialistas parecem concordar que é improvável que a Rússia intervenha ativamente na guerra em curso entre os EUA e Israel contra o Irã.

“Os dois países não são aliados militares”, ressalta Waller. Um dos motivos para isso pode ter sido o pacto informal de não agressão com Israel que a Rússia teria firmado, segundo alguns analistas.

“A Rússia e a China têm problemas maiores com os quais se preocupar. O apoio que têm dado é o mesmo que, até agora, tem fornecido à República Islâmica armas e meios de repressão”, afirma Mojtaba Hashemi, especialista em relações internacionais e analista político.

Mohammad Ghaedi, professor da Universidade George Washington, acredita, no entanto, que a falta de apoio da Rússia não foi uma surpresa para os líderes iranianos. “O ceticismo em relação a confiar em Moscou existe há muito tempo em Teerã. Como disse uma vez [o ex-presidente iraniano] Mahmoud Ahmadinejad, ‘a Rússia sempre traiu a nação iraniana’, e o presidente Masoud Pezeshkian, após a guerra de 12 dias [em junho de 2025], observou que ‘os países que considerávamos amigos não nos ajudaram durante a guerra'”.

As vantagens e desvantagens da guerra no Irã para a Rússia

Uma guerra prolongada com o Irã pode ter seus aspectos positivos para Moscou, argumenta Roos, da Chatham House. “A atenção da mídia diminuiria para o presidente [ucraniano] Volodimir Zelenski, porque tudo giraria em torno do Irã e do risco de escalada”, comenta ele.

“Além disso, Washington não poderia arcar com os custos de manter outra frente do ponto de vista diplomático e militar, e a hierarquia de prioridades obviamente recairá sobre o Oriente Médio”, acrescenta.

E também podem surgir vantagens econômicas para a Rússia. O Irã fechou em grande parte o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo e do gás do mundo. Desde então, os preços das commodities dispararam.

“Se os preços permanecessem altos por meses ou até um ano, isso seria um grande benefício para a Rússia, que exporta os dois insumos”, aponta Julian Waller, do think tank CNA, acrescentando que o Kremlin poderia então reduzir os impostos internos que haviam sido usados para financiar a guerra.

Ainda assim, a possível queda do regime iraniano seria um grande revés para o Kremlin, já que Moscou gosta de se apresentar como uma grande potência, destaca Roos. “A Rússia faz parte de um grupo de países (incluindo Irã, Síria e China) que visa substituir a ordem mundial liderada pelo Ocidente por um mundo multipolar”, afirma.

“Mas esse grupo nunca encolheu tão rapidamente antes, o que significa uma perda significativa de influência para a Rússia em sua chamada zona de influência eurasiana”, acrescenta Roos.

A aliança entre a Rússia e o Irã vai continuar?

Segundo Hashemi, a falta de um apoio mais contundente por parte da Rússia em relação ao Irã pode comprometer a aliança.

“Rússia e China têm usado o Irã como moeda de troca geopolítica com o Ocidente. Se o atual regime enfraquecer ainda mais, Moscou provavelmente buscará garantias do próximo governo iraniano, em vez de investir em uma estrutura em colapso. Da mesma forma, a China buscará concessões do próximo governo para manter pelo menos parte de sua influência. No entanto, ambos sabem que as relações com o Irã pós-República Islâmica serão bem diferentes”, explica.

Ghaedi, da Universidade George Washington, considera que o atual regime iraniano ainda gostaria de manter laços estreitos com Moscou, dadas as suas relações tensas com o Ocidente. “É improvável que Teerã arrisque perder essa parceria, especialmente com a Rússia detendo poder de veto no Conselho de Segurança da ONU”, observa.