República Islâmica é um ator fundamental no Oriente Médio, além de possuir ligações íntimas com Rússia e China. Protestos no país têm potencial para influenciar a política global.O Irã é considerado um ator fundamental no Oriente Médio devido à sua localização geopolítica em uma das rotas comerciais de energia mais importantes do mundo, o Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, bem como às suas enormes reservas de petróleo e gás, ambições políticas e seu programa nuclear.

O país, predominantemente xiita e com aproximadamente 93 milhões de habitantes, tem sido palco de protestos em todo o seu território há duas semanas, inicialmente desencadeados pela crise econômica, que desde então se transformaram em uma revolta contra o governo em Teerã. Oficialmente, o regime autoritário da República Islâmica culpa seus inimigos externos, particularmente os Estados Unidos e Israel, pelas manifestações.

No entanto, parece mais fácil para a liderança iraniana negociar com os EUA do que dialogar com sua própria população. No domingo (11/01), o presidente Donald Trump anunciou que o Irã estava pronto para negociar com a Casa Branca – mas nesta terça-feira disse ter cancelado reuniões com autoridades iranianas até que a morte de manifestantes fosse interrompida.

Desde a Revolução Islâmica de 1979 e a subsequente ocupação da embaixada americana em Teerã, o Irã e os Estados Unidos não mantêm relações diplomáticas. Desde então, as relações entre os dois países são marcadas por antagonismo ideológico, sanções, tensões de segurança e disputas sobre o programa nuclear iraniano. Em junho, os americanos chegaram a atacar instalações nucleares do Irã.

Programa nuclear iraniano

Os EUA exigem que o Irã interrompa completamente o enriquecimento de urânio para seu programa nuclear. O Ocidente acusa Teerã de buscar secretamente o desenvolvimento de uma bomba atômica. O Irã nega, embora tenha recentemente enriquecido urânio a até 60%.

Nos últimos dias, Trump ameaçou repetidamente o Irã com uma intervenção militar, mas o presidente americano não tem interesse em projetos dispendiosos sem uma conclusão clara e, em geral, prefere evitar guerras prolongadas, afirma a analista do Oriente Médio e especialista em Irã Fatemeh Aman, que escreve para think tanks americanos renomados, como o Middle East Institute e o Atlantic Council. “O presidente Trump demonstrou repetidamente que prioriza os interesses tangíveis dos Estados Unidos acima de todas as outras considerações”, avalia Aman.

Nesse contexto, o objetivo principal pode ser mudar o comportamento da República Islâmica, e não necessariamente impor uma mudança de regime. Esse objetivo pode ser buscado por meio de pressão, sanções e ameaças, mas não por meio de uma guerra em grande escala.

Preocupações com a estabilidade no Golfo Pérsico

Embora os vizinhos árabes no Golfo Pérsico não sejam considerados aliados de Teerã, eles têm um forte interesse na estabilidade regional e em evitar uma escalada militar.

Uma guerra em larga escala entre os EUA e o Irã teria repercussões imediatas para os Estados vizinhos, mesmo que não levasse diretamente a uma mudança de regime. “Essas repercussões incluem um fornecimento instável de energia, insegurança crescente, pressão econômica significativa e o risco de uma escalada ainda maior de conflitos por procuração. Consequentemente, não se espera atualmente um amplo apoio a uma guerra em larga escala na região.”

Um ataque ao Irã acarretaria o risco de que Teerã retaliasse com ataques a bases militares americanas na região, que existem às dezenas nos países vizinhos.

“Antes dos eventos recentes, os Estados do Conselho de Cooperação do Golfo decidiram reconhecer a República Islâmica como uma realidade política com a qual era necessário lidar”, disse Farzan Sabet à DW. Ele é um especialista em política com foco em sanções econômicas e segurança no Oriente Médio, vinculado ao Centro de Governança Global do Instituto de Altos Estudos Internacionais e de Desenvolvimento de Genebra.

“Posteriormente, após os eventos de 2019, eles começaram a fortalecer suas próprias forças militares e aprofundar suas relações estratégicas com aliados. Ao mesmo tempo, buscavam avançar na diplomacia e reduzir as tensões com o Irã”, observou.

