Sondagens indicam vitória de António José Seguro na votação deste domingo sobre o líder de ultradireita André Ventura, que promete a “maior mudança do sistema político português” desde a Revolução dos Cravos.Portugal vai às urnas neste domingo (08/02) para votar no segundo turno das eleições presidenciais, que coloca frente a frente a continuidade do regime democrático nascido da Revolução dos Cravos, representado pelo ex-ministro socialista António José Seguro, e a ruptura do sistema prometida pelo líder de ultradireita André Ventura. As sondagens apontam, entretanto, para uma ampla vantagem de Seguro.

Seguro, que vem se apresentando como candidato “suprapartidário”, afirmou que pretende modificar “muitas coisas” que não funcionam, mas que de forma alguma pretende mudar o regime. Ventura, por outro lado, acena com “a maior mudança no sistema político português desde 25 de abril de 1974”, data da revolução.

A continuidade e a estabilidade prometidas por Seguro contrastam com a “reestruturação” antecipada por Ventura, que acusa de fracasso as legendas que governam o país desde a restauração da democracia – o Partido Socialista (PS) e o Partido Social Democrata (PSD).

Portugal é um regime semipresidencialista, em que o Poder Executivo é compartilhado entre o presidente e o primeiro-ministro.

Campanha em meio a inundações

Para tentar convencer os eleitores, ambos os candidatos que disputam a sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém, sede da Presidência, têm concentrado suas campanhas neste segundo turno nas áreas mais afetadas pelas tempestades que atingiram o país nas últimas duas semanas.

Ambos os candidatos reescreveram drasticamente seus discursos e aparições durante a campanha eleitoral para focar nas cidades e vilarejos mais atingidos pelas enchentes.

Assim, Seguro tem sido visto conversando com moradores das áreas afetadas porque, como afirma, “o trabalho do presidente é ouvir os cidadãos”, enquanto Ventura tem distribuído suprimentos e visitado fábricas impactadas pelo mau tempo, entre outras atividades.

Adiamento em alguns municípios

A votação foi adiada em uma semana em alguns municípios devido às tempestades, que mataram ao menos cinco pessoas, provocaram inundações e causaram danos generalizados.

Espera-se que um novo temporal chegue ao país no fim de semana da votação. Apesar disso, o pedido de Ventura para adiar o pleito em todo o país devido ao mau tempo foi rejeitado.

O primeiro-ministro português, Luis Montenegro, disse que as chuvas causaram uma “crise devastadora”, mas que as ameaças à votação podem ser superadas. A lei eleitoral permite apenas o adiamento em localidades específicas.

Ventura, cujo partido Chega foi criado em 2019 e agora já é a maior sigla de oposição no Parlamento, atacou a resposta às enchentes dada pelo governo minoritário de centro-direita de Montenegro.

Seguro abandonou sua postura de candidato unificador e também criticou o governo.

Sondagens indicam vitória de Seguro

Os dois tiveram apenas um debate eleitoral neste segundo turno, onde Seguro se apresentou como o candidato moderado e enfatizou que Ventura fez a escolha errada porque, segundo ele, “o que realmente quer é ser primeiro-ministro com poderes executivos”, e não tanto um árbitro ou fiscalizador, que é o papel do chefe de Estado em Portugal.

O candidato de ultradireita respondeu acusando-o de não querer fazer nada e de aspirar ser “uma espécie de Rainha da Inglaterra”.

A expectativa é que Seguro, líder nas pesquisas de intenção de voto, tenha uma vitória tranquila.

Pesquisa do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (Cesop) da Universidade Católica Portuguesa publicada na terça-feira pela emissora pública RTP, pela rádio Antena 1 e pelo jornal Público indica que o ex-ministro obteria 67% dos votos, contra 33% de Ventura, se desconsiderados os indecisos e os votos brancos e nulos.

Primeiro turno

Seguro venceu o primeiro turno das eleições, realizado em 18 de janeiro, com 1.755.563 votos (31,11%), seguido por Ventura com 1.327.021 (23,52%).

Atrás deles, ficaram o eurodeputado liberal João Cotrim de Figueiredo, com 16% dos votos; o almirante reformado Henrique Gouveia e Melo, com 12,32%; e o ex-ministro conservador Luís Marques Mendes, apoiado por ambos os partidos do governo de centro-direita, com 11,3%.

A pesquisa do Cesop indica que os eleitores que optaram por outros candidatos no primeiro turno tender a preferir Seguro em vez de Ventura.

O ex-ministro socialista receberia dois terços dos votos daqueles que votaram em Cotrim de Figueiredo (60%), Gouveia e Melo (63%) ou Marques Mendes (69%), todos candidatos de centro-direita, enquanto o candidato da ultradireita herdaria 14%, 16% e 11% dos votos, respectivamente.

Apoio dos candidatos derrotados

Os candidatos derrotados no primeiro turno manifestaram apoio a Seguro, assim como os ex-presidentes portugueses Aníbal Cavaco Silva (2006-2016) e António Ramalho Eanes (1976-1986), este último o primeiro presidente democraticamente eleito de Portugal após a revolução.

Ventura acredita que o apoio a Seguro tanto da esquerda quanto da direita não é tanto um endosso ao seu oponente, mas sim reflexo da rejeição que enfrenta por ser um candidato “antissistema”.

Seguro, por sua vez, atribui o sucesso de sua candidatura até agora à sua imagem de “defensor da democracia”.

md/ra (EFE, AFP)