02/01/2026 - 10:26
Pleitos nos EUA, Hungria, Israel e Brasil testam longevidade política de Trump, Orbán, Netanyahu e Lula. Na Alemanha, eleições estaduais podem abrir porta para ultradireita. Peru e Bangladesh vão às urnas após crises.O ano de 2026 será marcado por uma série de eleições cruciais, das Américas à Europa, passando pelo Oriente Médio e Ásia.
Algumas devem testar a longevidade política de líderes que têm tido um papel proeminente nas últimas décadas, como Luiz Inácio Lula da Silva, Benjamin Netanyahu e Viktor Orbán.
Outros pleitos, como no Peru e em Bangladesh, podem marcar um recomeço político após intensa turbulência política. Na Alemanha e nos EUA, eleições regionais e parlamentares têm potencial de provocar reviravoltas.
Veja oito pleitos importantes de 2026.
Alemanha: eleições estaduais podem levar ultradireita ao poder (março-setembro)
A Alemanha será palco de cinco eleições estaduais em 2026. Pelo menos duas têm potencial de provocar um abalo inédito no cenário político alemão, abrindo caminho para a ultradireita conquistar seus primeiros governos estaduais na história do pós-guerra.
O ciclo será aberto em março, em Baden-Württemberg e na Renânia Palatinado, no oeste alemão. Em setembro, será a vez da cidade-estado de Berlim. Neste trio, segundo pesquisas, partidos tradicionais ainda devem conquistar a maior parte dos votos.
Já nas eleições de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Saxônia-Anhalt, no leste alemão, em setembro, o quadro é bem mais promissor para o partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD), que defende uma feroz agenda anti-imigração e é rotineiramente acusado de abrigar extremistas. Nos dois estados, a AfD tem aparecido com entre 35% e 40% das intenções de voto.
Nos últimos anos, a AfD, já vinha conquistando amplas fatias do eleitorado no leste alemão, mas sempre se viu frustrada em assumir o poder diante de movimentações de partidos rivais, que se uniram para formar governos de coalizão e manter a legenda afastada do controle do Executivo.
No entanto, o patamar de apoio registrado pela AfD nas pesquisas de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Saxônia-Anhalt indica que, desta vez, as outras legendas podem não ter votos suficientes para formar coalizões rivais viáveis, deixando a porta aberta para que a ultradireita assuma a liderança.
Bangladesh: primeira eleição após revolução (fevereiro)
Eleitores do oitavo país mais populoso do mundo vão às urnas em fevereiro para escolher o primeiro governo democraticamente eleito desde a revolução da geração Z de julho de 2024 que derrubou a autoritária premiê Sheikh Hasina, encerrando um ciclo de poder de 15 anos.
Desde a fuga de Hasina, o governo de Bangladesh vem sendo comandando interinamente pelo economista Muhammad Yunus, que recebeu o Nobel da Paz em 2006.
Mas a situação política em Bangladesh continua tensa. Em dezembro, o assassinato de um líder estudantil que teve papel-chave na revolução levou a eclosão de novos protestos.
Além de eleger um novo governo, os eleitores do país de 171 milhões de habitantes, também devem votar num referendo para uma nova Constituição. Entre os favoritos para assumir o governo está o político Tarique Rahman, membro de uma proeminente dinastia política e que retornou a Bangladesh após viver 17 anos no exílio. Já o partido da ex-premiê Hasina foi barrado de disputar a eleição.
Hungria: oposição tenta acabar com longevidade de Orbán (abril)
No poder desde 2010, o premiê húngaro Viktor Orbán conseguiu se projetar como um dos principais nomes da ultradireita mundial, estabelecendo um modelo internacional de governo “iliberal” caracterizado por populismo e enfraquecimento do Judiciário e da imprensa.
Controlando o aparato político da Hungria, Orbán liderou com folga as três últimas eleições.
