04/03/2026 - 17:49
Futuro do país em conflito com Israel e EUA é incerto. Possibilidades citadas por analistas vão desde continuidade aos moldes da Venezuela a endurecimento do regime e guerra civil.Quando, em 28 de fevereiro, as primeiras bombas caíram sobre o Irã, pessoas subiram aos telhados e comemoraram em Teerã. Essa não é exatamente a reação que se esperaria quando os inimigos declarados pelo governo – EUA e Israel – iniciam uma guerra que é, no mínimo, controversa sob o direito internacional.
Mas muitos no país aceitam vítimas civis e danos de guerra se isso significar o fim do odiado regime teocrático. Mesmo que os EUA façam declarações contraditórias sobre seus objetivos de guerra, o que está em pauta é uma troca de regime.
O presidente dos EUA, Donald Trump, apelou diretamente ao povo iraniano que, em janeiro, tomou as ruas em manifestações em massa brutalmente reprimidas, pedindo que a população tome o poder. “Esta talvez seja a única chance em gerações”, afirmou.
Horas depois, veio a público a notícia morte do líder supremo Ali Khameneiem um bombardeio a Teerã. No entanto, mesmo após um baque dessa magnitude, o regime iraniano continua plenamente funcional – e permanece totalmente em aberto se os EUA e Israel alcançarão seu objetivo militar.
Veja, abaixo, os possíveis cenários para o Irã após a guerra.
O cenário da Venezuela
Após a morte de Khamenei, os EUA poderiam se contentar em ver um sucessor alinhado com seus interesses. O próprio Trump disse ao jornal The New York Times que tinha “três opções muito boas” em mente, que não queria revelar naquele momento.
Uma troca de liderança sem alterar a estrutura do sistema – esse foi o modelo usado pelos EUA na operação na Venezuela. No início de janeiro, forças especiais capturaram o então líder Nicolás Maduro e fizeram um acordo com sua antiga vice, Delcy Rodríguez. “O que fizemos na Venezuela é o cenário perfeito”, disse Trump em referência ao Irã.
O especialista em Irã Cornelius Adebahr, do think tank Sociedade Alemã para Política Externa (DGAP), disse à emissora pública de TV alemã ARD que o Irã poderia usar a escolha do sucessor para montar uma nova liderança baseada na força da Guarda Revolucionária e oferecer aos EUA uma reaproximação. “Esse é o cenário estilo Venezuela. Troca-se apenas o topo e, no fim, muda muito menos do que as pessoas esperavam.”
Mas não está claro se os EUA realmente preferem esse cenário: na mesma entrevista ao New York Times, Trump também reiterou a possibilidade de que a população iraniana se levante por uma mudança de sistema mais profunda.
Mudança para liderança pragmática
A queda do regime é, para Peyman Asadzade, do Belfer Center da Harvard Kennedy School, uma consequência possível da guerra. Uma segunda opção seria uma “continuidade recalibrada”: isso ocorreria se a Assembleia dos Peritos escolhesse um pragmático como sucessor de Khamenei.
“As prioridades internas seriam a reconstrução econômica, estabilização e reformas políticas, enquanto a política externa buscaria a desescalada”, afirmou numa análise.
Essa variante se encaixa no cenário já mencionado da Venezuela.
“Um curso pragmático para uma liderança pós-guerra em Teerã teria como objetivo desescalar em relação aos EUA e permitir alívio econômico para milhões de iranianos”, afirma Burcu Ozcelik, especialista em Oriente Médio do think tank britânico Royal United Services Institute (Rusi). “Isso poderia abrir caminho para uma fase mais estável e necessária de recuperação”, avalia.
Asadzade descreve como terceira possibilidade que o sistema existente se una em torno de um linha-dura ainda mais conservador, reforçando a ideologia vigente.
Julian Borger, correspondente do jornal britânico The Guardian, expressa o temor de que “após repetidos ataques, os membros sobreviventes da liderança concluam que uma bomba atômica é a única garantia de sobrevivência. Eles poderiam reprimir a oposição com ainda mais dureza e o regime se tornaria cada vez mais semelhante ao Coreia do Norte: isolado, paranoico e nuclearmente armado.”
Transição para democracia?
Duas semanas antes do início da guerra, paralelamente à Conferência de Segurança de Munique, cerca de 250 mil iranianos exilados e outros manifestantes deram, em manifestação na capital do estado alemão da Baviera, um sinal claro sobre o que poderia surgir após o regime dos aiatolás: eles ovacionaram Reza Pahlavi, filho do xá deposto na Revolução Islâmica de 1979. Ele repetiu várias vezes que não busca restaurar a monarquia, mas sim democratizar o Irã.
Pahlavi é controverso, mas ganhou grande atenção durante os protestos antigoverno de janeiro – em parte porque o regime prendeu ou silenciou muitos outros opositores.
Pahlavi teria preparado planos sérios sobre como conduzir uma transição, escrevem Mark Dubowitz e Ben Cohen, da Fundação para a Defesa das Democracias (FDD), dos EUA. “Mas planejamento não é poder”, ressaltam, frisando não haver garantia sobre quem governaria o Irã após a queda do regime. “Além disso, o Irã não é homogêneo, mas um mosaico – de azerbaijanos, curdos, árabes, balúchis e outras etnias.”
Guerra civil?
Antes da Revolução de 1979, o Exército do Irã acelerou a queda do xá ao anunciar que não atiraria nos opositores. A nova liderança criou em maio o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) ou Guarda Revolucionária, para proteger seu poder.
Até hoje, o Exército (“Artesh”) e a CGRI coexistem – embora a maioria dos analistas atribua muito mais poder à Guarda. Ela mantém seu próprio Exército, Força Aérea, Marinha, serviços de inteligência e controla empresas econômicas influentes. A União Europeia classificou a Guarda Revolucionária como organização terrorista após sua participação na repressão aos protestos de janeiro. Nos primeiros dias da guerra, Trump pediu que Exército, Guarda Revolucionária e polícia depusessem as armas. Até agora, segundo especialistas, não há sinais de desintegração.
Burcu Ozcelik considera possível que a Guarda Revolucionária enfrente resistência interna crescente contra seu sistema elitista de patronagem. “Isso pode se manifestar em fraturas institucionais mais acentuadas. Uma possibilidade é uma divisão crescente entre a Guarda e o Exército convencional, no qual esse último seria percebido como a ‘nova cara’ de um renovado patriotismo iraniano e de um Estado funcional”, diz a especialista da Rusi.
Assim, ao menos teoricamente, é possível que o Exército e a Guarda Revolucionária acabem em campos políticos opostos. Nesse caso, até mesmo uma guerra civil, como a que devasta o Sudão há quase três anos, não estaria descartada.
Além disso, a diversidade étnica do Irã pode representar risco à segurança interna se grupos separatistas tentarem explorar um vácuo de poder. Apenas uma semana antes do início da guerra, cinco organizações curdas formaram uma frente unificada contra o regime. Elas também rejeitam Reza Pahlavi como figura de transição. Isso mostra que a reorganização política do Irã será, em qualquer caso, complicada.