Muitos homens alemães que se uniram ao grupo terrorista estavam detidos na Síria. Com a fuga ou transferência de milhares de prisioneiros, ninguém sabe dizer onde eles estão agora.O fotógrafo aposentado alemão Werner Pleil não faz a menor ideia de onde está o seu filho. A última vez em que Pleil ouviu falar de Dirk, ele estava preso no nordeste da Síria.

Dirk juntou-se ao grupo extremista “Estado Islâmico” (EI) na Síria em 2015, mas foi preso em 2017 e permanecia detido lá, sem julgamento, desde então. Agora, porém, seu paradeiro é desconhecido.

Há a suspeita de que Dirk tenha tuberculose, e seu pai tem tentado trazê-lo de volta para a Alemanha, para o bem de sua saúde, mas também para que ele seja julgado, se necessário. A nora de Pleil e um neto de 9 anos estão na Turquia, e Pleil também gostaria de trazê-los para casa.

Nas últimas semanas, porém, o futuro da família tornou-se ainda mais incerto. Devido aos confrontos entre as forças do governo sírio e as milícias curdas que controlavam grande parte do nordeste, as prisões e os campos de detenção que abrigavam membros do “Estado Islâmico” mudaram de mãos.

No caos que se seguiu, alguns membros do “Estado Islâmico” e seus familiares escaparam dos campos de detenção. Outros foram transferidos para prisões iraquianas. Entre 21 de janeiro e 12 de fevereiro, os militares dos EUA ajudaram a transportar mais de 5,7 mil prisioneiros para fora da Síria.

Em 12 de fevereiro, o ministro da Justiça iraquiano, Khaled Shwani, anunciou a conclusão do processo de acolhimento de cerca de 7 mil presos do grupo extremista que estavam na Síria, após acordo entre Damasco e autoridades curdas. Shwani disse que entre os presos transferidos há líderes do grupo EI, que descreveu como “extremamente perigosos”, adiantando existirem cerca de 60 nacionalidades, mas uma maioria de sírios.

Onde estão os alemães?

“Estive em contato com o Ministério do Exterior e eles me disseram que a Alemanha não esteve envolvida nas transferências”, diz Pleil. “Disseram que foi uma questão apenas entre os sírios, os curdos e os americanos.”

O governo alemão confirma isso. O Ministério do Exterior da Alemanha comunicou estar ciente das transferências de centros de detenção no nordeste da Síria para o Iraque e que não esteve envolvido no processo de transferência.

O ministério acrescentou ainda não saber todas as nacionalidades das pessoas transferidas, mas disse estar em contato com as autoridades iraquianas e americanas para descobrir isso. É provável, porém, que os 27 alemães que estavam detidos na Síria estejam agora no Iraque.

Segundo relatos na imprensa havia alemães entre os milhares de transferidos. Um juiz iraquiano da prisão de al-Karkh, em Bagdá, responsável pela comissão que interroga os presos transferidos, disse à agência de notícias Associated Press que viu detentos alemães no local.

Quantos alemães se uniram ao “Estado Islâmico”?

Não está claro quantos alemães que viajaram para o Iraque e a Síria para se juntar ao grupo “Estado Islâmico” ainda estão lá. O governo alemão calcula que o número seja de algumas dezenas.

As mulheres e as crianças estavam principalmente em campos sírios como al-Hol ou Roj. Com a saída das tropas curdas, em 20 de janeiro, e a substituição delas pelas forças sírias, a maioria dos familiares dos extremistas estrangeiros deixou o campo de al-Hol, o maior para familiares do “Estado Islâmico” na Síria.

De acordo com relatórios da Acnur, agência da ONU para refugiados, o campo já abrigou mais de 26,5 mil pessoas e está hoje vazio. Uma área que abrigava cerca de 6,3 mil mulheres e crianças não originárias do Iraque ou da Síria aparentemente está desabitada agora.

Algumas das pessoas de al-Hol foram ou ainda serão transferidas para outro campo, Akhtarin, na província de Aleppo, pelas forças do governo sírio. Outras parecem ter simplesmente fugido para a casa de parentes ou saído com a ajuda de contrabandistas. Não está claro para onde foram. Isso provavelmente inclui alemães que estavam lá.

