06/03/2026 - 11:27
Ao deflagrar guerra contra o Irã, Trump afirmou que o regime em Teerã teria reiniciado o seu programa nuclear após bombardeios em 2025 e poderia, em poucos dias, desenvolver armas nucleares.Desde 28 de fevereiro, Estados Unidose Israel estão em guerra contra o Irã. Como justificativa para a segunda leva de ataques aéreos contra o país persa em menos de um ano, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o desenvolvimento de armas nucleares pelo regime iraniano representava uma ameaça iminente ao povo americano.
Segundo Trump, o Irã teria reiniciado o seu programa nuclear e poderia, em poucos dias, desenvolver armas nucleares, inclusive mísseis de longa distância com capacidade para alcançar os Estados Unidos.
Mas não é isso o que dizem as agências de inteligência do próprio governo americano. De acordo com uma reportagem do jornal The New York Times, o Irã estaria enfraquecido e precisaria de anos para desenvolver mísseis de longo alcance.
Certo é que, atualmente, o país possui mísseis de curto e médio alcance, o que poderia torná-lo uma ameaça real para países da região e alguns da Europa, mas não para os EUA.
Irã enfraquecido
Informações reunidas de grupos de monitoramento de armas internacionais, agências de inteligência dos Estados Unidos e oficiais do governo americano e de países europeus indicam que o Irã não é capaz de produzir mísseis de longo alcance e, portanto, não constitui uma ameaça iminente e direta aos EUA.
Segundo essas fontes, o Irã tem atuado para desenterrar instalações nucleares afetadas pelos ataques de Israel e dos EUA em junho de 2025, além de ter retomado atividades em instalações nucleares incompletas, que não foram atingidas no ano passado e já são conhecidas pelas agências de inteligência americanas.
Mesmo assim, oficiais americanos apontam que não há evidência de que o país esteja enriquecendo urânio novamente, tentando construir um mecanismo para detonação de uma bomba, ou, ainda, erguendo novas plantas nucleares.
De acordo com representantes do governo americano e inspetores de armas internacionais, o Irã precisaria de meses ou até um ano para acessar o urânio enriquecido a 60% localizado nas três principais plantas nucleares iranianas, Natanz, Fordo e Isfahan, que foram soterradas no ataque anterior.
Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), a maior parte do urânio enriquecido pelo país segue soterrada em Isfahan, e, apesar dos esforços iranianos para reaver suas plantas nucleares, não há indícios de que o Irã esteja desenterrando os contêineres subterrâneos profundos onde o material está estocado.
Somente com esse acesso, e após enriquecer o urânio a 90% de pureza, seria possível construir uma arma nuclear rapidamente, como sugerido por Trump.
Em coletiva de imprensa recente em Viena, na Áustria, o chefe da AIEA, Rafael Grossi, reiterou que não há evidência de que o Irã esteja conduzindo um projeto para o desenvolvimento de armas nucleares atualmente.
Escolha ou necessidade?
Esse conjunto de fatores leva alguns analistas a crer que os Estados Unidos atacaram o Irã justamente porque este país estava politicamente, economicamente e militarmente enfraquecido, e não por representar uma ameaça nuclear, como alegado por Trump.
Sob esta ótica, a atual guerra no Irã seria uma “guerra deliberada” – termo das relações internacionais usado para designar uma guerra promovida geralmente em um momento de fraqueza do adversário com o objetivo de minar sua capacidade de ataque.
Por analogia, o oposto da “guerra deliberada” é a “guerra necessária” – quando há evidências de que um país irá atacar o outro, por exemplo, conferindo legitimidade à ação.
Os dois conceitos são explorados pelo ex-diplomata americano Richard Haass em seu livro War of Necessity, War of Choice: A Memoir of Two Iraq Wars (“Guerra de Necessidade, Guerra de Escolha: Uma Memória de Duas Guerras do Iraque”, em tradução livre) à luz das guerras do Golfo.
Haass considera a primeira delas uma guerra por necessidade, porque os Estados Unidos intervieram no início da década de 1990 para libertar o Kuwait da invasão do presidente iraquiano Saddam Hussein. Já a segunda, que teve início em 2003, seria uma guerra por escolha, “preventiva”, porque os EUA invadiram o Iraque sob a justificativa de que o país teria armas de destruição em massa – armas cuja existência, no fim das contas, nunca foi comprovada.
Outro exemplo de guerra “preventiva” é a invasão russa da Ucrânia, justificada pelo presidente Vladimir Putin como necessária para prevenir uma possível aproximação ucraniana com a Otan, vista como uma ameaça à segurança russa.
De modo geral, esse tipo de guerra por escolha é amplamente condenado pela comunidade internacional.
No caso do conflito atual, Trump teria utilizado uma chamada “janela de oportunidade” ao receber informações detalhadas da CIA sobre um encontro de líderes do Irã, aproveitando a fragilidade do país para tentar forçar uma mudança de regime ao matar o líder supremo iraniano, Ali Khamenei.