Horas após ter suas fronteiras atacadas por forças do Talibã, governo do Paquistão retaliou com bombardeios à capital afegã, Cabul. Tensão entre os dois países aumentou desde 2021.Horas após ter suas fronteiras atacadas por forças do Talibã, o Paquistão retaliou com bombardeios a instalações militares e à capital afegã, Cabul, na noite de quinta para sexta-feira (27/02), ameaçando o frágil cessar-fogo que vigora entre os dois países vizinhos desde outubro.

Embora os dois países troquem hostilidades há meses, os confrontos da madrugada foram descritos como a escalada mais grave no conflito desde que o Talibã assumiu o poder no Afeganistão, em 2021.

Fontes ouvidas pela agência de notícias AFP afirmam que o confronto na fronteira afegã teria atingido um campo de refugiados e deixado crianças, mulheres e idosos em pânico.

O governo paquistanês acusa Kabul de dar abrigo a insurgentes do Talibã paquistanês (TTP) – tanto o governo afegão quanto o TTP negam isso –, e tem promovido ataques no território do país vizinho sob a justificativa de neutralizá-los.

Islamabad culpa o TTP e grupos separatistas pelo aumento da violência militante nos últimos anos.

“Nossa paciência chegou ao limite. A partir de agora, é guerra aberta entre nós e vocês”, declarou na quinta-feira o ministro paquistanês da Defesa, Khawaja Asif, em postagem no X.

Asif acusou ainda o Talibã de transformar o Afeganistão numa “colônia da Índia”, arquirrival de Islamabad. Recentemente, a Índia melhorou suas relações com o Afeganistão, o que irritou o Paquistão.

“O Paquistão fez grandes esforços para manter a normalidade de forma direta e por meio de países amigos. Envolveu-se em uma diplomacia de pleno direito. Mas os talibãs se tornaram um representante da Índia”, afirmou.

No último domingo, o Paquistão lançou ataques aéreos em território afegão e anunciou ter matado ao menos 70 militantes. O Afeganistão contestou, dizendo que o ataque, na verdade, teria matado dezenas de civis e violado sua soberania e seu espaço aéreo.

O que está por trás do conflito

O Paquistão saudou a volta do Talibã ao poder no Afeganistão em 2021. À época, o então primeiro‑ministro Imran Khan chegou a dizer que os afegãos haviam “quebrado as correntes da escravidão”.

Mas as relações azedaram logo, em função da aliança do Talibã paquistanês com o grupo homônimo que governa o Afeganistão.

Islamabad afirma que o Afeganistão é base da liderança do TTP e de muitos de seus combatentes, além de grupos armados separatistas da província do Baluchistão, palco de conflitos violentos há décadas e de disputa por recursos naturais.

Ataques do TTP e de insurgentes balúchis vêm aumentando desde 2022, segundo a Armed Conflict Location & Event Data, uma organização global de monitoramento.

Cabul insiste que não permite o uso do território afegão para ataques lançados por militantes hostis ao governo paquistanês. Pelo contrário: é o Paquistão que estaria abrigando combatentes do Estado Islâmico, rivais do Talibã e responsáveis por atentados terroristas recentes no Afeganistão — uma acusação que Islamabad nega.

Na semana passada, um ataque cometido por um cidadão afegão deixou 11 agentes de segurança e dois civis mortos no distrito paquistanês de Bajaur, informaram autoridades locais. O TTP reivindicou a autoria do ataque.

Forças de segurança paquistanesas afirmam ter “evidências irrefutáveis” de que militantes no Afeganistão estão por trás de uma onda recente de ataques e bombardeios suicidas.

O que é o Talibã paquistanês?

O TTP, popularmente conhecido como Talibã paquistanês, foi formado em 2007 por militantes que atuavam no noroeste do Paquistão.

Desde então, conseguiram expandir seu domínio territorial, principalmente ao longo da fronteira com o Afeganistão, mas também em áreas do interior do país, como o vale do Suate.

Ao longo de sua existência, o TPP tem promovido ataques em mercados, mesquitas, aeroportos, bases militares e postos de polícia. Um de seus ataques mais famosos, em 2012, feriu a então estudante Malala Yousafzai, laureada com o Prêmio Nobel dois anos depois.

O TTP também lutou ao lado do Talibã contra as forças lideradas pelos Estados Unidos no Afeganistão e abrigou combatentes afegãos no Paquistão.

As tentativas do Paquistão até agora de reprimir o TTP em seu próprio território tiveram sucesso limitado, mas uma ofensiva que terminou em 2016 conseguiu reduzir drasticamente, ainda que por poucos anos, o poder de fogo do grupo.

Paquistão é potência nuclear

Agora, analistas afirmam que a tendência é que o Paquistão intensifique sua campanha militar contra o TTP no Afeganistão. Em contrapartida, a retaliação afegã deve vir na forma de mais ataques a postos de fronteira e ataques de guerrilha contra forças de segurança paquistanesas.

O Paquistão é militarmente muito superior ao Afeganistão: uma potência nuclear com 170 ogivas e mais de 600 mil homens em suas Forças Armadas, além de 6 mil veículos blindados, 4,6 mil peças de artilharia e mais de 400 caças, segundo o Instituto Internacional para Estudos Estratégicos. Já o Talibã no Afeganistão tem 172 mil homens, mas nenhuma força aérea de fato ou caça — restam-lhe ao menos seis aeronaves e 23 helicópteros, embora não se saiba em quais condições de uso —, além de blindados da era soviética.

Enquanto o Paquistão continua a investir em seu programa nuclear e na modernização de suas forças naval e aérea, as capacidades militares do Talibã afegão estão decaindo, também devido à falta de apoio internacional ao grupo.

Cessar-fogo em risco

As relações entre os dois países nos últimos meses têm sido marcadas por tensão. Em outubro, confrontos na fronteira deixaram dezenas de soldados, civis e supostos militantes mortos.

Um acordo de cessar-fogo firmado logo depois sob mediação do Catar e da Turquia atenuou os ânimos dos dois lados, mas não conteve totalmente os ataques mútuos a forças de segurança nas fronteiras.

Islamabad diz que o cessar-fogo não durou muito devido à continuidade dos ataques militantes no Paquistão vindos do Afeganistão, e queixa-se de repetidos confrontos e fechamentos de fronteira que teriam prejudicado o comércio e a circulação de pessoas.

O Paquistão, que chegou a abrigar milhares de refugiados afegãos após a ascensão do Talibã em 2021, iniciou uma ampla repressão em outubro de 2023 para expulsar migrantes sem documentos, incentivando aqueles que estavam no país a sair voluntariamente para evitar prisões e expulsando à força outros. O Irã também começou uma repressão contra migrantes aproximadamente na mesma época.

Desde então, milhões cruzaram a fronteira para o Afeganistão, incluindo pessoas que nasceram no Paquistão há décadas e que haviam construído suas vidas e criado negócios ali.

Somente no ano passado, 2,9 milhões de pessoas retornaram ao Afeganistão, segundo a agência da ONU para refugiados, e quase 80 mil já retornaram somente neste ano.

ra (Reuters, AP, AFP)