30/01/2026 - 8:10
Descontentamento generalizado levou milhões de manifestantes às ruas do país. Crise também foi alimentada em parte por falta d’água e má qualidade do ar – fruto dos erros do regime teocrático, segundo especialistas.Os iranianos sofrem com falta de água e com uma das piores qualidades do ar do mundo, crises ambientais que alimentam as críticas e a raiva contra o regime teocrático do país.
“Se eu tivesse que usar uma palavra, seria má gestão”, diz à DW Hamid Pouran, pesquisador de tecnologia ambiental que estudou no Irã e agora mora no Reino Unido.
A preocupação ambiental mais urgente do país é a pior seca em décadas, agora em seu sexto ano consecutivo. O problema se tornou tão grave que, em novembro, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, disse que não havia escolha a não ser transferir a capital de Teerã para o sul do país, mais perto do Golfo Pérsico, o que não resolveria a crise hídrica em si.
Embora o Irã seja caracterizado por um clima árido, chuvas escassas e terreno montanhoso, pesquisadores ambientais afirmam que seus problemas ecológicos se devem em grande parte à corrupção e a políticas mal orientadas, focadas em ganhos de curto prazo. Essas e outras questões levaram milhares de iranianos às ruas em protestos , reprimidos com um nível de violência sem precedentes nas últimas décadas. O cenário é agravado pelo aquecimento global , que aumenta em dez vezes o risco de seca no Irã.
“As mudanças climáticas exacerbaram os problemas”, acrescenta Pouran. “Ninguém nega isso. Mas a má gestão, mesmo em condições econômicas incertas, é o problema.”
Água insuficiente para agricultura
Quase toda a água do país é destinada à agricultura. Excluído de grande parte do comércio global, o Irã se concentrou em estabelecer a autossuficiência alimentar e, ao longo dos anos, permitiu que os agricultores perfurassem poços nos aquíferos profundos do subsolo.
Como resultado, há quase o dobro de poços no Irã agora do que há duas décadas, e pesquisas sugerem que mais de 300 de seus 609 aquíferos estão em condição crítica. Cerca de 70% da demanda total de água do país existe em áreas onde os aquíferos foram explorados à exaustão.
“Há cerca de dez anos, os poços secaram porque todos os aquíferos estão esgotados, e você tem hectares e hectares e hectares de plantações de pistache que viraram carvão. O sol queimou as árvores”, explica Houchang Chehabi, historiador da Universidade de Boston especializado em política iraniana.
E não são apenas os pistaches que sofrem. O Irã não tem mais os recursos hídricos necessários para sustentar a produção de suas principais culturas: trigo, cevada, arroz e milho.
Quando os aquíferos são explorados em excesso, sem permitir que sejam naturalmente reabastecidos, o solo afunda lentamente. Cerca de 3,5% do Irã sofreu esse afundamento, o que pode causar danos a estradas, edifícios e tubulações.
Também houve uma pressão implacável para construir centenas de barragens em todo o país nas últimas décadas, embora nos últimos 20 anos mais da metade da capacidade total tenha permanecido sem uso. Esses projetos de capital interrompem o fluxo dos rios e aceleram a evaporação dos reservatórios.
“Muitas vezes, essas barragens foram construídas em locais onde não deveriam ter sido construídas”, observa Alex Vatanka, que fundou o programa do Irã no think tank Middle East Institute. “Os estudos de viabilidade não foram feitos e eles causaram danos ecológicos em extensões e proporções que nunca vimos antes.”
“O Estado favoreceu barragens que foram construídas porque havia dinheiro em jogo”, afirma.
Mais de 30 barragens foram construídas no noroeste do Irã em rios que alimentavam o Lago Urmia, outrora o maior lago de água salgada do Oriente Médio. Agora, ele está quase totalmente seco.
