Oportunidades de emprego e expectativa de ascensão social são algumas razões para o estado ter registrado o maior saldo migratório do país, superando São Paulo .Após três dias e meio de viagem desde o Maranhão, Luís Carlos Gomes Pereira, a esposa, o filho e a cachorrinha chegaram à rodoviária de Florianópolis (SC) na madrugada de 9 de fevereiro. Desembarcaram mochilas, vasilhas, televisão e máquina de lavar. A família ainda viajaria mais algumas horas até Criciúma. “A gente veio atrás de um salário melhor. Vamos experimentar uma nova vida”, disse Pereira.

A mudança da família maranhense para Santa Catarina reflete um movimento captado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Censo Demográfico 2022 mostrou que o estado registrou o maior saldo migratório entre as unidades da federação entre 2017 e 2022: 354,3 mil pessoas. Nesse período, 503,5 mil chegaram ao território catarinense, enquanto 149,2 mil partiram.

São Paulo recebeu o maior número de migrantes: 736,3 mil. No entanto, também foi o estado que mais perdeu moradores: 825,9, resultando em um saldo migratório negativo de 89,5 mil pessoas. O fenômeno representa uma mudança histórica, segundo o IBGE, porque o território paulista liderava o quesito desde o início da série histórica, em 1991.

O processo de desindustrialização do país ajuda a explicar o saldo negativo paulista, analisou Elson Manoel Pereira, professor e pesquisador de Planejamento Urbano da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Passou da ordem de 20 e tantos por cento de industrialização para quase 10%. Isso diminui a atração desses grandes centros, que antigamente eram mais industrializados.”

Por outro lado, há fatores de atração em Santa Catarina, conforme Lauro Mattei, professor e pesquisador de Economia da UFSC. “O primeiro ponto, sem dúvida nenhuma, é o mercado de trabalho, que há anos tem a menor taxa de desemprego do Brasil. O segundo é que, em função disso, o estado tem a maior formalidade do mercado de trabalho. Ou, em outras palavras, a menor taxa de informalidade. Em terceiro lugar, é o estado com o maior salário médio.”

Churrasco e carimbó

Sidnei Fioravante deixou Getúlio Vargas (RS) há 13 anos em busca de mais oportunidades e melhor qualidade de vida. “E aconteceu”, disse. Hoje ele vive na praia dos Ingleses, em Florianópolis, onde é dono de uma churrascaria, um boliche e uma petiscaria à beira mar – além de ter ajudado a fundar um Centro de Tradições Gaúchas (CTG).

A maioria dos migrantes que escolheram Santa Catarina no período analisado pelo IBGE é formada por gaúchos (134,8 mil) como Fioravante, seguidos por paranaenses (96,1 mil) e paulistas (62,4 mil). A proximidade geográfica e cultural são algumas das razões para explicar esse movimento.

Mas o estado que mais chamou a atenção ficou na quarta colocação da lista: o Pará, que fica a mais de 3 mil quilômetros de distância. Entre 2017 e 2022, 44,9 mil paraenses passaram a morar em Santa Catarina. Atualmente, duas empresas de ônibus operam rotas regulares entre Florianópolis e Belém do Pará.

Carlos André é proprietário do Parazinho, espaço cultural e gastronômico dedicado à culinária paraense, e escolheu Santa Catarina em busca de oportunidades. “Oportunidade que, infelizmente, no nosso estado não tem. Ele é rico em produtos, culinária e gastronomia. Mas oportunidade… Então a gente vem buscando segurança, uma educação digna, um trabalho digno também, que possa dar qualidade de vida para cada família que vem para cá.”

A cultura daquele estado também pode ser vista em outros pontos de Santa Catarina. A uma semana do Carnaval, um grupo de mulheres dançava no centro de Florianópolis, rodando as saias ao som do carimbó. “Nunca passou pela minha cabeça, quando saí de Belém, em 2018, que eu estaria dançando carimbó no centro de Florianópolis com a minha filha”, disse Leny Rebelo, do grupo Amazônia em Cena.

Experiências distintas

Santa Catarina também teve um crescimento expressivo na proporção de estrangeiros, de acordo com os dados do IBGE. Atualmente são 72,7 mil pessoas de outros países vivendo no estado, mais que o triplo do registrado em 2010.

A composição da migração não é homogênea, tanto do ponto de vista das cidades escolhidas quanto das situações econômicas dos migrantes, avaliaram os especialistas. Embora a capital Florianópolis seja o principal destino, devido à força de setores como serviços, turismo e tecnologia, outras regiões têm atrativos específicos.

O Oeste do estado, por exemplo, atrai muitos migrantes por conta das agroindústrias. Chapecó, o grande polo daquela região, também tem empregado muitos estrangeiros, como venezuelanos e haitianos.

Outro movimento ocorre, segundo os especialistas, com a migração de aposentados ao litoral catarinense. “Da minha cama eu vejo a roda gigante. É muito simpático. Eu gosto desse visual”, disse Henrique Rosenthal, olhando pela janela de seu apartamento, na orla de Balneário Camboriú. Hoje com 84 anos, ele se mudou de Curitiba em busca de um clima melhor, com sol, claridade e segurança.

Rosenthal, no entanto, sabe que sua situação não é uma regra. “Mas isso aqui exige, como se costuma dizer, ter onde cair morto. Não é todo mundo que pode escolher vir morar em Balneário Camboriú.”

O baiano Gleidson Bispo Sousa trabalha na construção civil nos Ingleses, em Florianópolis. Assim como outros entrevistados, ele contou que não consegue aproveitar as belezas da cidade. Citou a Cachoeira da Costa da Lagoa, um lugar turístico da cidade acessível apenas por barco ou trilha. “Eu nunca fui”, disse, salientando que está na capital há cinco anos. “O cara aqui vem pra trabalhar tem que trabalhar.”

As consequências e planejamento

A migração acaba gerando consequências, como discriminação e preconceito, sobretudo com imigrantes estrangeiros e do Norte e Nordeste do país. Segundo Vanessa Bianchi, assistente social da Cáritas, organização ligada à igreja católica que atua na acolhida, integração e proteção de migrantes e refugiados, muitos estrangeiros com nível superior e até mestrado e doutorado conseguem apenas empregos com exigência de ensino fundamental ou médio.

Outras consequências ocorrem em áreas como habitação, saneamento básico e saúde. “Os dados sobre as favelas de Santa Catarina revelaram uma característica muito expressiva, dada a sua pouca temporalidade. O que eu quero dizer: há 100 anos o Rio de Janeiro tinha favela. Mas você não tinha a expressão de favelas em Santa Catarina como você teve nesses últimos 20 anos”, analisou o professor Mattei.

Segundo os dados do IBGE, em 2010, havia 75,7 mil pessoas vivendo em favelas em Santa Catarina. Em 2022, o número passou para 109,2 mil, um aumento de 44,2%. O crescimento foi levemente superior à média nacional no período.

Para Elson Pereira, da UFSC, é fundamental pensar em planejamento para este cenário. “Se não houver uma intervenção de planejamento forte, esse processo tende a perdurar um pouco mais até chegar num ponto de equilíbrio ou saturação dessas condições boas.”