04/03/2026 - 13:55
Político parece ter assumido o comando após a morte do aiatolá Khamenei e outros líderes nos ataques de EUA e Israel. Oriundo de uma família poderosa, ele nunca foi totalmente aceito pela linha-dura iraniana.O ataque aéreo à residência do aiatolá Ali Khamenei em Teerã – um dos primeiros da atual guerra dos EUA e Israel contra o Irã – resultou na morte do líder supremo de 86 anos, juntamente com grande parte da estrutura de comando iraniana.
Até o momento, o regime não decidiu quem será seu próximo líder.
Esse vácuo de poder parece estar sendo preenchido por Ali Larijani, o principal oficial de segurança nacional do Irã, considerado uma das poucas pessoas em quem Khamenei confiava para garantir a sobrevivência do regime em caso de morte do aiatolá.
Cerca de 24 horas após o ataque em Teerã, Larijani foi à televisão nacional e às redes sociais para denunciar os EUA e Israel por incendiarem “o coração da nação iraniana”.
“Vamos queimar seus corações”, disse ele. “Faremos com que os criminosos sionistas e os desavergonhados americanos se arrependam de seus atos.”
Embora comentários inflamados como esses não sejam exatamente incomuns para Larijani, ele também construiu uma reputação internacional como pragmático.
Durante sua longa carreira política, ele se consolidou tanto como um influente articulador político dentro do regime quanto como um negociador competente com a Rússia, a China e até mesmo os EUA.
Mas, com os EUA e o Irã em guerra declarada, Larijani, de 67 anos, rejeitou categoricamente as declarações do presidente Donald Trump à revista The Atlantic, no domingo, de que os líderes iranianos “querem conversar” e que as negociações acontecerão.
“Não negociaremos com os Estados Unidos”, respondeu Larijani em postagem no X.
Os “Kennedys do Irã”
A nova posição de Larijani no topo da hierarquia iraniana é um tanto inesperada, considerando que ele não tem chance de suceder formalmente Ali Khamenei. Tanto o aiatolá morto quanto seu antecessor, Ruhollah Khomeini, eram clérigos de alto escalão no islamismo xiita, nomeados como líderes supremos da teocracia estabelecida após a Revolução Islâmica de 1979.
Larijani, nascido no Iraque, não é clérigo. Ele, porém, faz parte de uma família com profundos laços religiosos e políticos dentro do regime, certa vez descrita pela revista Time como os “Kennedys do Irã”.
O pai de Larijani era um grande aiatolá. O irmão de Ali Larijani, Sadeq Ardeshir Larijani, também alcançou o posto de aiatolá enquanto construía uma carreira política, chegando a chefiar o judiciário iraniano entre 2009 e 2019. Outro irmão, Mohammad-Javad Larijani, é uma figura importante na política externa, tendo atuado como conselheiro do falecido aiatolá Khamenei. Mesmo antes da morte do aiatolá, havia rumores de que o clã Larijani tentaria posicionar um de seus membros como o próximo líder supremo.
Seu sogro, o falecido Morteza Motahhari, também era amigo próximo de Ruhollah Khomeini e foi seu auxiliar durante a revolução de 1979.
Ali Larijani, no entanto, consolidou oficialmente seu poder por meio do sistema político iraniano.
Nascido em 1958, ele ingressou na Guarda Revolucionária Islâmica em 1981 e serviu como comandante durante os primeiros anos da guerra Irã-Iraque. Ele frequentou um seminário religioso, mas depois obteve um diploma em ciência da computação e matemática, seguido de um mestrado e um doutorado em filosofia ocidental pela Universidade de Teerã. O foco acadêmico de Larijani, incluindo sua tese de doutorado de 1995, foi o filósofo alemão Immanuel Kant.
Afastado por Ahmadinejad
Enquanto buscava sua formação em filosofia, Larijani também usou sua experiência militar e suas conexões familiares para construir uma carreira política, eventualmente se tornando ministro da Cultura do Irã antes de completar 40 anos.
Em 1994, o aiatolá Khamenei nomeou Larijani como o novo chefe da emissora estatal iraniana, onde permaneceu pela década seguinte. Larijani notavelmente utilizou a emissora como uma ferramenta de propaganda pró-governo, supervisionando programas como Hoviat (“Identidade”), que rotulava publicamente os intelectuais anti-regime do Irã como traidores financiados pelo Ocidente.
