A escola não educa sozinha. A baixa ou inexistente participação das famílias na vida escolar dos filhos sobrecarrega o professor e faz um processo educativo que deveria ser coletivo se tornar um esforço solitário.A equação que resulta no sucesso escolar dos estudantes não é composta apenas por variáveis como a infraestrutura dos colégios, a qualidade da gestão, a formação docente e o trabalho em sala de aula dos professores. Não podemos nos esquecer de uma variável tão importante como outra qualquer, mas muitas vezes subestimada: a participação das famílias na vida escolar dos filhos.

Essa participação é crucial, mas, infelizmente, no Brasil ainda há uma lacuna muito grande entre a participação real e o cenário ideal.

Na verdade, nos últimos anos, temos visto alguns casos em que as famílias vão às escolas com o único intuito de questionar decisões, falas ou atitudes dos professores, mas não se trata de uma atuação voltada à preocupação em relação à aprendizagem. Esta, infelizmente, ainda é baixa.

Ciclo vicioso difícil de romper

Na média, ocorre o seguinte ciclo vicioso: estudantes que hoje estão no colégio sem ver sentido algum na escola têm grande probabilidade de, no futuro, se tornarem pais pouco participativos. A razão é que simplesmente não entendem o poder da formação escolar como instrumento de mobilidade social ou o potencial da escola na formação cidadã.

Esse ciclo afeta, sobretudo, famílias de baixa renda e, portanto, é um problema maior nos colégios públicos . Não digo que na rede privada isso seja um “mar de rosas” ou tampouco que todas as famílias de baixa renda não participem das vidas escolares dos filhos. O ponto é que o ciclo é maior entre famílias de baixa renda, pois é justamente um reflexo da desigualdade social.

Realidade não pode ser subestimada

Precisamos adicionar outro agravante à problemática: a realidade das famílias de baixa renda no Brasil.

Muitas dessas famílias enfrentam sobrecargas de trabalho e, na prática, muitas vezes nem têm tempo de qualidade com os próprios filhos. Há famílias em que a única prioridade é pagar as contas básicas e garantir a própria sobrevivência; outras em que o domingo é o único dia de lazer, dia no qual tudo o que querem é descansar. Nesse contexto, participar de reuniões escolares, ver os cadernos dos filhos, ajudar com a tabuada ou perguntar se estão aprendendo simplesmente não faz parte da realidade.

“Ah, então toda família de baixa renda e cujos pais enfrentam altas cargas de trabalho têm baixa participação na vida escolar dos filhos?” Óbvio que não. Há exceções, mas nossa preocupação aqui é com o comportamento médio.

“Ah, então não existem pais que são simplesmente negligentes?” Existem, claro, mas o ponto é que não podemos generalizar e afirmar que todos os pais que não são participativos são negligentes. Não é tão simples assim.

Professores ficam sós no processo de aprendizagem

Independente do contexto, no geral, é fato que a baixa participação é um grande problema. É muito comum, por exemplo, o professor marcar uma reunião e acontecer de justamente as famílias que mais precisam, não participarem. Assim como acontece de enviarem recados importantes e estes nunca serem lidos ou serem lidos e banalizados.

Professores não são super-heróis. A ausência de colaboração das famílias limita significativamente os resultados de aprendizagem que poderiam ser alcançados em um cenário de participação efetiva

A escola não educa sozinha. A baixa ou inexistente participação das famílias na vida escolar dos filhos sobrecarrega o professor e transforma um processo educativo que deveria ser coletivo em um esforço solitário.

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Vozes da Educação é uma coluna semanal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do programa no Instagram em @salvaguarda1.

Este texto foi escrito por Vinícius De Andrade e reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.