Líder supremo vai suceder o pai, morto em ataques dos EUA e de Israel. Ele também será o responsável máximo pelo xiismo, corrente minoritária do Islã, mas que é maioria na república persa.O Irã anunciou, neste domingo (08/03), Mojtaba Khamenei como seu novo líder supremo. A sua missão será suceder o próprio pai, o aiatolá Ali Khamenei, morto na operação militar de Estados Unidos e Israel que, há nove dias, deu início a uma guerra no Oriente Médio.

Com o regime dos aiatolás sob ataque, a própria sobrevivência da teocracia persa se vê sob risco. Após a morte de Khamenei, um conselho interino foi formado para assumir as suas funções até que um novo líder supremo fosse eleito.

A escolha dessa figura, que carrega não só grande poder político, como também simbolismo religioso, cabe à Assembleia de Peritos, um órgão composto por 88 clérigos, eleitos a cada oito anos e, em grande parte, idosos.

O governo iraniano rejeitou veementemente que o presidente dos EUA, Donald Trump, pudesse influenciar a decisão, tal como o próprio indicara após a morte de Khamenei. Segundo o americano, um novo líder, que já é sancionado pelos EUA, não deverá “durar muito” sem a sua aprovação.

Quem é o novo líder supremo

Mojtaba Khamenei não será apenas o líder político, mas também o responsável máximo do xiismo, corrente minoritária no islamismo, mas com maioria no Irã e grande presença em países como Iraque, Síria ou Líbano.

Nascido em Mashhad dez anos antes da Revolução Islâmica (1979), Mojtaba já era tido como forte candidato ao mais alto cargo de poder do regime xiita conservador de Teerã, apesar de nunca ter desempenhado funções no governo, sendo uma figura descrita como um “especialista” nos bastidores.

Com a subida Ruhollah Musavi Khomeini ao topo da hierarquia do atual regime teocrático, após a deposição de Reza Pahlavi, em 1979, a família de Khamenei mudou-se para a capital iraniana.

Khamenei combateu na Guerra Irã-Iraque, na década de 1980, integrado no batalhão Habib ibn Mazahir, uma divisão da Guarda Revolucionária da qual muitos membros sairam para funções nos serviços secretos e de informações.

Documentos do governo americano publicados pelo Wikileaks descrevem o agora eleito aiatolá como “o poder atrás da cortina”, alegando que o próprio teria colocado o telefone do pai sob escuta e formado uma base autônoma de apoio nos corredores do poder do país.

Washington sancionou o novo líder supremo iraniano em 2019, no primeiro mandato do presidente dos EUA, Donald Trump, sob a acusação de que Mojtaba promovia “ambições regionais desestabilizadoras” e “opressão interna”.

Foi também acusado de ter apoiado a eleição do presidente de ‘linha-dura’ Mahmoud Ahmadinejad, ainda em 2005, e a sua contestada reeleição de 2009, que desencadeou os protestos do “Movimento Verde”.

Khamenei perdeu a mãe Mansoureh Khojasteh Bagherzadeh, um filho e a mulher, Zahra Adel, nos ataques que mataram seu pai, em 28 de fevereiro.

Autoridade política e militar

O sistema teocrático do Irã remonta à Revolução de 1979, que derrubou o Xá. O aiatolá Ruhollah Khomeini introduziu, então, um novo sistema de governo, pelo qual o poder na Terra deve ser exercido por um clérigo venerável.

Por isso, o líder supremo, autoridade máxima estabelecida pela Constituição, responsável por orientar o presidente e o Parlamento eleitos, deve ser um alto clérigo.

O presidente e o Parlamento, eleitos pelos iranianos para mandatos de quatro anos, conduzem a política cotidiana, dentro dos limites permitidos pelo líder supremo. Nos primeiros anos da República Islâmica, as eleições atraíam participação em massa. Mas bem menos iranianos ainda têm fé na política eleitoral.

Sob Khomeini, que morreu em 1989, e Khamenei, que governou desde então, o líder supremo teve a última palavra em todos os assuntos de Estado.

Mojtaba precisará, portanto, afirmar sua autoridade em um momento de enorme ruptura para a história do Irã.

Khamenei nunca nomeou publicamente um sucessor preferido, deixando, na prática, a decisão nas mãos das figuras mais sêniores da República Islâmica, que detiveram poder sob a sua autoridade por muitos anos.

A figura mais importante entre esses veteranos é o conselheiro de longa data de Khamenei, Ali Larijani, amplamente visto como o principal articulador de poder do Irã.

fcl/ht (Reuters, AFP, Lusa)