Artista porto-riquenho não deixou ninguém indiferente com a sua apresentação no Super Bowl – transcendendo a música e reivindicando a presença latino-americana.O show do intervalo deste ano do Super Bowl, um dos eventos esportivos com maior audiência do mundo, ficou a cargo de Bad Bunny. E o artista porto-riquenho aproveitou a oportunidade.

“Achei perfeito, muito emocionante, muito profundo… e realmente nos fez chorar”, diz à DW Sheilla L. Rodríguez Madera, professora de Estudos Socioculturais na Universidade Internacional da Flórida.

Rodríguez Madera destaca o simbolismo da performance de Bad Bunny. O artista, que se apresentou com seu nome completo, Benito Antonio Martínez Ocasio, transformou o gramado do Levi’s Stadium, em Santa Clara, Califórnia, numa plantação de cana-de-açúcar, no mercado de La Marqueta, num casamento e numa festa latina. Ele interpretou grandes sucessos, como Titi me preguntó e DeBÍ TiRAR MáS FOToS – canção que dá título do disco mais recente e que venceu o Grammy Awards 2026 na categoria melhor álbum do ano.

Bad Bunny não esteve sozinho. Seu compatriota Ricky Martin, por exemplo, cantou parte de Lo que le pasó a Hawái. E Lady Gaga, convidada surpresa, apresentou Die With a Smile numa versão salsa. “A produção, a seleção das músicas, os artistas convidados… foi uma celebração do que é ser porto-riquenho”, resume Rodríguez Madera. “Quando vemos o Super Bowl começar com um indivíduo dizendo ‘que bom é ser latino’, o porto-riquenho se Bad Bunny torna, na verdade, uma ponte latino-americana”, acrescenta.

Deus abençoe a América… do Norte, Central e do Sul

“O refrão ‘tomara que os meus nunca se mudem’ é direcionado a todos os migrantes dos Estados Unidos, não apenas aos porto-riquenhos”, concorda Mabel Cuesta, cubana e professora de Literatura na Universidade de Houston. “Diz sobre todos nós que tivemos de deixar a nossa casa para procurar uma vida melhor”, acrescenta. E essa ponte para toda a América Latina ficou mais do que evidente.

O próprio Bad Bunny terminou a apresentação gritando “Deus abençoe a América…”, para depois enumerar, um por um, todos os países do continente. Esse lema dos Estados Unidos, diz Cuesta, “o artista reutiliza, recodifica, recicla… para incluir todas as Américas”. “Nesse sentido, foi espetacular, e não podemos ignorar a carga política, porque era muito clara, muito bem pensada, muito bem articulada e foi um sucesso total”, destaca.

“Ou você ama ou odeia”

Para Rodríguez Madera, é “por esse outro registro, que transcende o elemento musical, que ou se ama ou se odeia Bad Bunny. Não há meio-termo”. A pesquisadora, que também é uma das autoras do livro The Bad Bunny Enigma: Culture, Resistance, and Uncertainty, lembra que a escolha do artista para o espetáculo do Super Bowl foi muito criticada desde que foi anunciada.

Em muitos casos, isso “revela a ignorância de muitos americanos, que pensam que Bad Bunny é um imigrante, esquecendo-se de que os nascidos em Porto Rico são cidadãos dos Estados Unidos desde 1917”, salienta.

Assim que a apresentação terminou, o presidente Donald Trump já havia chamado, nas redes sociais, o espetáculo do intervalo de “absolutamente terrível, um dos piores de todos”. “Bad Bunny gera ódio no contexto atual dos Estados Unidos pelo momento que estamos vivendo, porque há uma campanha de branqueamento racial, e isso é preciso ser dito”, avalia Rodríguez Madera. É preciso lembrar que o cantor criticou duramente a polêmica atuação do Serviço de Alfândega e Imigração americano, o ICE, ao receber o Grammy.

“O reggaeton é um tipo de música que causa controvérsia em Porto Rico e nos Estados Unidos, porque é uma música que vem dos bairros populares”, acrescenta. “O evento em si, o Super Bowl, é muito americano… mas se reparar nos jogadores, há um com o sobrenome Love, que é mexicano-cubano”, lembra Cuesta. “Isso também significa viver nos Estados Unidos e ser americano: vir de todos os lugares”, conclui.

“Não sei quem ganhou”

“Trump não entendeu nada… é assim que você percebe o quanto ele está errado”, diz o cineasta cubano Ricardo Bacallao, de Berlim, brincando com o argumento do presidente americano de que não entendia Bad Bunny. “Talvez ele não saiba que também não se entende muito das suas canções em espanhol”, ironiza. “Ele faz isso evidentemente de propósito”, acrescenta. “Minha esposa, que é alemã, também não fala uma palavra de espanhol nem dança salsa… e adorou!”, cita, como exemplo.

“Como espetáculo musical, goste ou não do estilo, foi impecável”, afirma, destacando a coreografia e a sincronização. “Nem sei quem ganhou o Super Bowl”, sacramenta. E, como o diretor, muitos espectadores também não sabem. Talvez até mesmo aqueles que foram ao estádio.

“Houve pessoas que gastaram milhares de dólares num bilhete só para ver aqueles treze minutos de Bad Bunny, que não estavam interessadas no futebol americano, mas sim em apoiar o artista porto-riquenho”, destaca Bacallao.

Ingressos quase esgotados na Europa

Na Alemanha, a febre do reggaeton não chegou com tanta força como em outros países. “Ainda não tem tanta penetração, mas vai acontecer, é evidente”, prevê Bacallao.

A turnê de Bad Bunny pela Europa inclui dois concertos em Düsseldorf em junho, para os quais praticamente já não há bilhetes disponíveis. Na Espanha, por exemplo, também estão previstos dois shows em Barcelona. E dez em Madrid. Encher um estádio durante dez dias seguidos não é algo que se consiga apenas com os imigrantes latino-americanos, por mais que esse grupo some mais de um milhão de pessoas na capital espanhola.

Mas Bad Bunny já é muito mais do que reggaeton. Também musicalmente. “Embora nem a técnica vocal, nem a execução musical, nem as letras de Bad Bunny tenham sido do meu agrado nos seus trabalhos anteriores, neste último álbum e nesta apresentação houve uma mudança”, explica a musicóloga, guitarrista e criadora de conteúdo espanhola Paola Hermosín. “No show, não reduziram a América Latina ao reggaeton como fórmula que vende sempre bem. Outros ritmos estiveram muito presentes”, acrescenta.

“Por isso, acredito que ele tenha se conectado com um público muito diversificado, porque na sua equipe há muita gente trabalhando para manter essas influências musicais e mostrá-las ao público de uma forma moderna e adaptada à indústria comercial”. Ela, que já deu a sua opinião sobre o reggaeton num dos seus vídeos, considera que “Bad Bunny se tornou, para muitos artistas que trabalham com ele, um canal, um meio, a face visível para poder expressar essas ideias e incorporar elementos da cultura latina”.

“Numa época em que há uma quantidade enorme de música, mas com pouca qualidade e bastante vazia de conteúdo, [Bad Bunny] pelo menos contribui e tem algo a dizer, e a arte é isso mesmo, dizer coisas e conectar-se com as pessoas”, afirma Hermosín. “É por isso que gostei desse show”, resume ela… e vários milhões de espectadores. Deve ser por alguma razão.