Secretário de Defesa dos EUA exige que empresa Anthropic libere seu modelo de IA Claude para uso militar irrestrito. Embate levanta questões fundamentais sobr limites da utilização da inteligência artificial.A ameaça que o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, fez à empresa de inteligência artificial (IA) Anthropic levanta várias questões fundamentais.

Segundo a agência de notícias AP, Hegseth deu à Anthropic até esta sexta-feira (27/02) para liberar a tecnologia de inteligência artificial da empresa para uso militar irrestrito, sob pena de perder o seu contrato com o governo.

Esse é o mais recente capítulo de uma disputa entre uma das principais startups de IA do mundo e o governo dos EUA, que mostra como o controle sobre modelos de IA está se tornando um novo campo de batalha, e também um exemplo das táticas de pressão de Washington sobre o setor corporativo.

A Anthropic tem se recusado a dar a Washington acesso completo para uso militar secreto aos seus modelos, incluindo para missões potencialmente letais realizadas sem supervisão humana e para vigilância interna em massa.

As ameaças de Hegseth

Hegseth convocou o CEO da Anthropic, Dario Amodei, a Washington para uma reunião na terça feira. Um porta voz da Anthropic confirmou o encontro à DW.

“Durante a conversa, Dario expressou apreço pelo trabalho do departamento e agradeceu ao secretário por seu serviço. Continuamos conversas bem-intencionadas sobre nossa política de uso para garantir que a Anthropic possa continuar apoiando a missão de segurança nacional do governo, em linha com o que nossos modelos podem fazer de maneira confiável e responsável.”

No entanto, segundo reportagens que citam pessoas familiarizadas com as conversas, Hegseth fez duas ameaças diretas caso a Anthropic não cooperasse.

Uma foi excluir a empresa da cadeia de suprimentos do Pentágono, e a outra foi invocar a Lei de Produção de Defesa, uma medida da era da Guerra Fria que dá ao presidente dos EUA poder para controlar a indústria nacional sob o argumento de defesa do país.

“Se eles não colaborarem, [Hegseth] garantirá que a Lei de Produção de Defesa seja aplicada à Anthropic, obrigando a a ser usada pelo Pentágono independentemente de querer ou não”, disse um alto funcionário do Pentágono ao Financial Times.

Hegseth quer que o Pentágono tenha acesso irrestrito ao chatbot de IA generativa Claude, mas a Anthropic, que sempre se apresentou como uma empresa voltada à segurança, está resistindo.

Acredita-se que a empresa se oponha ao uso do Claude em operações nas quais decisões militares finais são tomadas sem intervenção humana, ou para vigilância em massa dentro dos EUA.

“A Anthropic vê essas coisas como não sendo do interesse de longo prazo da humanidade, pelo menos com o nível atual de tecnologia e salvaguardas existentes, enquanto o Pentágono está pressionando para ter qualquer uso legal que desejar”, avalia o especialista Geoffrey Gertz, do think tank Center for a New American Security.

Ele diz que ameaçar com a Lei de Produção de Defesa seria uma tentativa sem precedentes de controlar uma empresa de IA e acrescenta que isso o preocupa porque pode prejudicar o desenvolvimento da Anthropic.

“Há grande preocupação de que o governo tome ações que prejudiquem a capacidade da Anthropic de continuar na vanguarda da IA responsável”, disse ele. “Ações que tentem restringir os mercados potenciais da Anthropic podem ser muito prejudiciais e acabar tendo o efeito contrário ao que o governo quer com sua política de IA.”

A relação entre a Anthropic e os militares

Desde novembro de 2024, a Anthropic fornece o modelo Claude para agências de inteligência e defesa dos EUA.

Segundo o Wall Street Journal, os militares americanos usaram o Claude na operação na Venezuela que resultou na captura de Nicolás Maduro. Nem a Anthropic nem o Departamento de Defesa comentaram o caso, e não está claro como exatamente o sistema de IA teria sido utilizado.

A ameaça de Hegseth de remover a Anthropic da lista de fornecedores do Pentágono teria impacto financeiro para a empresa. Em julho de 2025, o Departamento de Defesa concedeu à Anthropic um contrato de 200 milhões de dólares para tentar desenvolver “capacidades de IA avançada que melhorem a segurança nacional dos EUA”.

A empresa celebrou o acordo. Thiyagu Ramasamy, chefe de relações com o setor público da Anthropic, afirmou que o contrato abria “um novo capítulo no compromisso da Anthropic com a segurança nacional dos EUA”.

Na mesma época a empresa também enfatizou seu compromisso com a implantação responsável de IA. “No centro desse trabalho está nossa convicção de que as tecnologias mais poderosas carregam as maiores responsabilidades.”

Anthropic ainda prioriza segurança?

A Anthropic foi fundada em 2021 por sete ex funcionários da OpenAI. Segundo Amodei, ela foi criada “com um princípio simples: a IA deve ser uma força para o progresso humano, não para o perigo”.

Mas, apesar do atual conflito com o Pentágono, há sinais de que a empresa está reconsiderando seu compromisso original em favor de oportunidades comerciais.

Nesta terça feira, no mesmo dia da reunião com Hegseth, a empresa anunciou que estava flexibilizando sua política central de segurança para permanecer competitiva.

“O ambiente regulatório mudou para priorizar competitividade e crescimento econômico, enquanto discussões sobre segurança ainda não ganharam tração significativa no nível federal”, comunicou a empresa em seu blog.

A Anthropic enfrenta forte concorrência de rivais como OpenAI e Google e está justificando essa mudança em sua política devido ao que vê como falta de regulamentação federal sobre IA. Porém, um porta voz da empresa disse à DW que essa mudança nada tinha que ver com as negociações com o Pentágono.

Quais questões éticas estão em jogo?

Se a Anthropic ceder às exigências de Hegseth, ou se o Departamento de Defesa assumir o controle da empresa via Lei de Produção de Defesa, isso inevitavelmente levará a acusações de que a IA da empresa não está mais sendo usada dentro de uma mentalidade de priorizar a segurança.

O caso também destaca a disposição do governo Trump de intervir diretamente em decisões corporativas e em setores que considera críticos.

Em agosto de 2025, o governo Trump anunciou um investimento de 8,9 bilhões de dólares na Intel, parte de uma série de iniciativas para intervir diretamente na indústria de chips dos EUA.

O governo também interveio no setor de terras raras, com grandes investimentos em empresas como Vulcan Elements, MP Materials e USA Rare Earth.

Gertz afirma que as empresas e CEOs estão “navegando um novo cenário” diante da postura mais intervencionista do governo. “Isso é fora do comum”, disse ele. “É uma grande mudança em relação à abordagem tradicional mais liberal, de deixar o setor privado se desenvolver, dos EUA.”