A rivalidade regional entre os governantes xiitas do Irã e a família real sunita da Arábia Saudita pela hegemonia no Oriente Médio, incluindo Síria, Iraque e, principalmente, Iêmen, se intensificou em 2019, após ataques com drones e mísseis a refinarias da estatal petrolífera Saudi Aramco em Abqaiq e Khurais, no território saudita. Os ataques reduziram temporariamente pela metade a produção de petróleo de Riad. Os rebeldes houthis no Iêmen, apoiados pelo Irã, foram responsabilizados, embora Teerã tenha negado envolvimento direto.

O Irã e a Arábia Saudita iniciaram uma cautelosa reaproximação nos últimos anos, mediada pela China. Ambos os países são considerados importantes parceiros comerciais de Pequim, que, por sua vez, depende da estabilidade no Oriente Médio para garantir seu fornecimento de energia.

Mais sanções e pressão política

Para a China, que tem expandido constantemente sua influência no Oriente Médio e continua importando petróleo a baixo custo do Irã, apesar das sanções americanas, os protestos e as novas sanções dos EUA não são boas notícias.

Como aliados da República Islâmica, a China e a Rússia criticaram duramente o mecanismo de “restabelecimento automático” (snapback), acionado em setembro de 2025 pelos EUA e pelo grupo de países E3 (Alemanha, França e Reino Unido) para reinstaurar as sanções da ONU contra Teerã, rejeitando a decisão como juridicamente inadmissível. Essas sanções haviam sido suspensas em 2015 como parte do acordo nuclear JCPOA (sigla em inglês para Plano de Ação Conjunto Global) entre o Irã e cinco potências com poder de veto, além da Alemanha.

Os EUA se retiraram unilateralmente do acordo em 2018, sob o governo do presidente Trump, com o objetivo de alcançar um pacto melhor. O presidente americano continua a perseguir esse objetivo.

Nesta segunda-feira, Trump anunciou em sua rede social Truth Social que uma tarifa de 25% seria aplicada imediatamente aos países que fizerem negócios com o Irã. De acordo com o banco de dados Trading Economics, os principais parceiros comerciais iranianos são a China, a Turquia, os Emirados Árabes Unidos e o Iraque.

A China criticou a decisão. A porta-voz do Ministério chinês do Exterior, Mao Ning, ao ser questionada sobre as novas tarifas americanas, disse que a liderança chinesa acredita que não há vencedores em uma guerra comercial, e que Pequim protegerá de maneira resoluta seus direitos e interesses legítimos.

A China também criticou a intervenção dos EUA na Venezuela. Segundo a Kpler, empresa de dados e análises que fornece informações em tempo real sobre os mercados globais de commodities e transporte marítimo, mais da metade das exportações totais de petróleo bruto da Venezuela, de 768 mil barris por dia, foram destinadas à China no ano passado, o que representa cerca de 3% das importações chinesas de petróleo bruto.

Rússia sob Putin apoia a República Islâmica

De acordo com o estrategista e especialista em energia Umud Shokri, da Universidade George Mason, em Fairfax, Virgínia, o país que mais teme um Irã livre e democrático é a Rússia sob o presidente Vladimir Putin.

Em entrevista à DW, ele afirmou que o Kremlin “exerce grande influência sobre o atual governo da República Islâmica. Caso um governo chegue ao poder e ameace os interesses russos na região ou sua política externa, este seria um governo indesejável para Moscou.”

O Irã está entre os três países com as maiores reservas de petróleo do mundo e também possui a segunda maior reserva de gás natural. “Se o Irã conseguir atrair o capital e a tecnologia necessários e recuperar sua participação no mercado de energia após o levantamento das sanções, a participação de outros países exportadores diminuirá gradualmente”, disse Shokri.

Ainda assim, ele acredita que um governo democraticamente eleito e estável em Teerã poderia ser do interesse de todos os outros países da região.

Isso significaria o fim da política externa intervencionista da República Islâmica do Irã, que afeta todos os países da região – quer queiram ou não.