18/02/2026 - 14:13
Em 2019, um grupo de arqueólogos descobriu em Córdoba, na Espanha, osum pequeno fragmento ósseo de um animal não nativo. Uma análise posterior revelou que o osso tinha 2,2 mil anos e era de um elefante.
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A descoberta dessa peça do tamanho de uma bola de beisebol, junto com outros materiais bélicos, indicaria que esse paquiderme poderia ser um dos elefantes de guerra usados pelo general cartaginês Aníbal Barca durante a Segunda Guerra Púnica (218-202 a.C.), o maior conflito entre Roma e Cartago (hoje Tunísia).
Se confirmado, esta seria a primeira evidência direta do uso bélico desses animais na Espanha e na Europa Ocidental, conforme detalha um estudo publicado recentemente no Journal of Archaeological Science: Reports.
Uma campanha lendária até os Alpes
Aníbal liderou uma das expedições militares mais ousadas da história antiga: partiu da Península Ibérica, cruzou a cordilheira dos Pirineus e o sul da Gália (região hoje situada na França, Bélgica e Suíça) e atravessou os Alpes com 37 elefantes para atacar a República Romana.
A travessia do estrategista militar foi narrada como um feito épico. A ideia dos cartagineses era usar esses animais enormes como arma psicológica e intimidar os inimigos. Transportá-los para a Europa teria exigido uma logística complexa.
“Durante séculos, a imagem de Aníbal guiando seus elefantes através dos Alpes tornou-se um ícone, um tema recorrente adotado por músicos, escritores e dramaturgos, e com o tempo também pela indústria cinematográfica”, escrevem os autores.
Possível marco histórico
O fragmento apareceu no sítio arqueológico Colinas de los Quemados, perto de Córdoba. Segundo os autores, além de algumas pegadas e vestígios isolados, quase não havia evidências físicas da passagem dos elefantes de Aníbal pela Europa Ocidental.
Por isso, a descoberta do carpo — uma parte do “tornozelo” — da pata dianteira direita do elefante “pode ser um marco histórico”, nas palavras de Rafael Martínez Sánchez, arqueólogo da Universidade de Córdoba e autor principal do estudo. Isso porque, segundo ele explicou à Live Science, até então não havia nenhum “testemunho arqueológico direto do uso desses animais” na Península Ibérica.
Em artigo publicado em 2023 no El País, Martínez Sánchez afirmou que “esse osso discreto pode ser interpretado como prova da presença desses animais nos arredores da atual Córdoba entre os séculos 4 e 2 a.C.”.
Elefante asiático ou cartaginês?
Depois de descobrirem que se tratava de um paquiderme, os autores agora tentam determinar se era um elefante asiático (Elephas maximus indicus) — usado por Cartago na Primeira Guerra Púnica (264-241 a.C.) — ou um cartaginês (Loxodonta africana pharaonensis), uma subespécie africana já extinta.
No mesmo sítio arqueológico também foram encontrados 12 projéteis esféricos, possivelmente munição de catapultas cartaginesas, o que reforça a hipótese de que o elefante morreu num campo de batalha numa aldeia fortificada perto de Córdoba. Para os autores, esses antecedentes reforçam a ideia da “passagem dos gigantescos ‘tanques da antiguidade’ pela Península Ibérica”.
Uma guerra decisiva no Mediterrâneo
A Segunda Guerra Púnica opôs a República Romana e Cartago pelo controle do Mediterrâneo. Embora muitos dos elefantes não tenham sobrevivido à travessia alpina, o exército de Aníbal obteve vitórias importantes, como a Batalha de Canas (216 a.C.), onde derrotou os romanos, mesmo com contingente menor.
Em 203 a.C., Aníbal retornou a Cartago para defendê-la do cerco romano. Finalmente, a cidade foi derrotada. Aníbal fugiu e se suicidou para evitar ser capturado. Após a Terceira Guerra Púnica (149-146 a.C.), Cartago, uma cidade que havia sido fundada por colonos fenícios, ficou destruída e desapareceu como potência.