Cerca de um terço da população vive agora em áreas com escassez de água. A baixa na produção agrícola fez subir os preços dos alimentos, e os agricultores têm debandado para os centros urbanos, aumentando a pressão sobre os recursos hídricos nas cidades.
A falta de acesso à água já levou os iranianos às ruas no passado. Em 2021, várias pessoas foram mortas e centenas presas como parte da “Revolta dos Sedentos”, e “água, eletricidade, vida — nossos direitos absolutos” tornou-se um grito de guerra nos protestos ao longo do último ano.
Cidades iranianas sufocadas
Quase 80% da população do Irã vive em áreas urbanas, onde o ar é altamente poluído. Dados do governo sugerem que quase 60 mil pessoas morreram como resultado do ar tóxico em 2024. Isso equivale a 161 pessoas por dia.
Escolas e repartições públicas costumam fechar em dias de ar particularmente ruim, e Teerã figura com frequência entre as cidades com a pior qualidade de ar do mundo.
A maior parte da poluição de Teerã vem de veículos que operam com combustível de baixa qualidade e, segundo especialistas, apresentam tecnologia ultrapassada.
“Os fabricantes de automóveis no Irã podem produzir carros melhores em termos de ar mais limpo, mas eles se safam porque o mercado é fechado, não há concorrência estrangeira, então eles podem vender o que bem entenderem”, diz Vatanka.
Além dos carros, a poluição vem do mazut, um subproduto do petróleo extremamente sujo, que o Irã usa para abastecer suas usinas de energia nos meses de inverno.
E a crise hídrica também tem seu papel. À medida que lagos e rios secam, o vento levanta partículas perigosas de poeira e areia dos leitos expostos e as transporta por longas distâncias.
Embora Teerã seja quase cercada por montanhas, que retêm o ar poluído, pesquisadores ambientais afirmam que a má governança é o principal fator que contribui para a poluição.
“Não há nada no ar iraniano que o torne propenso a ser poluído”, afirma Vatanka. “É uma questão de políticas ruins, falta de atenção, isolamento.”
Existem soluções, mas falta implementação
Embora existam soluções que poderiam melhorar os problemas ambientais do Irã, Vatanka vê falta de vontade política para implementá-las. Ele aponta que algumas soluções alternativas não abordam a raiz dos problemas, como o plano do regime de construir um oleoduto para transportar água dessalinizada do Golfo Pérsico para o centro do Irã, a 800 quilômetros de distância.
Especialistas em meio ambiente recomendam que o Irã se concentre em soluções de longo prazo, como a reciclagem de águas residuais.
“O que poderia ser feito é um programa intensivo de gestão de águas residuais para capturar parte das águas residuais de Teerã e depois reutilizá-las”, afirma Chehabi. “Mas, na situação atual, isso exigiria um nível de planejamento, coordenação, entre outras coisas, que simplesmente não existe.”
Os ambientalistas também pedem uma reforma agrícola para abandonar as culturas que consomem muita água e a reparação dos “qanats”, uma antiga tecnologia persa de túneis que canaliza a água dos aquíferos, que estão se desintegrando devido ao bombeamento excessivo.
Oportunidades perdidas
Embora dois terços do Irã recebam luz solar 300 dias por ano, o país gera menos de 4% de sua eletricidade a partir de energia renovável, de acordo com um relatório da Agência Internacional de Energia Renovável de 2022. Isso apesar de seu maior parceiro comercial, a China , ser líder mundial na produção de painéis solares.
Embora o Irã possua a terceira maior reserva de petróleo do mundo, ele frequentemente sofre com apagões e escassez de energia devido ao baixo investimento em sua rede elétrica, infraestrutura antiga e um sistema de clientelismo político.
“As oportunidades são imensas para o Irã, mas enquanto não houver uma visão e uma abordagem séria para o desenvolvimento econômico, oportunidades como a energia solar e eólica serão perdidas”, lamenta Vatanka. “É preciso foco, é preciso visão econômica, e isso não existe neste regime.”