06/01/2026 - 15:33
Documento ao qual DW teve acesso informa que fluido usado na perfuração vazou para o mar. Incidente é classificado como de risco de danos ao meio ambiente ou à saúde humana. Atividades no local estão suspensas.A Petrobras registrou um vazamento durante a perfuração do poço FZA-M-59 na Bacia Marítima daFoz do Amazonas . O documento oficial ao qual à DW teve acesso, assinado pelo gerente geral de sondagem da empresa, informa que o incidente começou na madrugada de domingo (04/01).
Segundo o documento da própria Petrobras, o incidente é classificado como possível de causar dano ao meio ambiente ou risco à saúde humana. De acordo com o relatório, o evento foi constatado por um veículo operado remotamente (ROV), amplamente usado pela indústria offshore. A inspeção detectou a descarga de um fluido usado na perfuração para o mar através de uma conexão entre duas juntas.
O vazamento, estimado em 15 mil metros cúbicos, ocorreu a uma profundidade aproximada de 2.700 metros. As atividades no local estão paralisadas. Não há feridos.
Em nota oficial à DW, a Petrobras confirmou que foi identificada “perda de fluido de perfuração em duas linhas auxiliares que conectam a sonda de perfuração ao poço Morpho, localizado a cerca de 175 quilômetros da costa do estado do Amapá”.
Segundo a empresa, a perda do fluido de perfuração foi imediatamente contida e isolada. “As linhas serão trazidas à superfície para avaliação e reparo”, diz a nota. Ainda de acordo com o comunicado, não há problemas com a sonda ou com o poço, que permanecem em “total segurança”.
Ao contrário do que relata o documento a que a DW teve acesso, a nota afirma que “o fluido utilizado atende aos limites de toxicidade permitidos e é biodegradável, portanto não há dano ao meio ambiente ou às pessoas”. A petroleira também afirmou que “adotou todas as medidas de controle e notificou os órgãos competentes”.
Um passado polêmico
Depois de décadas de tentativas, incluindo incursões feitas pela francesa Total e a britânica BHP, a Petrobras recebeu em 20 de outubro de 2025 a autorização para perfurar um poço exploratório na bacia da Foz do Amazonas, também chamada de Margem Equatorial.
O pedido havia sido negado em 2023, após um parecer técnico listar problemas no processo, mas foi reavaliado pelos técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) depois de um recurso da petroleira.
Não é a primeira vez que um incidente na região acontece. Em 2011, uma sonda operada pela Petrobras foi arrastada pelo mar de forma inesperada durante uma fase de sondagem. Foram feitas várias tentativas de resgate do equipamento, abortadas “devido a dificuldades operacionais ocasionadas por correnteza elevada”, apontam documentos internos aos quais a DW teve acesso. À época, a empresa diz ter abandonado o poço e que não houve vazamento de petróleo
Desde 1946, a busca pelo combustível fóssil nas profundezas da Foz do Amazonas motiva incursões na região. Publicamente, não se sabe bem como as operações ocorreram durante os anos de monopólio da Petrobras. Dados públicos informam que, depois da abertura às concorrentes, em 1997, foram perfurados 11 poços de exploração na região entre 2001 e 2011.
Ação na Justiça
Logo após obter o aval do Ibama , a petroleira pediu autorização para abrir mais três poços usando o mesmo processo. O documento ao qual a DW teve acesso afirma que “os três poços contingentes estavam previstos desde o início do processo de licenciamento ambiental” e que a Petrobras compreendeu que eles foram mantidos. Além do poço Morpho, três poços contingentes, chamados de Manga, Maracujá e Marolo, a uma média de 178 quilômetros da costa, também seriam perfurados.
Em uma ação na Justiça Federal do Pará, organizações da sociedade civil ainda tentam frear a licença da Petrobras. Segundo o processo, o licenciamento não considerou as populações indígenas e tradicionais, incluindo quilombos, colônias de pescadores e unidades de conservação que estão na zona de influência do empreendimento.
Outra fragilidade estaria na modelagem que prevê impactos ambientais em caso de vazamento. Os dados usados pela petroleira para fazer este cálculo são de 2013 e estariam desatualizados, já que há informações de 2024 disponíveis. O modelo usado teria falhas que comprometem a segurança da atividade.
Em junho de 2025, a Petrobras arrematou 10 dos 19 blocos oferecidos no leilão para exploração de petróleo na bacia da Foz do Amazonas pela Agência Nacional de Petróleo (ANP). Outras petroleiras, como ExxonMobil, Chevron e CNPC, também fizeram negócio.
