Em meio ao horror do campo de extermínio nazista, um frade franciscano polonês deu voluntariamente a própria vida para salvar um pai de família condenado à morte, tornando-se o “Santo de Auschwitz”.

São Maximiliano Kolbe, o frade franciscano martirizado em Auschwitz. Fonte: Michael Nicholson / Corbis via Getty Images
Radio picture of Maximillian Kolbe, who was a Polish Conventual Franciscan friar who volunteered to die in place of a stranger in the Nazi German concentration camp of Auschwitz, located in German-occupied Poland during World War II. He is the patron saint of drug addicts, political prisoners, families, journalists, prisoners, and the pro-life movement. Pope John Paul II declared him a martyr of charity and “The Patron Saint of Our Difficult Century”. (Photo by Michael Nicholson/Corbis via Getty Images)

Em julho de 1941, no auge da Segunda Guerra Mundial, o campo de concentração e extermínio de Auschwitz I era a encarnação do desespero humano. Sob o comando rigoroso das forças de ocupação nazistas, qualquer tentativa de fuga era punida com crueldade exemplar: para cada prisioneiro que conseguisse escapar, dez homens do mesmo bloco seriam selecionados aleatoriamente para morrer de fome e sede no temido Bunker da Morte (o Bloco 11).

Quando um prisioneiro do Bloco 14 desapareceu sem deixar vestígios, a sentença coletiva foi imposta sem hesitação. Durante o alinhamento dos detentos no pátio do campo, sob um sol escaldante e a vigilância dos guardas da SS, dez homens foram apontados pelo oficial Karl Fritzsch. Entre os escolhidos estava Franciszek Gajowniczek, um sargento do Exército polonês (católico), que irrompeu em pranto desesperado ao pensar no destino de sua família: “Minha pobre esposa! Meus pobres filhos! Nunca mais os verei!”.

Foi exatamente nesse momento de terror que ocorreu um fato sem precedentes na história documental dos campos de extermínio: da fileira dos prisioneiros, o detento de número 16670 deu um passo à frente de forma serena e resoluta.

O Sacrifício do Prisioneiro 16670

Com passos firmes e mantendo uma compostura que impressionou os próprios oficiais alemães, o frade franciscano Maximiliano Maria Kolbe, então com 47 anos, aproximou-se da autoridade do campo. Ao ser questionado ríspida e asperamente sobre o que desejava, Kolbe respondeu sem vacilar:

“Quero tomar o lugar deste homem. Ele tem esposa e filhos; eu sou velho e sozinho; sou um padre católico.”

Surpreso com a audácia atípica e a tranquilidade absoluta do religioso, o oficial aceitou a substituição. Franciszek Gajowniczek foi enviado de volta à fila de prisioneiros, e o Padre Kolbe seguiu junto aos outros nove condenados rumo ao porão escuro e gélido do Bloco 11. Despidos de suas roupas e privados de qualquer alimento ou água, os prisioneiros foram trancados para aguardar o fim.

Os relatos arquivados pelo Memorial e Museu de Auschwitz-Birkenau, baseados nos depoimentos de testemunhas e funcionários do bloco (como o prisioneiro polonês Bruno Borgowiec, incumbido de retirar os corpos), revelam que a Cela 18 transformou-se em um santuário improvisado. Das profundezas do Bunker da Morte, em vez dos gritos e lamúrias habituais, ecoavam orações, salmos e cantos devocionais em polonês e latim. Kolbe consolava os companheiros de cela, oferecendo-lhes suporte espiritual e ministrando a absolvição até os últimos momentos de vida.

Após duas semanas de privação extrema, a maioria dos prisioneiros havia sucumbido. Apenas quatro permaneciam vivos — entre eles, Maximiliano Kolbe, que continuava consciente e em atitude de oração. Em 14 de agosto de 1941, véspera da solenidade da Assunção de Nossa Senhora, os executores do campo decidiram esvaziar a cela e injetaram uma dose letal de ácido fênico (fenol) nas veias do sacerdote. Segundo as testemunhas, Kolbe estendeu o braço calmamente ao seu carrasco antes de falecer.

O Pioneiro da Comunicação e o Abrigo aos Perseguidos

A trajetória de Maximiliano Kolbe antes de sua prisão em fevereiro de 1941 já o consagrasse como uma das figuras mais dinâmicas da Igreja Católica no século XX:

  • Inovador na Mídia: Fundou a Milícia da Imaculada e construiu um vasto complexo editorial em Niepokalanów (a “Cidade da Imaculada”), perto de Varsóvia. Lá, publicava jornais e revistas com tiragens diárias de centenas de milhares de exemplares, além de ter estabelecido uma estação de rádio própria para evangelização.

  • Rede de Proteção Humana: Durante a ocupação nazista na Polônia, o convento de Niepokalanów transformou-se em um dos maiores centros de acolhimento para refugiados do país. Os franciscanos liderados por Kolbe forneceram abrigo, alimentação e proteção a mais de 2.000 judeus que fugiam do gueto e da perseguição do Terceiro Reich.

Canonização e o Testemunho de Sobrevivência

A história de abnegação no Bloco 11 ecoou profundamente após o término da guerra. O homem cuja vida foi poupada pelo sacrifício do sacerdote, Franciszek Gajowniczek, sobreviveu a Auschwitz e ao campo de Sachsenhausen. Ele dedicou os 50 anos seguintes de sua vida a viajar pelo mundo testemunhando a grandeza do gesto de Kolbe.

Em 10 de outubro de 1982, na Praça de São Pedro, no Vaticano, o Papa João Paulo II — ele próprio um bispo polonês que viveu sob os horrores da ocupação nazista — presidiu a cerimônia de canonização de Maximiliano Kolbe. O evento contou com a presença emotiva do próprio Gajowniczek, então com 81 anos.

Franciszek Gajowniczek, o homem salvo por Kolbe em Auschwitz. Fonte: Wojtek Laski / Getty Images
POLAND – 1971: Franciszek Gajowniczek Saint Maximilian Kolbe’s portrait in the background. Franciszek Gajowniczek – retired soldier, former prisoner of German concentration camp Auschwitz, whose life was saved by Saint Maximilian Kolbe. Poland, in 1971. (Photo by Wojtek Laski/Getty Images)

Em sua homilia de canonização, o Papa João Paulo II declarou Maximiliano Kolbe não apenas como um confessor da fé, mas oficialmente como um Mártir da Caridade:

“Maximiliano Maria Kolbe, prisioneiro de Auschwitz, prestou no bunker da morte um testemunho de amor fraternal que venceu o ódio e o desespero. Diante da tempestade do mal e da destruição do homem, a sua morte tornou-se um sinal radiante da vitória do amor de Cristo.”

Papa João Paulo II, Homilia na Canonização de São Maximiliano Kolbe.

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Fontes Oficiais:

  1. Santa Sé e Magistério da Igreja Católica:

  2. Memorial e Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau (Auschwitz.org):