02/03/2026 - 13:59
EUA e Israel atacaram o Irã horas após uma rodada de conversas considerada positiva pelo regime persa e Omã, que mediou o diálogo. Os esforços diplomáticos foram apenas uma farsa?Dois dias antes do início da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, autoridades iranianas e americanas sentaram à mesa, na cidade suíça de Genebra, em busca de uma solução para o programa nuclear do regime iraniano.
Apesar da tensão e do clima de conflito iminente, com o massivo aparato militar americano a postos perto do Irã, membros do governo iraniano e mediadores de Omã descreveram as negociações como positivas, com “progressos significativos”.
O Irã ofereceu garantias de que não buscaria adquirir material nuclear para a produção de uma bomba atômica. Esse compromisso foi um “avanço muito importante” que “nunca havia sido alcançado antes”, disse o ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr al-Busaidi, na sexta-feira (27/02), à emissora americana CBS News e em suas redes sociais.
No dia anterior, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, também havia destacado o “progresso” e o “entendimento mútuo” entre os envolvidos, em uma postagem no X.
O ataque de sábado, portanto, surpreendeu quem acompanhava as negociações. O presidente dos EUA, Donald Trump, chamou a ação das Forças Armadas americanas de “grandes operações de combate” e a justificou citando “ameaças” de Teerã.
“Nosso objetivo é defender o povo americano, eliminando ameaças iminentes do regime iraniano”, disse Trump, em mensagem de vídeo.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, apresentou argumento semelhante: “Este regime terrorista assassino não pode ser autorizado a se armar com armas nucleares que lhe permitiriam ameaçar toda a humanidade”, disse ele, também em mensagem de vídeo.
Um mal-entendido?
Nesse contexto, pairam dúvidas sobre se houve mal-entendidos fundamentais na análise das negociações e quão plausíveis podem ser as razões oficiais para o ataque.
Para Marcus Schneider, chefe do Projeto Regional de Paz e Segurança no Oriente Médio da Fundação Friedrich Ebert, com sede em Beirute, esse tipo de confusão é improvável. Em vez de um mal-entendido, ele acredita que o movimento foi “uma última tentativa dos omanis de impedir que essa guerra, que agora está começando, acontecesse”.
Segundo ele, os americanos expressaram “muito menos entusiasmo” pelas negociações, permanecendo em silêncio sobre o andamento das conversas.
Diba Mirzaei, especialista em Irã do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (GIGA), em Hamburgo, também duvida que tenha havido percepções discrepantes sobre as conversas. “Não acho que essas negociações tenham sido interpretadas de maneira diferente”, diz ela.
O ministro das Relações Exteriores de Omã, ao falar tão enfaticamente sobre a possibilidade de se chegar a um acordo melhor do que em 2015, acabou revelando “o que realmente está em jogo”.
Posições “extremamente diferentes”
Schneider destaca que a posição de cada país variou muito desde o início. “As negociações nunca poderiam ter sido bem-sucedidas porque as posições eram extremamente diferentes”, diz ele. O que Washington exigia era “equivalente a uma rendição total” — o que o Irã não estava disposto a fazer.
Além disso, seria improvável que o chefe da diplomacia de Omã se manifestasse publicamente sem provas concretas, afirma Mirzaei. “Acredito que ele foi à imprensa para deixar claro mais uma vez a oportunidade que os EUA perderiam se atacassem o Irã.”
No entanto, Mirzaei diz não ter se surpreendido com o ataque. Considerando o envio de grande número de navios de guerra e equipamentos militares dos EUA para a região há semanas, era “improvável” que isso fosse apenas uma demonstração de força, segundo ela.
Erro de avaliação dos EUA?
Schneider afirma que os Estados Unidos podem ter entrado nas negociações com uma avaliação equivocada sobre o rival. “Acredito que também houve um erro de avaliação em relação à natureza e ao caráter desse regime”, diz. Washington aparentemente esperava que Teerã desistisse diante da enorme expansão militar. “Mas um regime tão ideologicamente motivado não está preparado para fazer esse movimento.”
Schneider também refuta a justificativa de Trump de que o Irã representa uma ameaça iminente aos EUA. Para ele, um plano da República Islâmica de atacar os EUA era “improvável”. O conflito, portanto, não é uma resposta “preventiva”, mas uma “guerra de escolha”.
Estratégia de escalada
“Foram conversas sérias com o objetivo de negociar um novo acordo — ou, nas palavras de Trump, um ‘acordo melhor'”, pontua Mirzaei. Mas a experiência mostra que o presidente dos EUA se baseia numa estratégia de escalada, aumentando a pressão para incentivar concessões. Resta saber se essa lógica levará a um acordo viável nas circunstâncias atuais, acrescenta ela.
Schneider considera o ataque inicial de Israel, seguido logo em seguida pelo dos EUA, uma escolha tática e difícil de separar politicamente. Tal cenário havia sido discutido em Washington, tendo em vista o ceticismo da base trumpista. Mas o ataque parece ter sido coordenado. “Basicamente, pode-se supor que ambos os lados atacaram quase ao mesmo tempo”, com os israelenses atacando apenas “dois segundos antes”, afirma.
“O problema é que o Irã não é a Venezuela. O Irã também não é o Iraque de 2003”, diz Mirzaei, acrescentando que Trump manobrou os EUA e a região “para um cenário em que um acordo só pode ser alcançado com grande dificuldade”.
