20/01/2026 - 14:33
Desde o começo da nova onda de manifestações, Donald Trump tem oscilado em relação a uma possível ofensiva contra Teerã. Com a situação mudando constantemente, quais são as opções, segundo analistas?Donald Trump tem refletido nas últimas semanas publicamente sobre o que fazer no Irã . Em meio a uma brutal repressão contra manifestantes no país, o presidente americano prometeu “ações muito fortes” , antes de recuar um pouco após alegar ter sido informado por “fontes muito importantes do outro lado” de que “os assassinatos no Irã estão parando”.
Essa imprevisibilidade é uma marca registrada de Trump, mas com um porta-aviões americano a caminho do Oriente Médio, relatos de retirada de militares americanos de bases importantes na região e o fechamento temporário do espaço aéreo iraniano na semana passada, há sinais de que algum tipo de ataque pode ser iminente.
Há uma opção militar viável?
A resposta a essa pergunta depende muito dos objetivos de um ataque, de acordo com o ex-coronel do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA Mark Cancian.
“Nenhum ataque militar pode impedir as autoridades iranianas de matar manifestantes. No entanto, os Estados Unidos poderiam atacar as forças de segurança, provavelmente a Guarda Revolucionária , para punir o Irã e mostrar às forças de segurança a sua vulnerabilidade”, disse Cancian, que agora trabalha no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), um think tank com sede em Washington.
Ashok Swain, chefe do departamento de pesquisa sobre paz e conflitos da Universidade de Uppsala, na Suécia, concorda que qualquer envolvimento militar deve ser “limitado” e cumprir objetivos específicos, como a proteção das tropas americanas ou de seus aliados.
“Isso geralmente aponta para uma postura de dissuasão regional – defesa aérea e antimíssil, proteção naval e linhas vermelhas claras – combinada com ações muito seletivas e claramente atribuíveis quando necessário”, afirmou.
Ambos os especialistas concordaram que o uso de armas como o bombardeiro furtivo B-2 e outros mísseis usados em junho passado na Operação Martelo da Meia-Noite, com o ataque a instalações nucleares iranianas, não faria sentido neste caso.
“Seria possível, mas não é necessário”, disse Cancian. “Mísseis de longo alcance como o Tomahawk seriam eficazes. O B-2 foi usado na Operação Martelo da Meia-Noite porque somente ele podia transportar a bomba especializada para alvos fortificados e profundamente enterrados.”
Swain acrescentou que “ataques desse tipo são eventos de alto risco, politicamente decisivos, difíceis de controlar, fáceis de serem mal interpretados e que provavelmente provocarão represálias contra as forças americanas e seus parceiros na região”.
E as possíveis repercussões?
Naturalmente, estas variariam um pouco de acordo com a forma que o ataque assumisse. Mas o especialista em relações internacionais Mohammad Eslami, do Instituto Universitário Europeu, sediado em Florença, na Itália, recomenda cautela.
“Qualquer ação militar dos EUA provavelmente produziria ganhos estratégicos mínimos, ao mesmo tempo que aumentaria drasticamente a instabilidade regional, exportando insegurança para o Oriente Médio e fortalecendo a determinação do Irã em vez de enfraquecê-la”, disse ele.
Para Swain, qualquer coisa além de ataques direcionados e necessários contra uma potência nuclear com influência no Oriente Médio poderia ser custosa para os EUA. “Qualquer ação mais ampla rapidamente se transforma em escalada, fortalece os radicais e expõe civis às consequências”, disse ele.
Na visão de Cancian, essas missões focadas provavelmente serão a única linha de ação considerada em qualquer caso e atrairiam poucas repercussões sérias. “Os Estados Unidos não lançariam ataques perto dos manifestantes [ou] onde os confrontos estão ocorrendo. Poderiam atacar os quartéis-generais e bases das forças de segurança”, disse ele.
Captura do aiatolá Ali Khamenei?
A captura do líder venezuelano Nicolás Maduro pelas forças americanas no início deste mês foi saudada pelo governo Trump como um grande sucesso estratégico. Mas os especialistas com quem a DW conversou não acreditam que uma tática semelhante seja usada contra o aiatolá Ali Khamenei , líder supremo do Irã desde 1989.
Embora Eslami considere que “o assassinato seja teoricamente possível”, na prática, ele o considera inviável devido à “estrutura interna do Irã, à sua vasta extensão geográfica e à lealdade absoluta da Sepah-e Vali-e Amr [a unidade secreta da Guarda Revolucionária] encarregada de sua proteção”.
Cancian acrescenta que, mesmo na improvável hipótese de uma captura ou assassinato ser possível, o momento não seria agora. “Os Estados Unidos não têm as forças necessárias posicionadas nem as semanas de tempo de preparação. Este também é um alvo mais difícil, mais distante dos Estados Unidos e do ponto de lançamento no Golfo Pérsico”, disse ele.
Quais são as opções não militares?
Dada a escassez de opções militares disponíveis para o governo Trump, pode ser que uma ação menos drástica seja o caminho mais inteligente. Swain disse que várias “opções pouco discutidas” estão disponíveis para os EUA, incluindo “pressão financeira sobre entidades específicas ligadas à repressão, medidas defensivas regionais que reduzam a influência do Irã, como defesa antimíssil e segurança marítima, e diplomacia que utilize incentivos e sanções”.
Ele acrescentou que apoiar a população iraniana de maneiras mais sutis teria um impacto maior do que geralmente se reconhece. “O apoio velado à sociedade civil e ao acesso à informação geralmente também ocorre em segundo plano, mas funciona melhor quando é discreto, constante e credível, e não quando é acompanhado por uma escalada militar que permite a Teerã rotular toda a dissidência como patrocinada por estrangeiros .”
Para Cancian, “restaurar a internet [bloqueada no país desde 8 de janeiro] seria a ação mais útil para os manifestantes. Isso permitiria que eles se conectassem, compartilhassem informações e se concentrassem.”
Por fim, para Eslami, a questão fundamental é se essas são decisões que cabem aos EUA tomar sozinhos. “A única opção sustentável é o retorno ao direito internacional, à diplomacia e às instituições multilaterais. A intervenção unilateral contínua reforça a instabilidade e segue um padrão pós-Segunda Guerra Mundial, no qual o envolvimento militar produz invariavelmente insegurança a longo prazo em vez de ordem”, concluiu.
