13/01/2026 - 11:47
Intervenção dos EUA e eventual instabilidade política na Venezuela podem ampliar ingresso de refugiados e favorecer atuação de grupos armados na fronteira com o Brasil.A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, com a captura do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e os bombardeios em Caracas, mostrou ao mundo, e sobretudo aos países latino-americanos, o que significa na prática a nova estratégia de segurança nacional recentemente divulgada pelo governo do presidente Donald Trump.
O que aconteceu em 3 de janeiro tem, entretanto, um aspecto a mais para os sul-americanos: foi a primeira intervenção em solo realizada pelos EUA na América do Sul. Isso dissemina o receio de novos ataques na região e impõe desafios estratégicos e operacionais às Forças Armadas e aos sistemas de defesa de países como o Brasil.
Especialistas em política internacional e estudos estratégicos de defesa e segurança entrevistados pela DW afirmam que uma eventual alta da instabilidade política, militar, social e econômica no país vizinho, decorrente da intervenção, pode ter consequências diretas e indiretas para a Marinha, a Aeronáutica e o Exército brasileiros: tanto demandar mais infraestrutura e capacidade de dissuasão numa eventual ação americana em solo brasileiro quanto afetar tarefas já existentes devido ao aumento do fluxo migratório e de atividades ilegais na fronteira.
O Brasil tem 2,2 mil quilômetros de fronteira com a Venezuela no Amazonas e em Roraima, dos quais 90 km são delimitados de forma convencional e o restante por divisor de água. Por isso as Forças Armadas já vêm lidando há pelo menos uma década com os efeitos da crise econômica venezuelana, inclusive por meio de uma ação humanitária oficial de acolhimento de refugiados e migrantes, a Operação Acolhida.
Desde a recente intervenção dos EUA, porém, os militares brasileiros permanecem em silêncio. Não houve nenhum posicionamento formal sobre a estratégia a ser adotada pelas entidades militares do país. A DW contactou as Forças Armadas brasileiras, bem como o Ministério da Defesa e o Ministério das Relações Exteriores, mas nenhum deles se posicionou.
Logo após o ocorrido, o ministro da Defesa, José Múcio, chegou a dizer que a fronteira estava aberta e que havia contingente suficiente para garantir a segurança nacional. Dois dias depois, em 5 de janeiro, quatro generais inspecionaram a fronteira – Luiz Gonzaga Viana Filho, do Comando Militar da Amazônia (CMS), José Luís Araújo dos Santos, da Força-Tarefa Logística Humanitária Operação Acolhida, Cláudio Henrique da Silva Plácido, do Comando Operacional Conjunto Catrimani 2º, e Roberto Pereira Angrizani, da 1ª Brigada de Infantaria de Selva. No mesmo dia o governador de Roraima, Antonio Denarium, se reuniu com o comandante do Comando Militar da Amazônia, general de Exército Viana Filho, para alinhar medidas diante do cenário de instabilidade na Venezuela .
Já no dia 8, o governo autorizou o aumento de efetivo da Força Nacional de Segurança Pública em Roraima pelos próximos 90 dias, mas sem especificar se a medida tinha correlação com o ocorrido no país vizinho.
Desproporção no poder militar
Intervenções dos EUA na América Latina não são novidade, mas o que ocorreu na Venezuela, além de ser uma demonstração de força, evidencia a desproporcionalidade do poderio militar americano frente aos sistemas de defesa da região. “Os Estados Unidos tem um potencial bélico de um nível tão sofisticado, tão à frente do mundo todo, e sem falar da América Latina, que é uma situação pavorosa”, afirma o pesquisador Leonardo Paz, da Fundação Getúlio Vargas.
Segundo ele, o que aconteceu tampouco foi um ataque convencional, tanto do ponto de vista de estratégia quanto de operação. “Até um passado recente, intervenção significava tropas no solo, que eles têm que ter soldado lá mesmo ocupando o país para poder fazer a transição política, como foi com o Afeganistão. Agora você não está nem aí para quem está no controle do país, desde que faça o que você quer”, afirma Paz.
O especialista em defesa e segurança Márcio Malta, da Universidade Federal Fluminense (UFF), analisa que essa é uma “guerra híbrida, cinza, com o uso de drones, de tecnologias que mostraram que os Estados Unidos conseguem desarticular uma nação muito rapidamente”.
