Social-democratas, verdes e até ultradireita criticam medidas de Trump. Para Olaf Scholz medidas são “ataque à ordem comercial global”. Ministro da Economia compara impacto com consequências da invasão russa da Ucrânia.As tarifas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, geraram críticas nesta quinta-feira (03/04) na Alemanha, a maior economia da Europa e a terceira maior do mundo.

O chanceler federal alemão, Olaf Scholz, descreveu as barreiras comerciais dos EUA como medidas “fundamentalmente erradas” que constituem um “ataque à ordem comercial global que criou prosperidade em todo o mundo”.

Scholz disse que a UE dará uma resposta robusta, mas proporcional, às tarifas caso negociações fracassassem.

“A UE tem o mercado interno mais forte do mundo, com 450 milhões de consumidores, o que nos dá a força para manter conversações com o governo dos EUA para evitar uma guerra comercial”, disse ele. “Queremos cooperação, não confronto, e defenderemos nossos interesses. A Europa responderá a essa decisão de forma unida, forte e proporcional”, ressaltou o chefe de governo alemão em fim de mandato, durante entrevista coletiva em Berlim após reunião com o rei Abdullah 2° da Jordânia

Paralelo com invasão da Ucrânia

O ministro da Economia da Alemanha, Robert Habeck, comparou o impacto das tarifas de Trump sobre a economia mundial com o da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia.

“Acho que este é um dia extraordinário para a economia mundial, comparável à situação após a agressão russa contra a Ucrânia. Sabíamos que algo novo estava acontecendo e nós, na Europa, não estávamos preparados para lidar com o desafio. Naquela ocasião, olhamos para o abismo, mas conseguimos resolver o problema”, disse o ministro.

“E acho que uma reação semelhante é necessária agora por parte da União Europeia e de seus parceiros mundiais”, disse o ministro, acrescentando que o Japão, a Coreia do Sul e a China concordaram em dar uma resposta unificada às novas tarifas dos EUA.

Habeck enfatizou que o primeiro interesse de todos é não deixar a economia mundial desmoronar. “E isso é exatamente o que Donald Trump anunciou ontem. Não devemos deixar que isso aconteça”, afirmou o ministro.

Ultradireita alemã critica Trump

Alice Weidel, líder do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD), por sua vez, chamou as tarifas de “veneno para o livre comércio”.

Ela disse à agência de notícias alemã DPA que os EUA deveriam ser persuadidos a fazer um acordo sobre as tarifas em vez de impor taxas unilaterais.

“Não se trata de saber se as tarifas são compreensíveis ou justificáveis; trata-se de evitá-las”, disse Weidel.

Os comentários de Weidel contrastam com o apoio que ela tem expressado a Trump e sua política “America First”.

Eles foram repetidos por Leif-Erik Holm, porta-voz da AfD para assuntos econômicos no Parlamento alemão. “Essa decisão está jogando areia nas engrenagens da economia global”, alertou, pedindo negociações para evitar uma guerra comercial, em vez de contramedidas.

Weidel recebeu apoio aberto antes das eleições alemãs em fevereiro do principal conselheiro de Trump, Elon Musk, e se reuniu com o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, na Conferência de Segurança de Munique naquele mês, enquanto o co-líder do AfD, Tino Chrupalla, viajou a Washington para a posse de Trump em janeiro.

Economia em recessão

A Alemanha se encontra há dois anos em recessão, com queda de 0,3% do PIB em 2023 e de 0,2% em 2024, uma desaceleração econômica que o país não experimentava há décadas.

A chegada das tarifas de Trump na quinta-feira aumentou o fardo que retém o crescimento na Alemanha e os alarmes já soaram, como o de Clemens Fuest, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica (Ifo).

De acordo com Fuest, se as tarifas anunciadas pelo chefe de Estado dos EUA forem mantidas, elas reduziriam o PIB da Alemanha em 0,3%.

Custo estimado de 200 bilhões de euros

Antes que Trump anunciasse as novas tarifas em seu chamado “Dia da Liberação”, Berlim projetava que a economia alemã cresceria 0,3% este ano.

“Como a economia alemã já está estagnada, é possível que as tarifas dos EUA empurrem o crescimento econômico da Alemanha para abaixo de zero”, disse o presidente do Ifo, Clemens Fuest, que acrescentou que, se as tarifas anunciadas permanecerem em vigor, “será o maior ataque ao livre comércio desde a Segunda Guerra Mundial”.

Os pesquisadores do Instituto de Economia Alemã (IW) também se mostraram pessimistas, afirmando que “a tarifa de 20% é um desastre econômico” no valor de “200 bilhões de euros” e apontando para “uma guerra comercial”.