Mas o próximo pleito, marcado para abril, pode finalmente representar a mais séria ameaça à sua longevidade. Com a economia em declínio e um governo marcado por escândalos, Orbán tem visto a oposição ganhar terreno nas pesquisas para a escolha do próximo Parlamento – e a posição de premiê.
Por enquanto, a aliança partidária de Orbán, a Fidesz–KDNP, vem liderando. Mas a legenda oposicionista Tisza, chefiada por Péter Magyar – um ex-aliado de Orbán que rompeu com o premiê em 2024 –, tem diminuído a diferença.
Orbán tem respondido com isenções fiscais e pagamentos extras para aposentados, numa tentativa de esvaziar a oposição.
A importância do pleito vai além das fronteiras do país de 9,5 milhões de habitantes, e a votação deve ser observada com atenção em Washington, Moscou e Bruxelas. Uma eventual derrota de Orbán seria vista com alívio pela liderança da União Europeia. Já a sua permanência significaria a continuidade no coração do bloco de um governo alinhado tanto a Trump quanto a Rússia de Vladimir Putin.
Peru: eleição presidencial após anos de turbulência (12/04/2026)
Em abril, os peruanos vão escolher um novo presidente, a nova composição dos 130 assentos da Câmara Federal e, pela primeira vez em 30 anos, um recém-recriado Senado com 60 cadeiras.
Com 31 milhões de habitantes, o Peru é palco de instabilidade política há quase uma década. No período, o país teve oito presidentes, e nenhum chefe de Estado conseguiu chegar ao fim do mandato. Em 2025, o país ainda teve quatro ex-mandatários presos ao mesmo tempo.
Em 2021, na última eleição, o enfraquecimento de parte do establishment envolvido em acusações de corrupção abriu caminho para a eleição do populista Pedro Castillo. Mas ele também não durou muito, sendo removido do cargo pela Câmara em 2022, na esteira de uma tentativa de autogolpe.
Sua sucessora, Dina Boluarte, chegou a figurar entre as líderes mais impopulares do mundo, com 2% de aprovação, e acabou removida do cargo em outubro.
Para a eleição presidencial de 2026, são esperados mais de 30 candidatos, em mais um sinal de fragmentação política. Entre eles estão o prefeito de Lima, Rafael Lopez Aliaga, o comediante Carlos Alvarez e Keiko Fujimori, veterana de outros pleitos e filha do ex-ditador Alberto Fujimori.
Pesquisas mostram pouco favoritismo, com Aliaga na liderança com apenas 13% das intenções.
Colômbia: eleição presidencial em meio à tensão com EUA (31/05)
Assim como o Peru, a Colômbia vai às urnas para eleger um novo presidente e um novo Congresso num cenário de tensão, mas no caso, externa.
O atual presidente, Gustavo Petro, no poder desde 2022, não pode disputar a reeleição e seu bloco de esquerda indicou o senador Iván Cepeda como candidato.
Nos últimos meses, o país passou a temer uma ressurgência da violência política que caracterizou a Colômbia nos anos 1990. O exemplo mais explícito foi o assassinato do senador e pré-candidato presidencial Miguel Uribe Turbay em junho.
Mas os olhos estão especialmente voltados para o exterior. Petro tem sido alvo de hostilidade por parte dos EUA desde o retorno de Donald Trump ao poder. O mandatário americano chegou a proibir a entrada de Petro nos EUA e a afirmar, sem provas, que o colombiano é “um traficante”.
Uma pesquisa em novembro mostrou que 81% dos colombianos acreditam que o país precisa ter boas relações com os EUA, algo que pode pesar no próximo pleito. Também é esperado que Trump venha a interferir, assim como ocorreu em 2025 em eleições na Argentina e Honduras.
Por enquanto, pesquisas mostram que o campo de Petro permanece à frente. Na sequência, aparecem o advogado Abelardo de la Espriella, que tenta se projetar como um “Milei colombiano”; e Sergio Fajardo, centrista e ex-prefeito de Medellín.
