Americano ameaçou o regime do Irã, mas depois recuou, aconselhado por aliados dos EUA na região. O que está por trás disso?Ao menos no discurso, Donald Trump saiu em defesa dos iranianos que protestam contra o regime dos aiatolás. “Ajuda está a caminho”, prometeu o presidente dos Estados Unidos há alguns dias, citando os ataques por parte das forças de segurança de Teerã aos manifestantes. Todavia, uma semana depois, essa ajuda ainda não chegou – e parece cada vez mais improvável que isso ocorra de verdade.

Poucos dias após a fala, Trump voltou atrás. Ele explicou que havia sido informado de que a “matança” causada nos protestos tinha cessado, e que o governo iraniano tinha suspendido as execuções no país.

Essa avaliação não foi compartilhada por outros países das Nações Unidas. Por iniciativa deles, o Conselho de Direitos Humanos da ONU realizará, nesta sexta (23/01), uma sessão extraordinária sobre a “violência alarmante” no Irã. A organização de direitos humanos Human Rights Watch também se pronunciou a favor da reunião.

Enquanto isso, a organização iraniana de direitos humanos Human Rights Activists (HRA), com sede nos EUA, contabiliza 4.029 mortes em protestos, a maioria de manifestantes. Outros 9 mil casos estão sob investigação da entidade.

Além do alegado fim da “matança”, Trump também deve ter tido outros motivos para mudar os planos sobre o Irã. Um deles seria a pressão de países árabes. Segundo a imprensa, interlocutores de Arábia Saudita, Catar, Omã e Egito conduziram negociações diplomáticas com os EUA na semana passada para impedir um ataque iminente dos EUA. De acordo com a agência de notícias AP, esses países também aconselharam o regime de Teerã a agir com cautela.

Cautela no Golfo Pérsico

Os países do Golfo Pérsico possuem vários motivos para rejeitar um ataque dos Estados Unidos ao regime em Teerã, afirma a cientista política Pauline Raabe, do Middle East Minds, um think thank com sede em Berlim. É verdade que essas nações têm interesse que o Irã se mantenha fraco, o que o torna menos perigoso, pontua ela. “Mas eles também temem que a violência saia de controle e que acabem se tornando alvo de ataques iranianos”, acrescenta Raabe.

Opinião semelhante é compartilhada pelo cientista político Eckart Woertz, diretor do Instituto Giga para Estudos do Oriente Médio, em Hamburgo. Segundo ele, é improvável que o governo iraniano seja deposto neste momento. “Porém, se isso acontecer, uma queda do regime de Teerã não deverá ocorrer sem que haja violência. Essa violência também poderia se voltar contra os países do Golfo e, além disso, gerar um movimento significativo de refugiados”, observa Woertz.

É verdade que os países do Golfo e o Irã vêm se aproximando há anos. Mas um ataque dos EUA poderia arruinar esse processo, diz Pauline Raabe. “Isso porque as bases americanas no Catar, na Arábia Saudita ou no Bahrein poderiam se tornar os primeiros alvos de possíveis ataques aéreos iranianos. Assim, a guerra chegaria ao território dos países do Golfo.”

Baques econômicos

Mas mesmo se o Irã não atacar os vizinhos, um confronto poderia ter consequências graves para a região. “Se o Irã decidir bloquear rotas comerciais , por exemplo, isso terá um impacto significativo na economia dos países do Golfo”, afirma Pauline Raabe.

Um bloqueio seria possível, por exemplo, no Golfo Pérsico, observa a cientista política. “Isso já aconteceu no Mar Vermelho, onde a milícia houthi, que é aliada do regime no Irã, atacou navios internacionais”, pontua ela.

Desdobramentos desse tipo teriam, naturalmente, enormes consequências econômicas na região. “Primeiro para os países árabes, mas depois também para a economia mundial como um todo”, complementa Raabe.

Esses países não precisam de perturbações neste momento, afirma Eckart Woertz. Ele se refere aos processos de transformação econômica na região do Golfo Pérsico, que tenta se preparar para um período pós-energias fósseis.

“Nesse processo, a Arábia Saudita quer se reposicionar economicamente. Qualquer agitação é um grande problema. Mas isso também vale para os negócios ‘clássicos’, a exploração de recursos naturais, especialmente petróleo. Qualquer incerteza é péssima, porque eles dependem tanto da confiança quanto de cadeias de abastecimento que funcionem. Ambas são condições essenciais para a economia do Golfo”, explica Woertz.

Estabilidade por meio do autoritarismo

Além disso, Woertz pontua que os países do Golfo ainda têm todo o interesse em uma estabilidade regional apoiada em governos autoritários, como é o caso do Irã.

“A elite política dos países do Golfo parece preferir apostar no antigo regime a se envolver com uma força nova e desconhecida. É claro que há fortes reservas em relação ao regime iraniano por lá. Ao mesmo tempo, porém, após um período de distanciamento, ambos os lados aprofundaram os contatos diplomáticos nos últimos anos – e não querem colocar isso em risco”, acrescenta o cientista político.

As elites políticas árabes também querem evitar protestos como os de 2011 em seus países, diz Pauline Raabe. “Para preservar sua própria estabilidade, as nações do Golfo provavelmente também vão recorrer a outros instrumentos além do regime de Teerã. Com base em experiências anteriores, eles provavelmente vão tentar fazer concessões específicas à população”, finaliza.