06/01/2026 - 12:53
Advogada de 56 anos é filha de mártir da esquerda venezuelana, foi alçada a cargos no governo por Hugo Chávez e mantida no alto escalão por Nicolás Maduro, atuando de ministra a chefe do gabinete presidencial.Delcy Eloina Rodríguez Gomez , conhecida pelos venezuelanos simplesmente como Delcy, foi questionada certa vez sobre por que decidiu estudar direito na Universidade Central da Venezuela após terminar o ensino médio.
“Tomei essa decisão para fazer justiça ao meu pai”, respondeu.
De certa forma, a advogada de 56 anos, linha-dura na política e “tigresa”, como Nicolas Maduro uma vez a chamou com admiração, teve sucesso: a filha do ex-guerrilheiro marxista Jorge Antonio Rodríguez é agora a presidente interina da Venezuela e, portanto, a pessoa mais poderosa do país.
Seu pai foi o mentor por trás do sequestro do empresário americano William Niehous. Após ser preso em 1976, Jorge Antonio Rodríguez foi torturado até a morte pela Direção de Serviços de Inteligência e Prevenção (Disip), o serviço secreto venezuelano. Delcy tinha sete anos na época.
A morte de seu pai chocou a população. Ele se tornou um mártir para a esquerda e, mais tarde, inspirou o presidente Hugo Chávez . Delcy e seu irmão Jorge, agora presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, afirmaram repetidamente que sua rápida ascensão também foi motivada por uma “vingança pessoal” pelo pai.
Chávez abriu o caminho, Maduro a levou ao topo
A carreira exemplar de Delcy Rodríguez a levou primeiro à França e ao Reino Unido, onde se especializou em direito trabalhista. Em seu país natal, um homem decidiu virar a política venezuelana de cabeça para baixo: Hugo Chávez, um ex-tenente-coronel, venceu as eleições presidenciais de 1998 e disseminou a ideia de um “socialismo do século 21” mais justo.
Chávez apreciava a jovem, que subiu na carreira sob sua liderança: diretora de assuntos internacionais no Ministério de Energia e Mineração, depois vice-ministra para as relações com a Europa e, finalmente, chefe do gabinete presidencial.
Chávez morreu de câncer em 2013, mas seu sucessor, Nicolás Maduro, também reconheceu o valor de Delcy Rodríguez. Ela inicialmente foi ministra da Comunicação e Informação. Em 2014, Maduro a nomeou a primeira mulher ministra das Relações Exteriores da Venezuela, que encarnou a voz dos ataques contra os Estados Unidos.
Dois anos depois, ela protagonizou um grande escândalo na capital argentina, Buenos Aires: embora a Venezuela esteja suspensa do Mercosul , ela tentou acessar a cúpula do bloco sem ser convidada.
Mas esse desgaste não chegou a prejudicar sua carreira. Em 2017, ela se tornou presidente da Assembleia Constituinte. Nessa função, retirou os poderes do Parlamento eleito, consolidou o poder de Maduro e abriu caminho para um sistema autoritário. Um ano depois, se tornou vice-presidente e, desde 2020, também é ministra da Economia, Finanças e Petróleo, além de diretora do Banco Central da Venezuela.
Em 2020, ainda ganhou as manchetes internacionais com um escândalo conhecido como “Delcygate”.
“Delcygate” ― entrada ilegal em Madri
Em janeiro de 2020, Rodríguez pousou no aeroporto de Madri em um avião particular para se reunir com o então ministro dos Transportes espanhol, José Luis Abalos, por algumas horas ― mesmo sendo uma das 25 pessoas do regime de Maduro proibidas de entrar no espaço Schengen pela União Europeia por violações dos direitos humanos e pelo desmantelamento da democracia na Venezuela.
Esse é um padrão recorrente na vida de Rodríguez, que também fica evidente nos dias de hoje: ela não deixa nada nem ninguém impedi-la, mesmo que tenha que simplesmente ignorar as regras do jogo.
Isso se encaixa na especulação que começou em outubro de 2025 com um artigo no Miami Herald: de acordo com a reportagem, Delcy Rodríguez, juntamente com seu irmão Jorge e influentes autoridades venezuelanas, teria proposto aos EUA que ela liderasse um governo de transição sem Maduro, a fim de garantir a estabilidade política do país. Delcy sempre negou as alegações, descrevendo-as como mentiras e desinformação.
“Lutar até a vitória”
Há quase exatamente meio século, em 28 de julho de 1976, Jorge Antonio Rodríguez foi enterrado no cemitério General del Sur, em Caracas.
Seus companheiros gritaram diante do túmulo: “O socialismo será alcançado através da luta, através da luta até a vitória, porque o povo organizado tomará o poder!”
Seja o que for que reste da ideia socialista na Venezuela, 50 anos depois, é sua filha quem agora tomou o poder no país.