O ex-correspondente da DW Kostiantyn Honcharov juntou-se ao exército ucraniano em 2022. Ele descreve a situação sombria na linha de frente após quatro anos de combates.O jornalista Kostiantyn Honcharov trabalhou com a DW até 2022, quando, como muitos ucranianos, voltou para casa para se juntar ao exército voluntário que defende o país contra a invasão da Rússia. A seguir, seu relato pessoal sobre os quatro anos de guerra em seu país.

Sinceramente, ainda não entendo por que esta guerra começou, por que continua e como, quando e a que custo ela poderá chegar ao fim. Para mim, a guerra é algo arcaico, um retorno à lógica da força bruta, em uma época em que a humanidade está falando em colonizar Marte.

Quando a guerra chegou à minha terra natal, eu, um homem que nunca tinha empunhado uma arma, fui confrontado com a escolha de permanecer como espectador ou ajudar a defender meu país. A decisão de me alistar no exército tem menos a ver com um senso de dever do que com o desejo de ter algum controle, em vez de me tornar apenas mais um personagem da história. É sobre o direito de não me tornar uma vítima das circunstâncias.

Com o tempo, a guerra perdeu para mim sua natureza abstrata e se tornou profundamente pessoal. Virou uma rotina, parte da minha vida cotidiana. Não percebo nenhuma mudança psicológica profunda em mim, talvez porque elas já tenham ocorrido e se tornado um hábito. Não consigo mais imaginar como seria viver de outra forma.

A saudade dos amigos que se foram e dos lugares do meu passado agora devastados dói. Vejo o que está acontecendo nas cidades da linha de frente, mas fico particularmente preocupado quando Kiev é atacada. A cada bombardeio, pergunto aos meus: “Como você está? Você tem eletricidade? Sua casa está sem aquecimento?”

Problemas enfrentados pelas forças ucranianas

Não é apenas a luta que está destruindo as pessoas. O exército ucraniano tem sido atormentado por problemas que se acumularam ao longo dos anos, sem contar as discussões sobre a transformação tecnológica da guerra moderna. Esses problemas estão começando a derrotar os combatentes da linha de frente mais rapidamente do que o inimigo.

As deserções em massa no exército ucraniano não acontecem porque os soldados de repente se acovardaram ou deixaram de ser patriotas. A realidade é que os combatentes das unidades da linha de frente estão física e mentalmente exaustos.

Essas unidades não são retiradas para se recuperarem. Em vez disso, sua permanência na linha de frente é prolongada, ultrapassando os limites do que é humano. Os reforços, quando chegam, estão mal preparados. Depois que fui ferido e retirado da linha de frente no inverno de 2023, apenas cinco membros do meu pelotão de 30 homens permaneceram no posto – todos os outros foram feridos ou mortos.

Diante dessa escassez de infantaria, são deslocados para a missão motoristas, cozinheiros, artilheiros, artilheiros antiaéreos e membros da unidade de abastecimento para a infantaria, na esperança de que mantenham a linha de frente, mesmo sem experiência de confronto próximo. Como resultado, acabam feridos, mortos ou desertam. E assim, a escassez de combatentes só se agrava.

A dificuldade em substituir tropas exaustas

A resiliência de uma pessoa tem limites. Se as trocas fossem mais regulares, se os soldados fossem substituídos com mais frequência e as circunstâncias fossem um pouco mais humanas, não teríamos uma situação tão grave na linha de frente. Muitas vezes exigimos que os soldados sejam heróis, quando deveríamos permitir que fossem soldados – combatentes bem treinados, equipados e um pouco descansados.

O uso generalizado de drones tornou as trocas na linha de frente muito mais difíceis. É necessário um planejamento detalhado da rota, rastreamento de drones inimigos e coordenação com unidades de guerra eletrônica ao avançar para as posições mais avançadas da linha de frente e, em seguida, recuar pela “zona da morte”, que se estende por quilômetros. Em condições mais favoráveis, as rotações são vitais e possíveis.

Se os soldados de infantaria passam em média 60 dias na linha de frente, dificilmente podem ser combatentes eficientes. O estresse da batalha é tão grande que corrói a pessoa por dentro.

Quem defende a Ucrânia?

Sim, a guerra está realmente sendo travada em distâncias muito maiores. Hoje, os combates e o monitoramento do campo de batalha são feitos principalmente com o uso de drones. Esse é um grande avanço tecnológico.

Existem unidades de drones que trabalham em estreita colaboração com a infantaria. No entanto, em última instância, tudo se resume às pessoas nas trincheiras que mantêm as posições. O futuro do país depende de quanto tempo elas podem resistir e permanecer capazes de lutar. Infelizmente, há uma escassez desses combatentes.

Não sou especialista em infraestrutura crítica, tampouco tenho aptidão para o serviço militar. Mas quando o número de homens em licença ultrapassa 1 milhão e você vê um grupo de trabalhadores em idade de alistamento pintando uma pequena ponte durante dias a fio no interior, não dá para evitar o sentimento de que algumas pessoas estão contribuindo mais do que outras.

A ilusão das negociações de paz

Os soldados, portanto, têm uma visão diferente das negociações de paz do que os civis. Entre os militares com quem converso, apenas alguns acham que as negociações de paz oferecem uma perspectiva real para a Ucrânia. Notícias de um possível cessar-fogo criam uma ilusão que tem pouco a ver com o que está acontecendo no campo de batalha.

Para pessoas distantes da linha de frente, notícias de reuniões entre negociadores podem dar a impressão de que algum tipo de processo de paz começou, sugerindo que uma solução para encerrar o conflito pode estar mais próxima do que ontem. Pode haver uma sensação de “ponto de virada” e de que a paz, ou um cessar-fogo, pode estar no horizonte.

No entanto, para aqueles que estão no campo de batalha, nada muda. A artilharia continua disparando, os drones continuam voando, e as pessoas, morrendo.

Eu realmente gostaria de estar errado. Quero voltar para minha família o mais rápido possível. Mas a realidade é que esta batalha vai continuar por muito tempo.