Segundo Malta, isso é uma demonstração de como os Estados Unidos tem o controle de tecnologias eletromagnéticas e do ciberespaço para conseguir neutralizar uma força armada convencional, ainda que provavelmente o modo como se deu a intervenção também evidencie possíveis acordos prévios.
“Nenhuma força armada, de fato, consegue lidar, bater de frente com os Estados Unidos e se preparar para isso”, acrescenta Paz.
Por força armada convencional entende-se exército, uso de baterias antiaéreas, de tanques e caças. Mas, no caso da Venezuela, além de caças e bombardeiros, foram usados drones controlados remotamente e avião de combate para guerra eletrônica e foram feitos cortes da energia elétrica e internet.
Num hipotético ataque ao Brasil, os militares brasileiros estariam apenas parcialmente preparados para responder a um ataque semelhante. “Nossas Forças Armadas têm agentes com dispositivos para lidar com ataques dessa maneira, mas é claro que a questão da desproporção é nítida”, diz Malta.
Um outro aspecto é a dependência de tecnologia. “Ao mesmo tempo em que nós temos formas de controlar a comunicação, somos completamente dependentes – e aí há uma questão estrutural – em questão de tecnologia e comunicação”, diz. A dependência se dá porque aparatos como servidores, chips, aparelhos celulares, mecanismos de torres e antenas são fornecidos pelas grandes potências mundiais.
Consequências humanitárias
A intervenção dos EUA na Venezuela e a consequente transição no governo em Caracas cria ainda um outro desafio para o Brasil: o fluxo de refugiados venezuelanos.
Pode acontecer tanto o retorno em massa de venezuelanos que haviam cruzado a fronteira nos últimos anos, fugindo da fome, falta de trabalho, desabastecimento de medicamentos e outras limitações impostas pela crise econômica, como também a chegada de novos venezuelanos ao Brasil.
“Caso os Estados Unidos comecem a perseguir apoiadores de Maduro e integrantes do atual regime, muitos poderiam pedir asilo no Brasil e em outros países, o que traria um grau de instabilidade para a nossa região”, analisa Malta.
Um eventual acirramento da crise econômica na Venezuela pode provocar também novas ondas de deslocamento forçado que exijam ainda mais da forças militares, afoguem os sistemas públicos, gerem desabastecimento e acirrem o preconceito contra estrangeiros.
“A situação de insegurança econômica, alimentar, social e política na Venezuela acaba por gerar impactos regionais bastante significativos ao aumentar a pressão por serviços sociais e de emprego nos países vizinhos”, analisa a professora Graciela de Conti Pagliari, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
A Venezuela se tornou, na última década, a principal origem de imigrantes no país, de acordo com dados do Censo 2022 do IBGE. O número de venezuelanos vivendo no Brasil saltou de 2 mil para 199 mil no período de cinco anos anteriores aos censos de 2010 e 2022.
Dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), divulgados pelo jornal O Globo, também mostram que o número de venezuelanos atendidos pelo Bolsa Família passou de 1.076, no final de 2017, para 205.587 em setembro de 2025.
O Brasil mantém desde 2018 a Operação Acolhida, uma resposta humanitária do governo federal à crise migratória venezuelana, que já recebeu e enviou mais de 150 mil migrantes e refugiados venezuelanos para 1.100 cidades brasileiras. Um dos eixos da operação é justamente o controle da fronteira.
“As nossas Forças Armadas têm uma atuação completamente diferente de outras. Você percebe que as Forças Armadas da Venezuela estão na fronteira muito mais numa perspectiva de controle do território, ao passo que as nossas atuam mais numa perspectiva civilizatória e humanitária”, avalia Malta.
Grupos armados
Seria do interesse do Brasil atuar na mediação da transição política venezuelana para evitar a escalada da crise e até mesmo um cenário de guerra civil no país vizinho, o que poderia elevar o poder dos vários grupos armados que já atuam na fronteira e com isso a criminalidade e o ingresso de refugiados.
“A defesa brasileira não tem capacidade de lidar com os Estados Unidos, mas tem capacidade de se desdobrar na região e pode tentar ajudar a conter esses desafios, seja um grande fluxo de refugiados, seja a incursão de grupos armados. Não só as forças armadas, mas a Polícia Federal também”, afirma Paz.