04/01/2026 - 13:28
Vice-presidente assume como interina, e membros do alto escalão do governo continua nas funções, enquanto EUA ignoram oposição. Em meio ao caos, venezuelanos tentam entender quem comanda.Os venezuelanos ainda tentam entender quem está no comando do país, um dia após a captura do presidente Nicolás Maduro pelas Forças Armadas dos EUA.
A investida americana na Venezuela neste sábado (03/01) destituiu o líder que havia sobrevivido a uma tentativa de golpe fracassada, vários motins no Exército, protestos em massa e sanções econômicas no país de 29 milhões de habitantes.
Em Caracas, a sensação de insegurança esvaziou rapidamente as ruas, exceto pelas longas filas que se formavam em locais como supermercados e postos de gasolina. No domingo, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, orientou a população a retomar as “atividades de todos os tipos”, afirmando que o Exército está mobilizado ao redor do país.
Após a ação militar, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que seu país assumiria o controle da Venezuela, possivelmente em coordenação com assessores mais confiáveis de Maduro.
Delcy Rodríguez empossada pelo Supremo
Delcy Rodríguez, a primeira pessoa na linha de sucessão, atuou como vice-presidente de Maduro desde 2018, supervisionando grande parte da economia venezuelana dependente do petróleo, bem como seu temido serviço de inteligência.
O Supremo Tribunal da Venezuela ordenou no sábado que ela assumisse o cargo de presidente interina, e as forças militares a reconheceram no posto.
“Ela está essencialmente disposta a fazer o que consideramos necessário para tornar a Venezuela grande novamente”, disse Trump a repórteres sobre Rodríguez, que enfrentou sanções dos EUA durante o primeiro governo Trump por seu papel em minar a democracia venezuelana.
Segundo afirmou Trump, a líder da oposição, María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz no ano passado, não tem apoio suficiente para governar o país. A declaração foi vista por muitos como um gesto de desprezo à oposicionista.
Trump disse que Rodríguez teve uma longa conversa com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, na qual ela disse que faria “o que for preciso” pelo país. “Não podemos correr o risco de que alguém assuma a Venezuela sem ter o bem do povo venezuelano em mente”, disse o presidente americano.
Já neste domingo, Rubio chamou de “prematura” a discussão sobre novas eleições na Venezuela. Segundo ele, o foco agora está nos “problemas que tínhamos quando Maduro estava lá”.
Altos funcionários mantidos em seus cargos
Os funcionários do alto escalão do governo venezuelano aparentemente sobreviveram à operação militar americana e mantiveram seus cargos, pelo menos por enquanto. Não havia ainda nenhum sinal imediato de que os EUA estivessem governando a Venezuela.
Delcy Rodríguez tentou projetar força e unidade entre as muitas facções do partido governista, minimizando qualquer indício de traição ao regime chavista.
Em declarações na televisão estatal antes da decisão judicial que a levou à Presidência interina, ela exigiu a libertação imediata de Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e denunciou a operação dos EUA como uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas.
“Só existe um presidente neste país, e seu nome é Nicolás Maduro”, disse Rodríguez, cercada por altos funcionários civis e comandantes militares.
No intuito de acalmar a população, autoridades militares venezuelanas divulgaram mensagens de vídeo em tons desafiadores, com duras críticas a Trump e promessas de resistir à pressão dos EUA.
“Eles nos atacaram, mas não nos derrotarão”, disse o Ministro da Defesa, o general Vladimir Padrino López, em uniforme militar.
O ministro do Interior, Diosdado Cabello, um dos principais executores de Maduro, instou os venezuelanos a “saírem às ruas” para defender a soberania do país. “Esses ratos atacaram e vão se arrepender do que fizeram”, afirmou.
Alguns atenderam ao apelo e compareceram a manifestações em apoio ao governo dispersas por Caracas neste sábado. No entanto, a maioria das pessoas permaneceu em suas casas.
Nenhum sinal de transição política
Trump indicou que Rodríguez havia tomado posse como presidente da Venezuela, conforme a transferência de poder prevista na Constituição do país sul-americano.
No entanto, televisão estatal não transmitiu nenhuma cerimônia de posse. Uma legenda na parte inferior da tela durante a transmissão de um discurso ainda identificava Rodríguez como vice-presidente.
