Em uma sociedade que depende cada vez mais do toque para validar transações bancárias, acessar smartphones ou atravessar fronteiras, um processo natural do corpo humano tem gerado desafios inesperados: o desgaste das impressões digitais. Embora a estrutura básica da digital seja definida ainda no útero e permaneça a mesma por toda a vida, a “qualidade” para a leitura biométrica sofre alterações significativas com o passar das décadas.

Estudos e dados técnicos indicam que cerca de 30% dos idosos podem enfrentar dificuldades reais no reconhecimento biométrico. O fenômeno, muitas vezes confundido com falha dos aparelhos, é, na verdade, uma manifestação dermatológica do envelhecimento celular.

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A biologia por trás do “apagamento”

As impressões digitais são formadas por cristas papilares (os sulcos elevados) e vales. Com o envelhecimento, o corpo humano passa por uma série de transformações hormonais e metabólicas que atingem diretamente a derme e a epiderme.

  • Pele mais fina: A produção de colágeno e elastina diminui, tornando a pele dos dedos mais fina e frágil.

  • Ressecamento severo: A redução da atividade das glândulas sebáceas deixa a pele seca, o que retira o contraste necessário para que os sensores ópticos identifiquem as linhas.

  • Perda de elasticidade: A pele menos elástica tende a ficar mais “lisa” ou enrugada, diminuindo a profundidade e a definição dos sulcos (cristas).

  • Desgaste cumulativo: O uso prolongado de produtos de limpeza químicos ao longo da vida e o trabalho manual aceleram o desgaste dessas linhas.

A perda é definitiva?

Uma dúvida comum entre aqueles que começam a ter problemas com biometria é se a identidade digital foi perdida para sempre. Na maioria dos casos, a resposta é não. A estrutura das cristas permanece lá, mas está apenas desgastada superficialmente ou obscurecida pela falta de hidratação.

Dermatologistas sugerem que o uso regular de hidratantes específicos para as mãos pode recuperar a textura da pele a ponto de permitir que o sensor faça a leitura novamente. O hidratante preenche momentaneamente os microespaços da pele e melhora o contraste para o leitor biométrico.

Desafios no cotidiano e soluções

A dificuldade de leitura não é apenas um incômodo técnico; ela gera barreiras de acessibilidade. Idosos relatam constrangimentos em caixas eletrônicos, na emissão de documentos oficiais e até na identificação em hospitais. Para mitigar esses problemas, especialistas recomendam:

  1. Laudo médico: em casos de desgaste severo, um laudo dermatológico pode ser utilizado para solicitar formas alternativas de identificação.

  2. Cadastros alternativos: muitos sistemas já permitem o uso de reconhecimento facial ou leitura de íris como substitutos à digital.

  3. Múltiplos dedos: no momento do cadastro, é recomendável registrar o maior número possível de dedos, pois o desgaste pode não ser uniforme em todas as pontas digitais.

Reflexão crítica: tecnologia x biologia

O avanço da biometria foi pensado para trazer segurança e agilidade, mas o “esquecimento” da biologia do envelhecimento nas etapas de design de produtos pode excluir uma parcela considerável da população. O redesenho de sensores para captar impressões mais fracas ou a integração de múltiplas camadas de reconhecimento é essencial para garantir a inclusão digital na terceira idade.

Alternativas para os cidadãos

Para garantir que a tecnologia não se torne uma barreira de exclusão para a população idosa, órgãos públicos como o INSS e instituições bancárias brasileiras têm implementado protocolos de contingência e tecnologias alternativas para cidadãos cujas digitais não são mais legíveis pelos sensores convencionais.

Aqui estão as principais formas de adaptação vigentes no Brasil:

1. Prova de Vida e o INSS

O INSS mudou radicalmente a lógica da Prova de Vida. Desde 2023, o órgão passou a realizar o cruzamento de bases de dados governamentais para confirmar que o beneficiário está ativo, reduzindo a necessidade do toque físico no sensor biométrico.

  • Cruzamento de dados: o INSS utiliza registros de vacinação, renovação de CNH, votação em eleições e até a emissão de passaporte para validar a vida do segurado automaticamente.

  • Biometria facial: por meio do aplicativo Gov.br, o segurado pode realizar o reconhecimento facial, que utiliza a câmera do celular. Esta tecnologia é menos afetada pelo desgaste da pele do que os sensores de impressão digital.

  • Atendimento domiciliar: para beneficiários com dificuldades de locomoção ou problemas graves de saúde que impedem qualquer biometria, o INSS pode realizar a perícia ou prova de vida no domicílio ou hospital, mediante agendamento.

2. Adaptações no Ssetor bancário

Os bancos brasileiros, cientes de que cerca de 30% dos idosos enfrentam dificuldades com a biometria dactilar, diversificaram seus canais de autenticação.

  • Leitura da palma da mão (infravermelho): algumas instituições utilizam a biometria da palma da mão, que lê o padrão das veias sob a pele através de luz infravermelha. Como este padrão é interno, ele não sofre com o desgaste, ressecamento ou afinamento da epiderme.

  • Reconhecimento facial em caixas eletrônicos: novos terminais de autoatendimento estão sendo equipados com câmeras para reconhecimento facial, eliminando a necessidade de colocar o dedo no sensor.

  • Autenticação por dispositivos (token): o uso de aplicativos bancários em smartphones próprios permite que o idoso utilize senhas numéricas ou a biometria do próprio celular, que muitas vezes é mais sensível e calibrada para o usuário do que os sensores públicos.

3. Protocolos de contingência

Caso a digital falhe repetidamente, o cidadão tem direitos garantidos para não ser impedido de acessar seus recursos:

  • Uso de senha alternativa: bancos são orientados a liberar o acesso via cartão e senha numérica após sucessivas falhas da biometria, muitas vezes exigindo uma segunda validação (como um código enviado por SMS ou apresentação de documento com foto ao gerente).

  • Laudo  dermatológico: conforme mencionado, o cidadão pode apresentar um laudo médico atestando a “inviabilidade técnica de coleta biométrica”. Esse documento obriga o órgão ou banco a cadastrar o usuário em um regime de exceção, utilizando apenas métodos manuais de identificação.

4. Dicas práticas para o momento da coleta

Para melhorar a chance de sucesso em sistemas que ainda exigem a digital:

  • Hidratação imediata: manter um pequeno frasco de creme hidratante e aplicar minutos antes de usar o caixa eletrônico pode recuperar temporariamente o contraste das cristas papilares.

  • Limpeza do sensor: gordura e sujeira no sensor pioram a leitura de digitais já enfraquecidas; peça para limpar a superfície do leitor antes de tentar.

  • Cadastro de vários dedos: no momento do cadastro no banco ou no cartório eleitoral, peça para registrar os 10 dedos. Dedos menos usados no dia a dia, como o anelar ou o mínimo, costumam ter as cristas mais preservadas do que o polegar e o indicador.