06/01/2026 - 12:44
Pressão de Trump encoraja manifestantes contra o regime em Teerã, mas também gera temores de ação militar externa ou de ainda mais repressão doméstica.Ao lançar ameaças em mais uma frente de batalha da sua política externa, o presidente Donald Trump repetiu que os Estados Unidos poderiam intervir no Irã diante dos protestos contra o regime do aiatolá Ali Khamenei.
“Estamos monitorando essa situação muito de perto”, disse o líder americano a repórteres. “Se eles [o governo iraniano] começarem a matar pessoas como fizeram no passado, acho que serão atingidos com muita força pelos Estados Unidos.”
Há mais de uma semana que protestos em várias partes do Irã criam uma atmosfera de turbulência política. Segundo grupos de direitos humanos, ao menos 16 manifestantes foram mortos, dezenas ficaram feridos e um grande número foi preso.
Num dos incidentes mais recentes, forças de segurança teriam atacado um hospital central na cidade ocidental de Ilam, onde muitos manifestantes feridos recebiam tratamento.
A pressão de Washington, combinada com a escalada da violência, alimenta um debate dentro do Irã: alguns argumentam que as declarações de Trump podem encorajar os manifestantes, enquanto outros alertam que também podem ser usadas pelo regime para justificar e intensificar a repressão.
O custo do silêncio ocidental
A experiência do Movimento Verde de 2009 – quando dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas para protestar diante das denúncias de fraude nas eleições presidenciais – mostra que a falta de apoio ocidental tornou a República Islâmica mais ousada na repressão a manifestantes, afirma o especialista Kamran Matin, professor de relações internacionais na Universidade de Sussex, no Reino Unido.
“A ameaça de ação contra o regime feita por Trump, especialmente depois do que aconteceu com o presidente da Venezuela, provavelmente fortalecerá a moral dos manifestantes e reduzirá a confiança do regime no uso da força”, afirma o especialista.
À época, o regime iraniano afirmou que a votação nas urnas fora amplamente vencida pelo então presidente, Mahmoud Ahmadinejad. A oposição denunciou fraude eleitoral generalizada. Apesar de os manifestantes gritarem o nome do então presidente dos EUA, Barack Obama, e pedirem o apoio da Casa Branca, o governo americano evitou uma intervenção aberta.
A repressão subsequente ao Movimento Verde levou à prisão de milhares de opositores. Dezenas de manifestantes foram mortos, e o regime resistiu, mantendo a repressão política até hoje.
Oposição dividida
Dentro do Irã ou no exílio, opositores do regime que se identificam com a direita, particularmente os monarquistas e alguns grupos étnicos opositores, tendem a ser mais receptivos às declarações de Trump. Outros segmentos da oposição permanecem céticos, e algumas figuras optam pelo silêncio.
O político iraniano-alemão e ativista de direitos humanos Behrooz Asadi afirma que o apoio internacional deve ser oferecido sem condições, sem dependência e sem interferência nos interesses nacionais do Irã.
“Se esse apoio defender o direito à reunião pacífica em conformidade com convenções internacionais, pode ser bem-vindo”, diz Asadi. “Ao mesmo tempo, ele alerta fortemente contra ação militar. “Somos firmemente contra guerra e ataques militares. Nenhuma guerra jamais trouxe democracia.”
O risco da volatilidade
O ativista político iraniano Taghi Rahmani, marido da Nobel da Paz Narges Mohammadi, afirma que a abordagem de Trump mina a ordem legal e ética internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial.
“A mensagem de Trump sugere que os Estados Unidos, como país mais poderoso do mundo, podem agir por conta própria”, afirma, destacando as contradições que costumam marcar o discurso do presidente americano ao fazer ameaças a seus rivais, tal como no recente caso da Venezuela. “Isso torna uma intervenção dos EUA imprevisível e potencialmente prejudicial.”
Já o analista político Abdolreza Ahmadi tem uma visão mais positiva. “Depois que a mensagem foi publicada, os protestos se expandiram. A ameaça envia um sinal dissuasivo legal e político, e a União Europeia não pode permanecer neutra.”
Resposta contundente
O Irã levou formalmente a questão às Nações Unidas. Enquanto isso, autoridades de alto nível do regime criticaram duramente as declarações de Trump.
O secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, afirmou que os comentários de autoridades dos EUA e de Israel sobre os protestos revelam as “verdadeiras forças por trás” da turbulência política.
Também o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, expressou apoio aos manifestantes. “É bastante possível que estejamos num momento em que o povo iraniano esteja tomando o próprio destino em suas mãos”, afirmou.
Segundo Larijani, o envolvimento da Casa Branca provocaria instabilidade, e “interferir nos assuntos internos do Irã significaria caos na região e danos aos interesses dos EUA”. Advertiu ainda os americanos a “cuidarem dos seus soldados”, acusando Trump de empurrar o país para um aventureirismo perigoso.
Já o assessor do líder supremo do Irã Ali Shamkhani disse que os iranianos conhecem bem o envolvimento militar dos EUA no exterior, referindo-se ao Iraque, ao Afeganistão e à Faixa de Gaza. “Qualquer mão que se aproxime da segurança do Irã sob qualquer pretexto será cortada com uma resposta dolorosa.”
As tensões entre os dois países aumentaram após obombardeio das instalações nucleares iranianas no ano passado, precedido pelo conflito entre iranianos e israelenses. A violência aumentou os temores de um conflito regional mais amplo e, ao mesmo tempo, a esperança dos manifestantes iranianos por mudanças políticas.