Larijani concorreu pela primeira vez à Presidência em 2005, mas recebeu menos de 6% dos votos no primeiro turno e nunca chegou ao segundo turno, com a eleição sendo vencida pelo linha-dura Mahmoud Ahmadinejad.
Em vez disso, Larijani tornou-se secretário-geral do Conselho Supremo de Segurança Nacional (SNSC) do Irã e principal negociador nuclear do país. Ele deixou o cargo em 2007 devido a aparentes divergências com Ahmadinejad.
Enfrentando os parceiros e inimigos de Teerã
Os confrontos com os linha-dura extremistas do Irã continuaram a afetar a carreira política de Larijani. Mesmo assim, ele conseguiu garantir uma posição como presidente do Parlamento em 2008 e mantê-la pelos 12 anos seguintes.
Durante esse período, Larijani desempenhou um papel fundamental na obtenção de apoio legislativo para o acordo nuclear de 2015 entre o Irã e seis potências mundiais — incluindo os EUA, a China, a Rússia, a Alemanha, o Reino Unido e a França — que visava limitar o programa nuclear iraniano em troca do alívio das sanções.
O acordo, o entanto, foi anulado por Trump durante seu primeiro mandato, em 2018.
Em 2020, Larijani foi encarregado de supervisionar um acordo estratégico de cooperação de 25 anos com a China, que foi finalizado no ano seguinte.
Impedido de concorrer em 2021 e 2024
Em alta após o acordo com a China, que previa 400 bilhões de dólares (R$ 2 trilhões) em investimentos chineses no setor energético iraniano, Larijani tentou se candidatar novamente à Presidência em 2021.
Inesperadamente, ele foi impedido de concorrer pelo Conselho dos Guardiães do Irã. O órgão – que inclui seis clérigos islâmicos nomeados pelo aiatolá e seis advogados aprovados pelo Parlamento – não apresentou justificativas para sua decisão. Alguns especularam que Larijani foi excluído porque sua filha supostamente mora nos EUA e possui passaporte britânico, enquanto outros acreditam que isso foi feito para abrir caminho para o candidato preferido do regime, Ebrahim Raisi.
O aiatolá Sadiq Larijani reclamou publicamente que seu irmão havia sido desqualificado “com base em informações falsas do serviço secreto” e que “falsidades” foram deliberadamente espalhadas entre os membros do Conselho dos Guardiães.
O principal motivo para a desqualificação de Larijani foi que ele “criticou abertamente Raisi e membros da Guarda Revolucionária” e aparentemente nunca atacou figuras da oposição como Mehdi Karroubi e Mir Hossein Mousavi, que foram colocados em prisão domiciliar em 2010, disse o analista iraniano Ali Afshar à DW na época.
Ebrahim Raisi se tornou presidente, mas acabaria morrendo em um acidente de helicóptero em 2024.
Larijani então tentou se candidatar novamente à Presidência e foi mais uma vez impedido de concorrer à eleição, que acabou sendo vencida pelo moderado Masoud Pezeshkian.
O homem de Khamenei em Moscou
No verão passado, Pezeshkian reconduziu Larijani ao seu antigo cargo como chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional, fazendo dele o principal oficial de segurança do Irã após a guerra de 12 dias com Israel. Nos meses seguintes, a autoridade de Larijani e seu acesso a Khamenei pareceram ter ofuscado o próprio Pezeshkian.
Larijani era visto como a força motriz por trás da retomada das negociações nucleares entre os EUA e o Irã. Ele também viajou repetidamente a Moscou, atuando como o enviado de Khamenei junto ao presidente russo, Vladimir Putin – forte aliado do regime em Teerã – presumivelmente com a ajuda do embaixador iraniano Kazem Jalali, que também é um assessor próximo de Larijani.
Em entrevista à emissora Al Jazeera poucos dias antes do ataque EUA-Israel, Larijani disse que o Irã usou os últimos meses para se “preparar” para a guerra.
“Encontramos nossas fraquezas e as corrigimos”, disse ele. “Não estamos buscando a guerra e não a iniciaremos. Mas, se nos forçarem a isso, responderemos.”
