Enxurradas devastadoras ocorrem repetidamente em várias regiões do Himalaia. Pesquisadores tentam entender como elas acontecem e de que forma os sistemas de alerta precoce podem ajudar a salvar vidas.O desastre desta quarta-feira (26/08) na região fronteiriça entre a China e o Nepal aconteceu de maneira tão rápida quanto inesperada. Em apenas dez minutos, enormes quantidades de água e detritos cobriram uma distância de 20 quilômetros, com consequências devastadoras para milhares de pessoas.

Inundações repentinas no Himalaia são comuns. “Elas são mais a regra do que a exceção”, diz Niels Hovius, chefe da seção de Geomorfologia do Centro Helmholtz de Geociências GFZ em Potsdam. Ele trabalha há muitos anos no Himalaia e em outras regiões de alta montanha e é especialista em sistemas de alerta precoce.

O que desencadeou a inundação repentina?

Todos os dados científicos indicam que o desastre começou com o colapso de uma geleira no norte do maciço de Langtang, uma enorme massa de gelo se desprendeu e se transformou em uma gigantesca avalanche. O maciço está localizado no centro do Nepal, na região fronteiriça com a China.

“Esse colapso da geleira deslocou grandes quantidades de gelo montanha abaixo muito rapidamente”, afirma Hovius. O calor gerado pelo atrito derreteu o gelo e o transformou em água, que por sua vez carregou detritos e lama. Esse fluxo de lama desceu o vale a uma velocidade comparável à “atingida por carros em rodovias alemãs”, segundo Hovius.

Instrumentos sismológicos registraram um terremoto de magnitude 4,4 na escala Richter no momento do colapso da geleira. No entanto, Hovius explica que esse não foi um terremoto “clássico”, ou seja, tectônico. Em vez disso, os instrumentos mediram a força da queda da geleira.

Por que as enxurradas no Himalaia podem ser tão devastadoras?

Inundações repentinas em regiões de alta montanha podem ser desencadeadas de diversas maneiras; pelo desprendimento de geleiras ou pelas chamadas inundações por rompimento de lagos glaciais (GLOFs, na sigla em inglês).

Nesses eventos, a estrutura topográfica ao redor de um lago glacial muda repentinamente, por exemplo, devido a um deslizamento de terra que despenca no lago. Os grandes volumes de água que transbordam repentinamente as margens do lago durante um evento como esse também podem se transformar em torrentes violentas. Neste caso, porém, é evidente que não se tratava de uma inundação desse tipo, afirma Hovius.

Deslizamentos de terra também podem causar avalanches de lama mortais, sem a presença de geleiras ou lagos glaciais. No Himalaia, não só tudo isso é possível, como dados históricos mostram que os três eventos ocorrem regularmente, diz Hovius.

Os vales do Himalaia são relativamente estreitos, por exemplo, se comparados aos Alpes na Europa, explica o pesquisador. As massas de água e lama não conseguem se espalhar, mas são comprimidas, aumentando em profundidade e velocidade.

O impacto catastrófico de uma inundação repentina na população depende da distância entre o ponto de origem e a área povoada mais próxima, bem como da velocidade do fluxo de água.

Como proteger a população?

No Nepal, existem dois problemas centrais. As pessoas se estabeleceram ao longo dos rios nos vales do Himalaia, justamente onde estão mais vulneráveis a inundações repentinas. Além disso, quase não existem sistemas de alerta precoce no país, que está entre os mais pobres da Ásia.

Mesmo com alertas em tempo hábil, a recente inundação repentina, particularmente devastadora, teria dado às pessoas apenas alguns minutos para chegar a um local seguro. Hovius relata uma inundação que ocorreu na mesma região no ano passado, menor e, portanto, menos dramática. Naquela ocasião, a água levou uma hora para chegar a um assentamento, tempo suficiente para escapar com um alerta precoce.

“No Nepal, existem iniciativas para estabelecer um sistema de alerta precoce acústico em nível local”, diz Hovius. No entanto, essas iniciativas são muito limitadas, cobrindo no máximo 1% das áreas de risco. O pesquisador do GFZ diz que telefones celulares deveriam ser usados para essa finalidade, com as pessoas sendo alertadas por meio de notificações push. Atualmente, Hovius pesquisa como os dados para um sistema desse tipo podem ser gerados.

A estratégia de assentamento também deve ser reconsiderada, afirma Hovius. Toda a infraestrutura de uma cidade geralmente se concentra ao longo do rio. “As pessoas desceram das montanhas e se estabeleceram nos vales nas últimas décadas. Talvez um retorno às montanhas fosse sensato.”

Qual o papel das mudanças climáticas?

Atribuir eventos individuais às mudanças climáticas é sempre difícil, diz Hovius. Mas é certamente verdade que as geleiras em altas montanhas se tornam mais instáveis com o aumento das temperaturas. Além disso, maiores quantidades de água se acumulam em lagos glaciais, o que torna as inundações repentinas mais prováveis.

No caso da enchente repentina desta semana, Hovius diz que ainda é muito cedo para dizer se a dinâmica relacionada à temperatura teria causado o colapso da geleira. Enchentes repentinas ocorrem regularmente no Himalaia há muito tempo. “Mas acho provável que esses eventos se tornem cada vez mais frequentes”, diz o especialista, alertando que no futuro poderão ocorrer enchentes repentinas muito maiores.

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