28/02/2025 - 9:32
Em julho de 1944, Vital de Oliveira foi à pique na costa do Rio de Janeiro após ser torpedeado por um submarino alemão. Agora, 80 anos depois, destroços da embaração foram localizados a 55 metros de profundidade.Foi durante a noite do dia 19 julho de 1944 que um submarino alemão afundou o navio militar brasileiro, Vital de Oliveira, a cerca de 65 quilômetros da costa de Macaé, no estado do Rio de Janeiro.
A explosão causada pelos torpedos rachou a popa do navio, colapsando a estrutura da embarcação em menos de três minutos.
Junto com os destroços, mais de 270 tripulantes foram jogados ao mar. Desses, 99 não conseguiram se salvar.
Pertencente ao Primeiro Escalão da Força Expedicionária Brasileira, o Vital de Oliveira era responsável pelo transporte de tropas e cargas durante a Segunda Guerra Mundial. E foi uma das muitas embarcações vítimas de ataques nazistas durante o período.
Somente 80 anos depois do naufrágio, o casco do navio foi encontrado no fundo do oceano – mais especificamente a 55 metros de profundidade. A divulgação da descoberta aconteceu no final de janeiro deste ano e foi confirmada oficialmente pela Marinha do Brasil.
Navios brasileiros na mira da Alemanha nazista
Contabilizando o Vital de Oliveira, a Alemanha nazista foi responsável pelo ataque a outras 30 embarcações brasileiras – mercantis e militares – entre os anos de 1942 e 1944. O que causou a morte de pelo menos mil pessoas.
O naufrágio do Vital de Oliveira fora o último sucesso alemão no litoral brasileiro durante a guerra. Já a primeira investida nazista contra o país acontecera na costa do Nordeste, em 1942, quando apenas um submarino alemão, o U-507, afundou seis navios brasileiros, matando mais de 600 pessoas. Especialistas afirmam que esse ataque ‘empurrou’ de vez o Brasil para o centro do confronto. Dias depois, o ditador brasileiro Getúlio Vargas anunciou um “estado de beligerância”, praticamente declarando guerra contra o Eixo.
Documentos oficiais dão conta que dezenas de submarinos alemães operaram na costa do Brasil durante a guerra, com aval de Karl Dönitz, um dos principais comandantes da Kriegsmarine (marinha de guerra alemã). Entre eles, estava o submarino U-861, comandado pelo capitão Jürgen Oestern, responsável por afundar o Vital de Oliveira.
“O submarino U-861 foi fabricado em 1943, então era um equipamento relativamente novo quando torpedeou e abateu o Vital de Oliveira. Logo depois, ele foi enviado ao Oceano Índico para auxiliar os japoneses contra a campanha ofensiva norte-americana”, explicou à DW Fernando Loureiro, especialista em história militar.
De acordo com ele, os alemães tinham como missão cortar as linhas de suprimento entre o Brasil e os países aliados.
“Os submarinos da Alemanha possuíam a melhor tecnologia da época, quase imperceptíveis pelos radares. Durante um tempo, a estratégia funcionou, tendo êxito em estrangular a linha de suprimento que saía do Brasil em direção aos países aliados. Mas precisamos levar em consideração que o litoral brasileiro é imenso”, acrescenta Loureiro.
Objetivos
A relevância dos submarinos para os nazistas na guerra também foi destacada pelo historiador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Francisco Carlos.
“Na Primeira Guerra Mundial, a Alemanha utilizou os submarinos apenas na Europa e no norte da África. Já na Segunda Guerra, esses equipamentos foram fundamentais para o esforço nazista no continente americano. Eles tinham a missão de cobrir grande parte da costa brasileira, com destaque para Belém, Natal, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Santos”, disse.
Francisco Carlos ressalta ainda que Hitler ordenara um número ainda maior de submarinos em águas brasileiras para um ‘tremendo ataque’. A ordem do ‘führer’ aparece em documentos oficias da Kriegsmarine.
A possibilidade de um ataque ainda mais sangrento também é mencionada no livro Operação Brasil, do escritor Durval Lourenço Pereira. Segundo o autor, os portos das principais cidades do país seriam torpedeados pelos alemães em represália à aproximação brasileira com os Estados Unidos, a partir de 1942.
Como justificativa ao plano, a Kriegsmarine afirma que o Brasil “colocou não apenas as forças econômicas do país, mas também seu território à disposição do inimigo, de onde parte ataques contra o Eixo”.
À DW, Durval Lourenço Pereira afirma que uma ofensiva mais incisiva foi abortada mais tarde por Hitler, já que um ataque poderia afetar a relação da Alemanha com os outros países da América Latina. Para os submarinos, o alto comando nazista manteve apenas a ordem de patrulhamento e abate de navios brasileiros tentando chegar aos Estados Unidos.
“Caso o plano fosse posto em prática, poderíamos ter presenciado uma Pearl Harbor brasileiro, com centenas de navios afundados e portos destruídos. Felizmente, os ataques não aconteceram”, finaliza Durval.