02/02/2026 - 14:45
A análise dos ossos e dos sedimentos encontrado em uma pira funerária próxima à base do Monte Hora, uma formação de granito que se destaca abruptamente na paisagem, indica que o corpo de uma mulher foi cremado há cerca de 9.500 anos, segundo estudo publicado na revista Science Advances. Os pesquisadores acreditam que a cremação foi realizada por grupos de caçadores-coletores que ocupavam a região naquele período.
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Os fragmentos, em sua maioria ossos de braços e pernas pertenciam a uma mulher com idade estimada entre 18 e 60 anos, com pouco menos de 1,5 metro de altura, de acordo com a análise forense.
O local, conhecido como Hora 1, fica sob uma grande saliência rochosa capaz de abrigar cerca de 30 pessoas. Escavado inicialmente na década de 1950, o sítio já era conhecido como um cemitério de caçadores-coletores. Pesquisas retomadas a partir de 2016 mostraram que humanos ocuparam a área há cerca de 21 mil anos e enterraram seus mortos ali entre 8 mil e 16 mil anos atrás.
Apesar disso, os fragmentos analisados representam a única cremação identificada no sítio, um fato considerado incomum, já que esse tipo de prática era raro entre caçadores-coletores. “A cremação é muito rara entre os caçadores-coletores antigos e modernos, pelo menos em parte porque as piras exigem uma enorme quantidade de trabalho, tempo e combustível”, afirmou a autora principal do estudo, Jessica Cerezo-Román, professora associada de antropologia da Universidade de Oklahoma.
Escavações realizadas entre 2016 e 2019 revelaram um grande monte de cinzas, com cerca do tamanho de uma cama de casal, contendo fragmentos ósseos humanos com marcas de queimadura. A análise dos sedimentos indica que o fogo atingiu temperaturas superiores a 500 °C e permaneceu ativo por horas ou até dias, o que exigiu reabastecimento constante de madeira.
Com base em evidências encontradas na madeira, os pesquisadores estimam que cerca de 30 quilos de madeira seca foram utilizados na pira, segundo a coautora Elizabeth Sawchuk, curadora de evolução humana do Museu de História Natural de Cleveland. Fragmentos de ferramentas de pedra também foram identificados, sugerindo que esses objetos foram adicionados durante o ritual.
Marcas de corte nos ossos indicam que parte da carne foi removida antes da cremação, disse Jessica Thompson, coautora do estudo e professora assistente de antropologia da Universidade de Yale. A hipótese de canibalismo foi descartada, pois os padrões diferem daqueles observados em ossos de animais. “Surpreendentemente, não havia fragmentos de dentes ou ossos do crânio na pira funerária”, afirmou Sawchuk, sugerindo que a cabeça pode ter sido removida antes da cremação.
Para os pesquisadores, os dados indicam a existência de rituais funerários complexos, possivelmente ligados à memória e à simbologia. Evidências adicionais mostram que grandes fogueiras foram acesas no local séculos antes e depois da cremação, sugerindo que o Monte Hora pode ter funcionado como um espaço de significado ritual por gerações.
As descobertas reforçam que caçadores coletores africanos já apresentavam práticas culturais sofisticadas milhares de anos antes do surgimento das cidades, da agricultura e da metalurgia. “Eles tinham a capacidade de coordenar esse nível de trabalho, mas geralmente optavam por não fazê-lo”, afirmou Sawchuk. Segundo Thompson, estudar outros sítios semelhantes e revisitar coleções antigas de museus pode ajudar a revelar a diversidade cultural desses grupos, historicamente tratados como homogêneos.
