03/02/2026 - 17:41
Levantamento sugere que mais de 7 milhões de casos da doença em 2022 eram evitáveis, o que significa que pelo menos 38% foram provocados pelos chamados fatores de risco modificáveis.A afirmação de Isabelle Soerjomataram, especialista em monitoramento do câncer da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), é contundente: “Agora temos as informações necessárias para evitar o câncer antes que ele se desenvolva”.
Em declarações à imprensa na semana passada, Soerjomataram e seu colega Andre Ilbawi apresentaram os resultados de um estudo envolvendo 36 tipos de câncer em 185 países. As análises foram publicadas na revista científica Nature Medicine nesta terça-feira (03/02).
A pesquisa começa com uma estatística tão impressionante quanto a afirmação inicial de Soerjomataram: 7,1 milhões de novos casos de câncer foram associados a fatores de risco modificáveis (FRM) – a exemplo do consumo de tabaco e álcool, bem como infecções. O número representa 37,8% do total de 18,7 milhões de novos casos de câncer registrados em 2022.
A pesquisa sobre os FRM não é nova, já que, há tempos, sabe-se que outros aspectos, como o excesso de peso, a obesidade, a poluição e outras toxinas podem ser cancerígenos. E a alegação de que é possível “evitar o câncer antes que ele apareça” depende também de variados fatores, como a falta de acesso a atendimento médico e a recursos de saúde – o que não é uma garantia em diversas partes do mundo.
Mas detalhes desse mais recente estudo provêm de algumas informações sobre os efeitos dos FRM, que podem variar de acordo com a região e o sexo.
Os autores consideraram 30 fatores de risco, incluindo os supracitados tabaco, álcool e poluição do ar, além da exposição a toxinas como o amianto. Outros aspectos são o índice de massa corporal (IMC) elevado, falta de atividade física, mascar tabaco e noz de areca, algumas práticas de amamentação, e a exposição à radiação ultravioleta.
E, pela primeira vez em um estudo envolvendo FRM, os pesquisadores também incluíram agentes infecciosos como cancerígenos, como hepatite B e papilomavírus humano (HPV).
Cânceres relacionados ao HPV
Em todo o mundo, o HPV é responsável pela maior parcela de cânceres evitáveis em mulheres. Apesar da disponibilidade de vacinas que se mostraram altamente eficazes na proteção contra o câncer cervical, “a hesitação em relação à vacinação é muito grande”, afirma Ilbawi.
“Em países mais ricos, a exemplo da Austrália, o câncer cervical está praticamente erradicado, com uma incidência atual de 5 casos para 100 mil pessoas. Mas quando analisamos a questão na América Latina ou na África Subsaariana, os problemas continuam. O câncer relacionado ao HPV, especialmente o câncer cervical, ainda é muito alto nessas regiões”, lembra Soerjomataram.
Descobertas sobre cânceres evitáveis
A inclusão de agentes infecciosos no estudo revelou novas informações sobre cânceres em mulheres – e também variações em relação aos homens. Os pesquisadores afirmam que esperam que isso ajude a melhorar as medidas de prevenção da doença.
A pesquisa concluiu que as infecções causaram o maior número de cânceres evitáveis entre as mulheres, com um total de 2,7 milhões de casos (29,7%). Entre os homens, foram justamente os FRM, como o tabagismo: 4,3 milhões de casos (45,4%).
Ao analisar detalhadamente os dados sobre câncer de pulmão, que é um dos tipos mais diagnosticados tanto em mulheres quanto em homens (junto com câncer de mama, colorretal e de próstata), descobriu-se que o peso dos FRM é semelhante, mas o efeito é diferente.
Em ambos os sexos, o tabaco, a poluição e a exposição profissional a toxinas foram atribuídos em proporções quase iguais. Os números, entretanto, variam bastante: enquanto houve 1.326.453 casos de câncer de pulmão entre homens, entre as mulheres foram registrados 477.869 casos.
Intervenções orientadas
Com o Observatório Global do Câncer prevendo um aumento de mais de 50% nos casos de câncer até 2045, os pesquisadores escreveram em seu artigo que “essa carga crescente ressalta a necessidade urgente de estratégias de prevenção eficazes”, argumentando que “muitos casos poderiam ser evitados por meio de intervenções orientadas”.
Pouco se fala no estudo sobre os 62,2% dos casos de câncer que não puderam ser atribuídos a FRM.
Mas Suzette Delaloge, especialista em câncer de mama e prevenção do câncer no hospital de pesquisa francês Gustave Roussy, afirma que o estudo representou “uma contribuição fundamental para a definição de uma abordagem global e baseada em dados para a prevenção do câncer”.
Delaloge, que não participou da pesquisa, diz que, embora o estudo tenha destacado como os cânceres são “amplamente moldados por determinantes geográficas, sociais, econômicas e culturais, […] ações individuais continuam sendo essenciais para mitigar seus efeitos profundos”.
Os próprios pesquisadores afirmaram que as futuras medidas de prevenção contra o câncer terão que abordar cada vez mais diferentes efeitos em mulheres e homens, bem como responder aos distintos contextos sociais e econômicos entre países e regiões.