05/02/2026 - 14:31
Durante décadas, a própria definição de bactéria esteve associada a seres microscópicos, mas essa lógica começou a ruir em um pântano de manguezal no Caribe, onde cientistas se depararam com a maior bactéria já vista, organismo tão grande que pode ser visto sem microscópio.
Batizada de Ca. Thiomargarita magnifica, a descoberta ocorreu em Guadalupe, território francês no Caribe, em 2009, e o organismo pode ser até 5 mil vezes maior do que a maioria das bactérias, que medem cerca de dois micrômetros.
“Para contextualizar, seria como um ser humano encontrar outro ser humano tão alto quanto o Monte Everest”, disse o autor do estudo, Jean-Marie Volland, em comunicado.
A descoberta
A bactéria foi observada pela primeira vez pelo biólogo marinho Olivier Gros, professor da Universidade das Antilhas, quando pesquisadores coletavam amostras de sedimentos ricos em enxofre na região.
A hipótese inicial era de que se tratava de um organismo mais complexo, já que o seu tamanho não correspondia com o padrão bacteriano já conhecido. “Quando a vi, pensei: ‘Que estranho’. A princípio, achei que fosse apenas algo curioso, alguns filamentos brancos que precisavam estar presos a algo no sedimento, como uma folha”, disse Oliver.
Inicialmente, presumiu-se que fossem eucariotos por conta de seu tamanho. Por anos, acreditou-se que havia um limite físico para o crescimento das bactérias, imposto pela dificuldade de transportar nutrientes e informações genéticas dentro da célula.
A maioria das células bacterianas é microscópica, geralmente com cerca de dois micrômetros de comprimento, sendo que algumas ” bactérias gigantes ” podem ter algumas centenas de micrômetros.
A análise de seu DNA
Mais surpreendente ainda foi o que os pesquisadores encontraram ao observar sua estrutura interna. Diferentemente do padrão bacteriano, em que o DNA fica disperso no citoplasma, essa espécie mantém seu material genético organizado em compartimentos delimitados por membranas.
Segundo os pesquisadores, esse tipo de organização é incomum em bactérias, sendo uma característica típica de organismos mais complexos, como plantas e animais.
A análise genômica também revelou que a espécie possui cerca de três vezes mais genes do que a maioria das bactérias conhecidas, além de centenas de milhares de cópias do genoma distribuídas ao longo da célula.
“Este projeto foi uma ótima oportunidade para demonstrar como a complexidade evoluiu em alguns dos organismos mais simples”, afirmou Shailesh Date, um dos autores principais do artigo.
Sua importância para o meio ambiente
Apesar do tamanho incomum, os cientistas acreditam que a bactéria não representa risco à saúde humana e que não seja patogênica, vivendo restrita a ambientes específicos, como sedimentos ricos em enxofre.
O meio onde vivem, os manguezais, são um dos ecossistemas mais estratégicos do planeta no combate às mudanças climáticas. Apesar de ocuparem menos de 1% das áreas costeiras globais, eles são responsáveis por armazenar até 15% do carbono retido nos sedimentos marinhos.
E a Thiomargarita magnifica participa ativamente desse processo por se tratar de uma bactéria oxidante de enxofre e fixadora de carbono, capaz de realizar quimiossíntese, um mecanismo semelhante à fotossíntese, mas que não depende de luz solar.
