19/01/2026 - 18:42
Popular, Sanae Takaichi assumiu o poder em outubro com maioria estreita no Parlamento. Para especialistas, ela aposta em jogo arriscado sem o parceiro de longa data.Sanae Takaichi odeia os verões quentes do Japão e especialmente o calor úmido do período de campanha, entre julho e setembro. Mas o clima não é a razão pela qual a primeira‑ministra do Japão convocou eleições parlamentares antecipadas para um fevereiro nevado, as primeiras eleições de inverno no país em 36 anos.
O principal motivo é sua enorme popularidade entre os eleitores. Pesquisas divulgadas no fim de semana mostram que ela tem 78% de aprovação.
“Quero que o povo decida diretamente se pode confiar a gestão do país a Sanae Takaichi”, declarou a primeira-ministra nesta segunda-feira (19/01), quando oficialmente convocou o novo pleito para 8 de fevereiro.
Takaichi, que substituiu Shigeru Ishiba no cargo no fim de outubro, quer consolidar o apoio nas urnas. A vitória poderia ampliar sua atual maioria, extremamente estreita, obtida com um novo aliado, o Partido da Inovação do Japão (Nippon Ishin no Kai). Ou até mesmo recuperar a maioria absoluta perdida pelo seu Partido Liberal Democrata (PLD), do qual é a líder, nas eleições gerais de 2024.
Antes de chamar os japoneses às urnas, ela tentou convencer o oposicionista Partido Democrático pelo Povo (DPFP) a integrar a coalizão governista. Diante do insucesso, acabou anunciando, nesta segunda-feira (19/01), a data oficial do novo pleito para 8 de fevereiro.
PLD quer maioria de volta
Se o PLD recuperar a maioria, Takaichi deixará de depender do apoio da oposição para aprovar orçamentos e legislações. Uma vitória também lhe permitirá construir uma rede de parlamentares leais dentro da sigla.
“É tudo bastante ousado”, disse Axel Klein, especialista em Japão da Universidade de Duisburg‑Essen, na Alemanha. “Mas Takaichi pode estar apostando que sua popularidade tornará seu novo parceiro de coalizão, o Ishin, supérfluo.”
Investidores já sinalizaram aprovação ao plano: o índice de referência Nikkei 225, a principal referência da bolsa de valores do Japão, disparou para um recorde histórico, na expectativa de que uma vitória de Takaichi facilite a implementação de suas políticas fiscais “proativas” e do aumento de gastos públicos que elas trariam.
Uma mulher decidida
Um dos motivos de sua popularidade pode ser o fato de ela ser a primeira mulher a ocupar o cargo político mais alto do país.
Ela traz um novo ar à política japonesa, historicamente dominada por homens idosos. Na semana passada, ela e o presidente sul‑coreano, Lee Jae Myung, tocaram ibateria juntos em uma cúpula oficial.
Outra razão é que a primeira-ministra tem um plano fácil de entender para revitalizar a economia do Japão e parece estar trabalhando arduamente para colocá‑lo em prática.
Takaichi eliminou um imposto especial sobre gasolina e utilizou medidas orçamentárias aceleradas para financiar subsídios de energia e combustíveis. Cortes de impostos estão previstos para este ano.
Além disso, ela permanece firme diante da pressão econômica punitiva da China, prometendo apoiar Taiwan em caso de conflito militar, o que parece agradar o gosto dos japoneses.
“A imagem de uma líder, uma mulher decidida à frente do país, pode desviar o foco de um debate objetivo sobre seu desempenho desde que assumiu o cargo”, afirma o especialista Axel Klein. “Campanhas de imagem nas redes sociais tendem a motivar mais os eleitores do que fatos áridos.”
Jogo de riscos
Para analistas, Takaichi enfrenta dois riscos. O primeiro é que sua popularidade não reflita no seu partido. O PLD, atolado em escândalos sobre contas secretas cheias de fundos ilícitos de campanha, bem como em suas ligações com a Igreja da Unificação da Coreia do Sul, tem perdido apoio entre os eleitores.
Membros da Igreja da Unificação ajudaram o PLD na campanha durante a eleição de 2024, enquanto líderes do partido optaram por ignorar um escândalo de doações políticas. Nos três meses desde que Takaichi assumiu o cargo, a sigla manteve uma taxa de aprovação estagnada de 30% nas pesquisas de opinião.jap
O segundo risco ficou claro na semana passada, quando os dois maiores partidos de oposição do Japão anunciaram que estavam formando a União pela Reforma Centrista.
Composta pelo maior Partido Democrático Constitucional do Japão (CDP), de orientação social‑democrata, e pelo Komeito, de tendência liberal‑moderada, o plano é fazer campanha sob uma única bandeira para as eleições de fevereiro. A dupla busca se apresentar como uma alternativa centrista ao governo conservador de Takaichi.
Sem parceiro de longa data
CDP e Komeito se opõem a mudanças na tradicional constituição pacifista do Japão. Também são céticos em relação à energia nuclear. Diferentemente do pró‑empresariado PLD, afirmam defender uma “economia que respeita o povo” e a ampliação do bem‑estar social para beneficiar os mais vulneráveis.
Eles também apoiam mudanças nas leis de casamento do Japão para permitir mais flexibilidade na escolha dos sobrenomes.
Por 26 anos, o Komeito foi parceiro de coalizão do PLD. Mas abandonou o barco em outubro, derrubando a coalizão devido a divergências com Takaichi sobre financiamento partidário e política de segurança.
“A falta de apoio do Komeito pode custar muitas vagas ao PLD se o ‘brilho’ de Takaichi não conseguir mobilizar outros grupos de eleitores para compensar a perda de seu antigo parceiro de coalizão”, alertou Klein.
Historicamente, o PLD se beneficiou de acordos eleitorais bem‑sucedidos com o parceiro menor. O jornal japonês Nihon Keizai Shimbun estima que esse arranjo tenha acrescentado 25 cadeiras ao resultado geral do PLD na última eleição.
(Com EFE)
