Portugal, impulsionado por sua Agência Espacial e engenheiros altamente qualificados, ambiciona se tornar um polo espacial europeu. O país planeja inaugurar um porto espacial nos Açores, com o primeiro pouso de espaçonave previsto para 2026, e intensifica a fabricação de satélites, visando estabelecer-se como uma nação espacial relevante.

O que aconteceu

  • Portugal espacial: O país investe na construção de um porto espacial no arquipélago dos Açores, com o primeiro pouso de uma cápsula reutilizável previsto para 2026, visando lançamentos de satélites menores.
  • Indústria satelital: Três novos centros de produção de satélites estão sendo desenvolvidos no Porto, Coimbra e Lisboa, focados em aplicações comerciais, militares e mistas.
  • Democratização do espaço: A iniciativa portuguesa busca se especializar em satélites menores e mais econômicos, oferecendo um complemento estratégico ao porto espacial europeu na Guiana Francesa.

Este projeto ambicioso está alinhado com a modernização de Portugal nas últimas duas décadas, período em que suas universidades formaram engenheiros excepcionais, criando um capital humano robusto para o desenvolvimento. Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa (fundada em 2019), destaca que cerca de duas mil pessoas altamente qualificadas já atuam no setor espacial, distribuídas em aproximadamente 80 empresas que geraram 200 milhões de euros (R$ 1,1 bilhão) em receitas no último ano, com projeção de crescimento.

Portugal mira em autonomia espacial

Um porto espacial português está em construção na ilha de Santa Maria, nos Açores, uma localização estratégica no Atlântico. A expectativa é que a nave de carga europeia Space Rider aterrisse ali em 2028, utilizando uma antiga pista construída durante a Segunda Guerra Mundial e hoje subutilizada. Além disso, está previsto que um foguete lançará um satélite sul-coreano a partir de Santa Maria em 2030, onde diversas antenas de comunicação por satélite já operam, conforme ressalta Ivo Vieira, da AED Cluster Portugal.

Bruno Carvalho, da operadora do porto espacial Atlantic Spaceport Consortium (ASC), esclarece que a iniciativa não visa ser um “Cabo Canaveral” português, mas sim um complemento ao porto espacial europeu de Kourou, na Guiana Francesa. “Seremos um local de lançamento economicamente viável para foguetes menores com satélites menores. E dentro da União Europeia, o que é estrategicamente muito importante”, explica Carvalho. A localização em uma área desabitada no Atlântico também é um fator positivo para espaçonaves reutilizáveis.

A infraestrutura prevista para Santa Maria será relativamente simples e mais barata que concorrentes maiores, priorizando o uso de recursos locais para fortalecer a economia da ilha. Carvalho manifesta otimismo ao sugerir que o projeto poderá inclusive atrair jovens que deixaram o arquipélago de volta para casa.

Açores: A nova porta de entrada para o espaço?

O primeiro pouso na água em território da União Europeia está previsto para o segundo semestre de 2026, nos Açores. Marta Oliveira, cofundadora da empresa alemã Atmos Space Cargo, afirma que as autoridades portuguesas já aprovaram o pouso da cápsula de transporte Phoenix 2.1 no Oceano Atlântico, próximo à ilha de Santa Maria.

O objetivo central da Atmos Space Cargo é lançar satélites ao espaço de forma econômica, utilizando cápsulas espaciais reutilizáveis. Embora atualmente a SpaceX seja a principal operadora, Oliveira revela que a empresa também está em negociações com companhias europeias. O porto espacial da ASC facilitará a logística e a coordenação com as autoridades locais, otimizando as operações.

Para complementar a infraestrutura de lançamento, Portugal também foca na produção de satélites. Ricardo Conde menciona a existência de três centros de fabricação no país: um pelo consórcio CEiiA no Porto, outro pela multinacional Open Cosmos em Coimbra, e um terceiro em Lisboa, focado em cooperação com as Forças Armadas. Estes satélites serão menores, destinados a aplicações comerciais, militares e mistas, como comunicações, observação da Terra e dos oceanos, e combate a incêndios florestais.

Inovação e economia: O impacto da indústria satelital

O consórcio CEiiA, com atuação nos setores automotivo e aeroespacial, é um dos protagonistas nessa área. André Dias, responsável pela divisão de Downstream, explica que a empresa ingressou no setor espacial em 2018 com o objetivo de construir uma indústria de satélites de alta resolução. Para isso, planejam expandir sua capacidade de produção em um novo centro próximo a Guimarães, em parceria com a cidade e sua universidade, visando quadruplicar ou quintuplicar a fabricação.

Atualmente, o CEiiA pode construir quatro satélites civis por ano, com peso de até 500 quilos. O aumento da capacidade permitirá que Portugal atraia mais contratos internacionais, respondendo à crescente demanda. Dias destaca a descentralização como um diferencial, permitindo que países menores, como Portugal, se especializem em satélites de menor custo (20 milhões a 30 milhões de euros), em contraste com os grandes projetos que podem chegar a 500 milhões.

A Agência Espacial Portuguesa mantém planos ambiciosos, projetando ter 30 satélites em órbita até 2030, alguns em cooperação com a Espanha. Conde enfatiza a busca por parceiros internacionais e o foco em iniciativas europeias, incluindo o setor militar, que tem ganhado importância crescente na Europa. Este esforço coletivo visa consolidar Portugal como um ator fundamental na democratização e expansão do acesso ao espaço.

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