Pequim se diz “profundamente chocada” com ataque do governo Trump à Venezuela, um de seus maiores parceiros na América Latina. Chineses, porém, podem encontrar maneiras de usar captura de Maduro para seus próprios fins.Horas depois da controversa captura do líder venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos neste fim de semana, o Ministério das Relações Exteriores da China declarou que Pequim estava “profundamente chocada” com o “uso flagrante da força contra um Estado soberano”.

A nação asiática também fez um apelo aos países da América Latina e do Caribe, chamando-os de “bons amigos e bons parceiros” e assegurando que Pequim estava disposta a trabalhar com eles e “navegar pelo cenário internacional em transformação com solidariedade e coordenação”.

Ao mesmo tempo em que criticavam os Estados Unidos pelo ataque à Venezuela, diplomatas chineses também buscaram retratar seu próprio país como uma potência global responsável.

Essas declarações provavelmente terão forte repercussão na América Latina. Com o presidente dos EUA, Donald Trump, revivendo a Doutrina Monroe – postura de política externa articulada há mais de 200 anos sobre a supremacia de Washington no Hemisfério Ocidental – a captura de Maduro é vista como um alerta e uma demonstração do poder dos EUA na região.

William Yang, analista sênior para o Nordeste Asiático do think tank International Crisis Group, afirmou que Pequim provavelmente explorará essas preocupações para desafiar a posição internacional dos EUA e “aprofundar ainda mais sua influência entre os países do Sul Global”.

A China também “monitorará de perto como os EUA lidarão com a situação na Venezuela nas próximas semanas e meses”, acrescentou Yang.

Ruptura de laços com Caracas

A rápida prisão de Maduro por Trump, líder de um importante aliado da China na América Latina, pode impactar significativamente a segunda maior economia do mundo.

Sob o governo Maduro, a China formou uma parceria estratégica com a Venezuela e se tornou a maior compradora de petróleo do país após a escalada das sanções americanas em 2019.

A China também vendeu armas para a Venezuela – com entregas no valor de 615 milhões de dólares (R$ 3,3 bilhões) apenas entre 2009 e 2019, segundo estimativa dos EUA. Talvez o mais significativo para a China seja o fato de seus representantes terem concedido bilhões em crédito à Venezuela, e Caracas está longe de quitar sua dívida.

O think tank AidData, com sede nos EUA, estima o total de empréstimos chineses à Venezuela em 105,5 bilhões de dólares, incluindo entre 17 bilhões a 19 bilhões de dólares em saldo devedor do programa de empréstimos em troca de petróleo do Banco de Desenvolvimento da China.

Horas antes de sua captura no sábado, Maduro recebeu uma delegação chinesa, no que descreveu como uma “reunião agradável”, para reafirmar a parceria política e econômica entre os dois países.

Mas a mídia americana noticiou que o governo Trump insiste que o governo interino da Venezuela deve romper relações econômicas com China, Rússia, Irã e Cuba. Nas redes sociais, Trump afirmou que a Venezuela entregaria entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos.

A China condenou a medida como uma violação do direito internacional.

“O uso descarado da força pelos Estados Unidos contra a Venezuela e sua exigência de ‘América Primeiro’ quando a Venezuela se desfaz de seus próprios recursos petrolíferos são atos típicos de intimidação”, declarou o porta-voz do Ministério de Exterior da China, Mao Ning, em uma coletiva de imprensa.

Indignação chinesa permanece simbólica

No entanto, analistas alertaram que a retórica chinesa deve ser encarada com cautela.

“A China não dá a mínima para o direito internacional”, disse Elizabeth Freund Larus, pesquisadora sênior adjunta do think tank Pacific Forum, apontando para a assertividade militar chinesa no Mar da China Meridional e sua relutância em condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia.

“Podemos interpretar o alerta da China a Washington como ‘Pequim precisa do seu dinheiro de volta!’ e ‘Exigimos que os EUA continuem fornecendo petróleo venezuelano para a China!'”, acrescentou Larus.

Além disso, apesar da linguagem firme de Pequim, a China ainda não tomou nenhuma medida em retaliação ao ataque dos EUA à Venezuela. “É improvável que Pequim vá além de expressões simbólicas de desaprovação”, disse Ryan Hass, diretor do Centro John L. Thornton para a China na Brookings Institution, em Washington.

Hass também afirmou não esperar que o incidente altere significativamente a trajetória das relações entre EUA e China. “As ações dos Estados Unidos na Venezuela só afetarão a relação entre EUA e China se fizerem com que os Estados Unidos se distraiam e se atrapalhem e acabem entrando em uma situação complicada na Venezuela”, disse ele.

China usará Venezuela como modelo para Taiwan?

Durante o fim de semana, as redes sociais chinesas acompanharam de perto a captura do líder venezuelano por Trump, com internautas nacionalistas afirmando que a operação ofereceu à China uma maneira de lidar com as tensões com Taiwan.

Pequim reivindica Taiwan, uma democracia autogovernada, como seu próprio território, e prometeu tomar a ilha pela força, se necessário.

Questionado sobre as especulações a respeito de Taiwan na segunda-feira, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, reiterou a posição padrão de Pequim de que a controvérsia em torno de Taiwan é “um assunto interno” e que “nenhuma força externa está em posição de interferir”.

Mas analistas afirmam que as situações na Venezuela e em Taiwan são dificilmente comparáveis ​​e que os cálculos de Pequim provavelmente não mudarão devido à prisão de Maduro pelos EUA.

“A Venezuela é um Estado devastado, governado por um líder autoritário. Taiwan é uma democracia vibrante”, disse Hass. “A China não conseguiria atingir seus objetivos em relação a Taiwan simplesmente capturando o líder eleito de Taiwan.”

Elizabeth Freund Larus, do Pacific Forum, afirmou que Pequim “pretende tomar Taiwan há muito tempo e continuará pretendendo muito depois disso”.

“A China ainda não o fez porque o sucesso ainda não está garantido. Esse dia está se aproximando, independentemente de Trump.”