29/08/2025 - 15:49
Em 2015, a Alemanha abriu suas portas a refugiados. O que veio depois afetou toda a União Europeia. Como a política e os europeus veem os debates sobre migração desde então?Em setembro de 2015, quando a então chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, inaugurou a política de portas abertas do país a refugiados com seu famoso bordão “nós vamos conseguir”, a Europa inteira foi impactada.
Depois que a polícia deixou de tentar reter refugiados nas fronteiras, o número de requerentes de asilo ou refúgio disparou em toda a União Europeia(UE). Em 2015, o escritório de estatísticas do bloco, Eurostat, registrou mais de 1,2 milhão de pedidos; em 2016, foram 1,5 milhão. Destes, mais de um milhão pediram asilo na Alemanha.
Nos anos seguintes, o número de pedidos de refúgio não voltou mais ao patamar pré-2015 – com exceção de 2020, ano de pandemia. O ano de 2023 bateu um novo pico, com mais de 1 milhão de requerentes, mas voltou a cair. Por muitos anos, a Alemanha foi o principal destino; em 2025, porém, o país foi superado pela primeira vez pela França.
Migração é um dos temas mais importantes para o eleitorado da UE
Os cidadãos da União Europeia não reagiram com indiferença a esses números. Na última eleição para o Parlamento Europeu, em 2024, 24% consideravam a migração um tema prioritário nas discussões, segundo o Eurostat.
O tema também pesou nas eleições nacionais, especialmente nos países do bloco que deram vitória nos últimos anos a partidos populistas de direita, como a Áustria e a Holanda. Neste último caso, a campanha eleitoral de novembro de 2023 foi marcada pelo “foco obsessivo” no tema, afirma Anouk Pronk, do instituto holandês Clingendael.
Segundo ela, a migração foi apresentada como se fosse a raiz dos problemas no país, justificando as crises habitacional e nos sistemas social, educacional e de saúde. Mas atualmente, pondera a especialista, esse discurso está em declínio e há tentativas de resolver os problemas, sem fazer da migração um bode expiatório para tudo.
Pronk afirma que não só na Alemanha, mas também a nível europeu há queixas recorrentes de que o Estado estaria sobrecarregado por refugiados e requerentes de asilo. Esse discurso acaba fomentando medidas drásticas, como na Bélgica, onde desde 2023 homens requerentes de asilo já não são mais acolhidos em abrigos estatais.
A Europa tornou-se mais hostil com imigrantes?
Há uma diferença entre opinião pública e a importância que se dá a algo, pondera a cientista política Lenka Drazanova, que pesquisa no Instituto Universitário Europeu de Florença. Segundo ela, a importância do tema migração cresceu nos últimos anos por estar muito presente na imprensa e na política, mas a prevalência de visões pró e anti-imigração na sociedade não mudou muito.
O que mudou desde 2015, afirma Drazanova, é que quem é contra a migração passou a expressar suas posições mais enfaticamente, agindo assim por se sentir ameaçado pelo que desconhece ou por temer perder o emprego, por exemplo.
O alto número de refugiados que chegaram à Alemanha despertou esses sentimentos em alguns europeus, principalmente no Leste e na Europa Central. E aqui os números de fato importam menos que a discussão em si sobre a migração.
O que também mudou, pontua Drazanova, foram as normas sociais e a cultura política sobre como se fala sobre migração e refugiados. E isso, segundo ela, tem a ver com a normalização de visões da extrema direita.
A cientista política Pronk também vê uma mudança na discussão. Na época do “vamos conseguir” de Merkel, ela girava em torno do “dever de ajudar”. Hoje, porém, o debate sobre migração é mais tratado como um risco à segurança.
Isso é algo visível, por exemplo, no novo pacto europeu para asilo e migração, que acima de tudo trata da proteção de fronteiras e da deportação mais rápida de pessoas sem direito de permanência na UE. Pronk atribui essa mudança de cenário à sobrecarga do sistema de asilo dos países-membros do bloco.
UE endureceu regras para asilo e refúgio
O pacto de asilo e migração, que deve entrar em vigor em meados de 2026, prevê “procedimentos nas fronteiras” para os refugiados vindos de países com baixa taxa de aprovação: quando eles têm seus casos analisados antes de entrar na UE, enquanto estão detidos em centros em outros países.
A UE também trabalha atualmente em uma nova diretriz de deportação. Segundo a entidade não governamental de ajuda a refugiados Pro Asyl, até então imigrantes só podiam ser deportados para um país com o qual tivessem algum elo, ou caso concordassem. A Comissão Europeia quer derrubar essa regra e criar “centros de retorno” – espaços fora da UE onde imigrantes que tiveram seus pedidos de refúgio negados serão mantidos até a deportação. O modelo é um dos discutidos há algum tempo pela UE sob o rótulo de “soluções inovadoras”.
Alguns países-membros da UE pressionam o bloco a endurecer ainda mais as regras de asilo e refúgio. Em junho, 21 dos 27 países se reuniram para debater o tema. A reunião a convite de Dinamarca, Holanda e Itália contou com a presença do chanceler federal alemão, Friedrich Merz.
Política não é o mesmo que opinião pública
Em uma coisa as cientistas políticas ouvidas pela DW concordam: o debate político e as leis que o sucedem não refletem diretamente a opinião pública na Europa sobre migração. Na sociedade, o debate tem mais nuances, assegura Pronk, citando como exemplo a solicitude com que refugiados ucranianos foram acolhidos dentro da UE.
Drazanova também afirma que a opinião pública sobre migração é muito complexa: uma mesma pessoa pode ser favorável aos imigrantes que já estão no país, mas rejeitar uma política abertamente pró-migração. Mas, no geral, ela aponta que os estudos mostram que a opinião pública na Europa em relação a imigrantes melhorou um pouco nos últimos anos.