02/02/2026 - 15:39
Depois de atingir altas recordes, metais sofreram quedas históricas e inesperadas nos mercados. Fatores geopolíticos e especulação sobre demanda industrial explicam como frenesi virou pânico.Depois de disparar para um recorde acima de 5.634 dólares por onça na semana passada, o ouro sofreu na sexta-feira (30/01) a queda diária mais acentuada em anos, recuando cerca de 9%.
Não parou aí. Nesta segunda-feira, a queda se aprofundou, com o metal perdendo mais 3,3%, chegando aos 4.410 dólares por onça.
Primeiro, o recorde aconteceu quando investidores correram para ativos de proteção, como o ouro, em meio à inflação persistente nas principais economias e à alta tensão geopolítica.
Os mercados financeiros também reagiram às expectativas de cortes iminentes na taxa de juros pelo Federal Reserve (Fed, na sigla em inglês). O movimento normalmente enfraquece o dólar e aumenta a demanda por ouro.
Outra força que impulsionou os preços foi uma onda de aquisição de call options, isto é, contratos que dão aos negociadores o direito de comprar no futuro produtos financeiros, como ouro, a um preço definido. Isso forçou os vendedores deste tipo de contratos a comprar o metal para se protegerem de possíveis perdas, criando um ciclo que empurrou os preços ainda mais para cima.
Alta inesperada da prata
A prata, por sua vez, registrou uma alta inesperada na semana passada, atingindo recorde de 122,8 dólares por onça na quinta-feira, antes de despencar quase um terço logo depois.
Nesta segunda-feira, a queda total acumulada era de cerca de 41%, para aproximadamente 72 dólares, antes dos primeiros sinais de recuperação.
A alta extrema da prata foi alimentada por negociações especulativas e expectativas surpreendentemente fortes de demanda industrial. O metal é cada vez mais utilizado em eletrônicos, inteligência artificial (IA) e produção de energia limpa.
Na China, uma corrida de dinheiro especulativo também apertou a oferta doméstica de prata, empurrando os preços ainda mais para cima.
Por que a reversão foi tão dramática?
A mudança abrupta nos preços decorreu principalmente de duas declarações que inverteram o sentimento do mercado e desencadearam uma onda de vendas forçadas.
Primeiro, na sexta-feira, Donald Trump nomeou Kevin Warsh como o próximo presidente do Fed. Ele é visto como uma voz pragmática e independente, com experiência em crises econômicas.
Os mercados interpretaram a escolha como mais ortodoxa e pouco propensa a ceder às pressões da Casa Branca por cortes drásticos e imediatos de juros, exigências que Trump repetidamente direcionou a Jerome Powell, que comandava até agora o banco central dos EUA.
A nomeação de Warsh valorizou o dólar, contrariando as apostas dos investidores de que o governo Trump estava pronto para tolerar uma moeda mais fraca. Elevam-se as expectativas de uma política monetária mais rígida que fortaleceria o dólar e pressionaria o ouro, negociado na moeda americana.
Como os negociadores reagiram?
A velocidade e a magnitude da liquidação nos metais preciosos assustaram os operadores. Um dos resultados foi a forte redução no apetite por risco.
“O tamanho do desmonte que está ocorrendo no ouro hoje é algo que eu não via desde os dias sombrios da crise financeira global de 2008”, disse Tony Sycamore, analista da IG, à agência Reuters.
Após o colapso do Lehman Brothers em 2008, o ouro inicialmente despencou mais de um quarto a partir de seu pico próximo de 1 mil dólares, chegando a cerca de 700 dólares por onça. Mais tarde, recuperou-se fortemente, visto como ativo de proteção enquanto bancos centrais lançavam grandes estímulos econômicos, incluindo a flexibilização quantitativa, e reduziam juros a quase zero.
Na atual derrocada, vários operadores afirmaram que a liquidez evaporou durante o período de vendas mais intensas na sexta-feira, ampliando as oscilações de preço e dificultando a saída de posições sem mover o mercado.
Outros analistas apontaram para apostas altistas excessivamente concentradas, que deixaram o mercado vulnerável assim que os preços começaram a cair.
“A questão é que o trade estava excessivamente lotado”, disse Robert Gottlieb, ex‑operador de metais preciosos do JPMorgan, à Bloomberg. Para ele, a repercussão pode manter os preços contidos, já que os operadores tendem a ficar mais relutantes em assumir nova exposição.
É o fim da alta do ouro e da prata?
A reversão violenta levou operadores a debaterem se o boom realmente terminou ou se apenas deu uma pausa após uma disparada exagerada.
“A pergunta que todos se fazem agora é: o que acontece em seguida?”, disse Michael Brown, estrategista sênior da corretora australiana Pepperstone, citado pela AFP. “Eu destacaria que, de maneira semelhante à alta vista nas últimas semanas, também há um argumento sólido de que essa correção foi rápida e intensa demais.”
Em um relatório publicado nesta segunda-feira, o Deutsche Bank escreveu que as motivações dos investidores para comprar ouro são “mais amplas” do que em altas anteriores e “não devem desaparecer”.
Além dos investidores institucionais, o maior banco da Alemanha destacou o apetite contínuo dos bancos centrais — incluindo China, Polônia e Coreia do Sul — que devem continuar sendo uma fonte importante de demanda.
Bancos centrais compram ouro para diversificar reservas e se proteger contra riscos cambiais e geopolíticos.
O relatório também mencionou a resiliência da demanda de investidores individuais, especialmente na Ásia, que veem o ouro como proteção contra desvalorização da moeda e reserva portátil de riqueza.
Muitos analistas acham que a alta da prata ainda tem espaço para continuar, porque seus fundamentos parecem mais fortes do que os do ouro. A demanda industrial segue crescendo e a oferta continua apertada após anos de subinvestimento em exploração e mineração.
