30/11/2025 - 18:11
Quase 80% das nossas transmissões espaciais se concentram em faixa estreita do plano orbital da Terra, criando uma “estrada cósmica” para procurar civilizações alienígenas.Embora o tema possa parecer especulativo ou sensacionalista, na comunidade científica há quem leve essa incógnita muito a sério e busque, a partir de um ponto de vista científico rigoroso, encontrar respostas para a grande pergunta: estamos sozinhos no universo?
Durante décadas, as tentativas de encontrar inteligência extraterrestre têm vasculhado o cosmos em busca de “tecnomarcadores”: lampejos de rádio, pulsos de laser ou qualquer vestígio tecnológico ainda desconhecido que possa revelar a existência de outra civilização.
Mas surge um dilema fundamental: na imensidão do universo, onde e quando procurar? Pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia e do Laboratório da Nasa, nos Estados Unidos, acreditam ter encontrado a resposta em um lugar inesperado: em nós mesmos.
O estudo destes cientistas propõe uma premissa simples, porém revolucionária: em vez de imaginar como os extraterrestres se comunicariam, deveríamos examinar como nós fazemos isso.
Assim, ao analisar os padrões das nossas próprias transmissões interplanetárias, eles criaram um mapa que pode transformar a busca por sinais alienígenas no cosmos.
Padrões ocultos
A equipe científica, liderada por Pinchen Fan, pesquisador em Astronomia e Astrofísica, analisou 20 anos de registros da Rede de Espaço Profundo (DSN, na sigla em inglês) da Nasa. Entre 2005 e 2025, foram mais de 92 anos de operações de antenas distribuídas globalmente em tempo acumulado de funcionamento – e não cronológico –, segundo o estudo publicado na revista Astrophysical Journal Letters.
Com instalações em Estados Unidos, Espanha e Austrália, esta rede constitui a espinha dorsal das comunicações com espaçonaves em missões interplanetárias, enviando comandos a rovers marcianos, orbitadores e sondas nos confins do sistema solar.
O que eles descobriram foi surpreendente: nossos sinais não se dispersam aleatoriamente pelo cosmos.
Os dados revelaram que 79% de todas as transmissões para o espaço profundo ocorrem dentro de uma margem de apenas 5 graus do plano orbital da Terra — o disco imaginário no qual os planetas do nosso sistema solar orbitam ao redor do Sol.
“Como nosso sistema solar é bastante plano e a maioria dos planetas orbita nesse mesmo plano, a maior parte das transmissões da DSN ocorreu dentro de 5 graus do plano orbital da Terra”, explicaram os pesquisadores em comunicado da Universidade Estadual da Pensilvânia.
Uma “estrada cósmica”
O estudo mostra que a pegada radioelétrica da humanidade se concentra ao longo de trajetórias previsíveis, quase como se seguíssemos uma estrada cósmica em nossas comunicações com o espaço profundo.
De todos os destinos de nossas transmissões, Marte acabou sendo o mais significativo. Durante as conjunções Terra-Marte — quando ambos os planetas se alinham em suas órbitas —, as comunicações se intensificam dramaticamente.
A apenas 2 minutos de arco de Marte, o “ciclo de trabalho” (a fração de tempo em que os sinais estiveram ativos) atingiu um pico de cerca de 77%, o que equivale a aproximadamente 9 meses por ano.
Em outras palavras, se uma civilização alienígena observasse durante um alinhamento entre a Terra e Marte, teria cerca de 77% de chance de interceptar nossas transmissões. Segundo o site especializado StudyFinds, isso representa uma vantagem 400 mil vezes maior do que observar a partir de uma direção aleatória.
Exoplanetas em alinhamento
Seguindo essa lógica, nossas próprias buscas por inteligência extraterreste podem se beneficiar ao focar em exoplanetas que transitam diante de suas estrelas ou que estejam situados nesse mesmo plano orbital.
“Para aprimorar nossa busca por tecnomarcadores, deveríamos procurar o alinhamento de exoplanetas”, explicaram os pesquisadores. Foram detectados picos menores também para Mercúrio,Júpiter e Saturno.
A equipe calculou que uma transmissão típica da DSN poderia ser detectada a até 7 parsecs (aproximadamente 23 anos-luz) com a tecnologia atual. Dentro desse raio, existem 128 sistemas estelares conhecidos. Qualquer um deles poderia, teoricamente, abrigar civilizações capazes de detectar atividade radioelétrica terrestre.
“Se civilizações extraterrestres operarem redes similares à DSN, também poderemos detectar suas transmissões desses sistemas próximos”, afirma o estudo.
Futuro de promessas
Com o próximo lançamento do telescópio espacial Nancy Grace Roman, a equipe de pesquisadores espera detectar cem mil exoplanetas adicionais, de modo que a área potencial de busca deve aumentar consideravelmente.
É possível que supostos extraterrestres usassem lasers em vez de ondas de rádio, mas os lasers são mais direcionais e difíceis de detectar acidentalmente. Por ora, os sinais de rádio continuam sendo as marcas mais visíveis — e audíveis — da nossa existência tecnológica.
“Nós, seres humanos, estamos em uma fase muito inicial de nossa jornada espacial. Nossas transmissões só devem aumentar”, afirma Jason Wright, professor de astronomia e astrofísica da Universidade Estadual da Pensilvânia e diretor do Centro de Inteligência Extraterrestre.
Essa abordagem não garante encontrar sinais alienígenas, mas torna a busca mais precisa e oferece um dos primeiros roteiros quantitativos sobre onde e quando sinais de outras civilizações tecnológicas poderiam aparecer.
ht (ots)