Brasil: eleição testa força de Lula e rumo da extrema-direita pós-Bolsonaro (04/12)
O pleito presidencial brasileiro terá pela sétima uma vez um nome familiar: o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que aos 80 anos, busca um quarto mandato. Embora sua aprovação esteja bem distante dos recordes registrados no final dos anos 2000, Lula tem aparecido como o candidato mais bem-posicionado para vencer tanto no primeiro quanto no segundo turno.
Se o nome de Lula é certo nas urnas, o mesmo não pode se dizer sobre quem será o seu principal adversário.
Por enquanto, persiste uma indefinição no campo da direita, que não contará com o ex-presidente Jair Bolsonaro, declarado inelegível e atrás das grades após condenação por tentativa de golpe.
Filho mais velho de Bolsonaro, o senador Flávio tumultuou recentemente o cenário ao apresentar pré-candidatura, enquanto outros campos da direita se mostram céticos, preferindo nomes como os governadores Tarcísio de Freitas (SP) ou Ratinho Jr. (PR), entre outros. Por enquanto, não há um nome que aglutine todo o espectro.
Israel: 1º eleição após guerra e pleito crucial para Netanyahu (até o fim de outubro)
Em 2026, os israelenses vão eleger um novo Parlamento e, consequentemente, determinar o futuro político de Benjamin Netanyahu, o mais longevo chefe de governo da história do país, que acumula 18 anos no poder em diferentes períodos desde 1996. O pleito está previsto para outubro, mas pode ser antecipado conforme a situação política.
Será a primeira eleição desde a turbulência dos protestos em massa de 2023 contra a reforma do Judiciário promovida por Netanyahu e também do início da guerra em Gaza em outubro do mesmo ano.
Nos últimos dois anos, Netanhayu acumulou uma série de sucessos militares contra o Hamas em Gaza, o Hezbollah no Líbano, os houthis no Iêmen e o regime iraniano. Mas a reação feroz em Gaza, que deixou dezenas de milhares de mortos, também transformou Israel num pária em diversas regiões do mundo.
A campanha eleitoral ainda deve reavivar acusações sobre falhas de inteligência e falta de prontidão do governo antes da ofensiva terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Para Netanyahu, que já declarou que pretende concorrer novamente, o pleito não é apenas uma questão de sobrevivência política, mas também legal. No cargo, o premiê tem sido capaz de se blindar desde 2020 contra um processo por suspeita de corrupção e tráfico de influência.
Ele também acumula alta reprovação, segundo pesquisas, mas, no que pode parecer um paradoxo à primeira vista, Netanyahu e seu partido, o Likud, têm aparecido à frente de legendas rivais para o pleito de 2026.
Boa parte disso se deve, em grande parte, à fragmentação do cenário político local, dividido em dezenas de partidos, e à incapacidade histórica de rivais formarem coalizões capazes de destronar Netanyahu.
EUA: eleições de meio de mandato definem viabilidade do governo Trump (03/11)
Após a reviravolta política de 2024 que marcou o retorno de Donald Trump à Casa Branca, os eleitores dos EUA voltam às urnas em 2026 para outro pleito encarado como crucial tanto para o restante do mandato do presidente republicano quanto para a oposição democrata.
Em novembro, quando Trump estiver perto da marca de dois anos de governo, vão ocorrer as “midterms”, ou “eleições de meio de mandato”.
No pleito, estarão em disputa todos os 435 assentos na Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil) e pouco mais de 30 das 100 cadeiras do Senado. Ou seja, estará em jogo o controle do Congresso, que hoje é dominado pelos republicanos de Trump e que têm dado aval para todas as medidas do presidente.
Historicamente, as midterms são um termômetro da aprovação de um presidente. E governos mal avaliados costumam penar: nas últimas quinze eleições do tipo, apenas duas resultaram num aumento de cadeiras na Câmara para o partido governista da vez. Uma derrota para Trump pode tanto enfraquecer seu governo quanto reenergizar os democratas para o pleito presidencial de 2028.