Os Estados Unidos, o maior parceiro comercial de Berlim e país para o qual o país exporta cerca de 160 bilhões de euros, respondem por cerca de 11% das exportações da Alemanha.

Guinada como a da Ucrânia

De acordo com Olaf Boehnke, analista em Berlim da consultoria internacional Rasmussen Global, a política tarifária de Trump “é muito preocupante”.

Para ele, “a guinada” que o presidente Trump deu aos Estados Unidos em relação à Rússia e que o distancia da Ucrânia, em termos econômicos, “é exatamente o mesmo” que aconteceu com as tarifas anunciadas na quarta-feira: uma medida que distancia Washington de seus parceiros europeus.

Como pano de fundo, há o risco de que essas medidas tarifárias levem “a economia alemã a uma recessão, a Europa e, em última análise, há o risco de desencadear uma próxima grande crise econômica global”, de acordo com Boehnke.

Para a Alemanha, a política tarifária de Trump é “um perigo que terá sérias consequências, porque a economia do país é voltada para a exportação” e os Estados Unidos são um mercado muito importante.

O exemplo do setor automotivo

Somente no setor automotivo, estima-se que as tarifas poderiam custar cerca de 300 mil empregos na Alemanha, uma nação com forte tradição automotiva, onde se destacam empresas como o Grupo Volkswagen, a Mercedes Benz e a BMW.

Essas companhias já estão sofrendo as consequências adversas da concorrência dos veículos elétricos chineses e dos problemas industriais alemães, como os altos custos de energia.

Os fabricantes alemães produziram 844 mil veículos em solo americano em 2024, metade dos quais foram exportados para o resto do mundo, de modo que agora podem ser afetados por contra-tarifas de outros países que reagem com uma escalada em uma dinâmica de guerra comercial.

“Há marcas alemãs que produzem muito nos Estados Unidos, como a BMW, que exporta dos Estados Unidos para a Europa, outras não, como a Porsche, que são mais caras e agora a questão para essa empresa é se os clientes estão dispostos a pagar por um carro mais caro”, disse à agência EFE o economista da IW, Hubertus Bardt.

Reação sem escalada?

Na quinta-feira, a indústria química também se mostrou preocupada com as tarifas e com as contramedidas, porque, de acordo com Wolfgang Grosse Entrup, da Associação da Indústria Química da Alemanha, “os Estados Unidos são um parceiro central para a Alemanha”, de modo que “uma escalada só aumentaria os danos”.

Fuest, do Ifo, disse que a resposta europeia deve se basear em uma atitude que “defenda” os interesses da Europa e “leve Trump a se distanciar de suas medidas tarifárias”.

Mas “sem escalar”, o que significa “apresentar contramedidas que podem ser dolorosas, focadas em empresas que poderiam pressionar Trump”, concluiu.

Mercados despencam

Mercados dos EUA e globais despencam nesta quinta-feira após o golpe tarifário de Trump. Os principais índices de Wall Street tiveram quedas expressivas. Pouco depois do sino de abertura, o Dow Jones Industrial Average caiu 2,66%, o S&P 500 perdeu 3,32% e o Nasdaq Composite, de alta tecnologia, caiu 4,50%.

As ações da Apple caíram 8%, já que mais de 90% de sua produção é baseada na China, um dos países mais atingidos pelas tarifas. As ações das fabricantes de PCs Dell e HP caíram 10% e 8%, respectivamente. A Microsoft caiu 2,1%, e a Alphabet, proprietária do Google, perdeu 3,2%.

Os preços das ações dos fabricantes de automóveis também caíram, com a Ford e a General Motors caindo 1,4% e 2,1%, respectivamente. As fabricantes de veículos elétricos Rivian e Lucid caíram 3,2% e 4,8%, respectivamente, enquanto a Tesla caiu 3,5%.

Os principais varejistas dos EUA, como Walmart, Amazon e Target, que dependem de vários países asiáticos, incluindo a China, como principais fornecedores, caíram entre 3% e 7%.

Europa e na Ásia

Na Europa, os mercados também caíram acentuadamente ao meio-dia, embora não tanto quanto nos EUA. O DAX da Alemanha caiu 2,4%, o CAC 40 de Paris perdeu 2,7% e o FTSE 100 do Reino Unido perdeu 1,5%.

No comércio asiático, o índice Nikkei 225 de Tóquio caiu 4% por um breve período, com as montadoras e os bancos sofrendo grandes perdas. Ele fechou em queda de 2,8%.

Na Coreia do Sul, que foi atingida por uma tarifa de 25%, o índice de referência Kospi caiu 1,1%.

O SET de Bangkok caiu 1,1% depois que a Tailândia recebeu uma tarifa de 36% sobre suas exportações para os EUA.

Na Austrália, o S&P/ASX 200 caiu 0,9%.

md (EFE, DW, dpa)