Ela também não deu nenhum sinal de que cooperaria com os EUA e não respondeu imediatamente a pedidos de comentário.
“O que está sendo feito com a Venezuela é uma atrocidade que viola o direito internacional”, disse Rodríguez em seu discurso. “A história e a justiça farão com que os extremistas que promoveram essa agressão armada paguem [por seus atos].”
A Constituição venezuelana prevê que uma nova eleição deve ser convocada dentro de um mês em caso de ausência do presidente. Mas especialistas têm debatido se o cenário de sucessão se aplicaria nesse caso, dada a falta de legitimidade popular do governo e a excepcionalidade da intervenção militar dos EUA.
Fortes laços com Wall Street
Advogada formada no Reino Unido e na França, Rodríguez tem uma longa trajetória representando internacionalmente a revolução iniciada pelo falecido líder Hugo Chávez.
Ela e seu irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional controlada por Maduro, possuem credenciais de esquerda impecáveis cujas origens remetem a uma tragédia. Seu pai foi um líder socialista que morreu sob custódia da polícia na década de 1970; um crime que abalou muitos ativistas da época, incluindo o jovem Maduro.
Ao contrário de muitos no círculo íntimo de Maduro, os irmãos Rodríguez não foram alvos de acusações criminais nos EUA.
Delcy Rodríguez desenvolveu fortes laços com membros do Partido Republicano de Trump na indústria petrolífera e em Wall Street que se opunham à ideia de uma mudança de regime liderada pelos EUA.
Entre seus interlocutores anteriores estavam Erik Prince, fundador da empresa militar privada Blackwater, e, mais recentemente, Richard Grenell, o enviado especial de Trump que tentou negociar um acordo com Maduro para aumentar a influência dos EUA na Venezuela.
Tensões internas podem explodir
Fluente em inglês, Rodríguez é às vezes retratada como uma moderada bem-educada e favorável ao mercado, em contraste com os militares linha-dura que pegaram em armas ao lado de Chávez contra o presidente democraticamente eleito da Venezuela na década de 1990.
Muitos deles, especialmente o ministro do Interior, Diosdado Cabello, são procurados nos EUA por acusações de tráfico de drogas e de graves violações dos direitos humanos. Eles, no entanto, continuam a exercer influência sobre as Forças Armadas, o tradicional árbitro das disputas políticas na Venezuela.
Esse quadro impõe grandes desafios para que Rodríguez possa afirmar sua autoridade. Alguns analistas, porém, disseram esperar que os líderes políticos da Venezuela se unam, como já fizeram antes.
“Os líderes já perceberam o valor de permanecerem unidos. Cabello sempre ocupou um segundo ou terceiro lugar, sabendo que seu destino está ligado ao de Maduro, e agora ele pode muito bem fazer isso novamente”, disse David Smilde, professor de sociologia da Universidade de Tulane, que há três décadas estuda a dinâmica política da Venezuela.
Muito dependerá do estado das Forças Armadas da Venezuela após o bombardeio americano, acrescentou Smilde. “Se elas não tiverem mais tanto poder de fogo, ficarão mais vulneráveis e enfraquecidas.”
EUA ignoram oposição
Logo após intervenção americana na Venezuela, María Corina Machado defendeu que Edmundo González Urrutia, o candidato da oposição considerado o vencedor das contestadas eleições de 2024, “assuma imediatamente seu mandato constitucional e seja reconhecido como comandante-em-chefe”.
Em declaração divulgada nas redes sociais, Machado prometeu que seu movimento “restabeleceria a ordem, libertaria os presos políticos, construiria um país excepcional e traria nossos filhos de volta para casa”. “Hoje estamos preparados para exercer nosso mandato e tomar o poder”, acrescentou.
Trump, porém, pareceu jogar um balde de água fria nesses planos. “Acho que seria muito difícil para [Machado] ser a líder”, afirmou, surpreendendo muitos venezuelanos que esperavam que ele anunciasse uma rápida transição democrática.
“Ela não tem o apoio ou o respeito dentro do país”, disse o americano.
rc/ht (AP, AFP, ots)