Síria: “Não é nosso problema”

Um funcionário do governo sírio disse à DW, em condição de anonimato, que, nos dois primeiros dias após a saída dos curdos, ninguém controlou o campo de al-Hol e algumas pessoas conseguiram deixá-lo. A área ao redor é difícil de policiar, e o novo governo sírio não tem tropas suficientes para isso, observou.

“E se alguns dos estrangeiros que estavam detidos no campo conseguissem sair, se chegassem à Turquia ou ao Líbano e depois voltassem para seus países de origem, então o governo sírio provavelmente não se esforçaria muito para impedi-los”, disse. “Os estrangeiros não são nosso problema. Eles são um problema de seus próprios países, que não têm levado essa questão a sério o suficiente.”

O jornal britânico The Guardian noticiou que, nesta semana, uma mulher belga, condenada por integrar o “Estado Islâmico”, retornou à Europa via Turquia.

Também esta semana, 34 australianos do campo de refugiados de Roj tentaram voltar para casa, mas não conseguiram. As autoridades australianas afirmaram que o governo do país não está ajudando a repatriar pessoas da Síria.

Alerta de especialistas

O retorno sem qualquer controle de cidadãos europeus que foram membros ou seguidores do “Estado Islâmico” representa um problema de segurança para os países de origem deles. Especialistas em terrorismo alertam há anos para isso e têm instado regularmente os países europeus a retornarem seus próprios cidadãos e a lidarem com eles, seja por meio do sistema judiciário, seja reabilitando-os.

“Não há uma resposta perfeita para essa questão”, diz a especialista em terrorismo Sofia Koller, da ONG Counter Extremism Project (CEP). “A repatriação é controversa do ponto de vista político, mas de muitas outras perspectivas, não é. Especialmente se considerarmos quais seriam as consequências negativas de não repatriar, como estamos vendo agora.”

O Iraque defendeu a repatriação dos estrangeiros que mantém sob custódia, assim como os Estados Unidos. As autoridades alemãs, porém, têm se mostrado relutantes.

Tema politicamente sensível

Os esforços de repatriação da Alemanha têm se concentrado principalmente em mulheres e crianças. Com relação aos prisioneiros do sexo masculino, o governo frequentemente argumenta que deseja respeitar os interesses do país onde os crimes foram cometidos.

A deputada Lamya Kaddor, do Partido Verde, que recentemente questionou formalmente o governo sobre o paradeiro desses alemães, diz que os políticos em Berlim têm hesitado em relação à repatriação por medo de que esse tema politicamente sensível os prejudique.

Ela chama essa atitude de irresponsável e afirma que o retorno descontrolado dessas pessoas à Alemanha é um risco à segurança pública. “Fugir da responsabilidade não pode ser uma estratégia de longo prazo”, diz Kaddor.

Além disso, “deixar cidadãos alemães sujeitos a condições de detenção desumanas ou potencial tortura, havendo opções de repatriamento, é indigno de um Estado de Direito”.

Qual a situação no Iraque?

Do ponto de vista dos homens alemães, estar detido no Iraque pode até ser melhor, pois Alemanha e Iraque mantêm relações diplomáticas. Essas relações “são muito mais estáveis do que as que existem com a Síria”, observa Koller.

Isso eleva as possibilidades de o governo alemão entrar em contato com essas pessoas para avaliar seu estado mental e de saúde e também a comunicação com suas famílias na Alemanha. Também seria mais fácil repatriá-los para uma prisão alemã depois que forem processados no Iraque.

Restam, porém, dúvidas sobre a situação legal. Não está claro se a transferência em massa de prisioneiros para o Iraque é legal e se o Iraque tem jurisdição sobre crimes cometidos na Síria.

Também é possível que indivíduos condenados por terrorismo no Iraque sejam sentenciados à morte, como já aconteceu com membros estrangeiros do “Estado Islâmico”, inclusive da França e da Alemanha.

“Nossa posição é clara: a pena de morte é uma punição cruel e desumana que a Alemanha rejeita”, afirma o Ministério alemão do Exterior. Apesar da preocupante mudança de circunstâncias, nenhuma repatriação está planejada.

Tudo isso deixa o aposentado Werner Pleil ainda mais preocupado, e não só com o paradeiro de seu filho. “Na Alemanha, a pena de morte foi abolida”, diz Pleil. “Mas o Iraque não se importa nem um pouco com isso. E nosso governo está simplesmente sentado esperando que uma solução apareça por si só, ou até que alguém faça o trabalho sujo por ele.”