10/02/2026 - 12:16
Setor de defesa é dominado por EUA e Rússia, que juntos respondem por mais da metade das armas vendidas ao mundo. UE quer mais autonomia, mas enfrenta desafios.Quando os líderes mundiais se reunirem na Conferência de Segurança de Munique de 2026, que começa nesta sexta-feira (13/02), os temas interligados da política de segurança transatlântica e da defesa da União Europeia (UE) estarão no topo da agenda.
Ao longo do último ano, a UE avançou em direção ao objetivo de estabelecer uma estratégia de defesa mais autossuficiente e criar uma indústria de defesa própria, mais forte e independente. A conduta do governo do presidente americano Donald Trump em assuntos geopolíticos – desde as negociações de cessar-fogo entre a Rússia e a Ucrânia até as tensões em torno da Groenlândia – reforçou o senso de urgência do bloco.
Os líderes europeus não chegaram a afirmar isso oficialmente, mas uma UE mais independente implica uma UE menos dependente dos Estados Unidos.
A DW analisou dados sobre o comércio global de armas coletados pelo Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri), que desde 1950 monitora os gastos militares e o comércio daquilo que define como “armas convencionais principais”, como aeronaves, sistemas de defesa aérea, veículos blindados, artilharia, navios, satélites e sensores.
A análise revela até que ponto os Estados Unidos dominam o mercado de defesa – na Europa e em todo o mundo.
Cinco países respondem pela maioria das exportações
Os Estados Unidos são o maior exportador de armas do mundo há mais de duas décadas, respondendo por 35% das vendas globais de armas, seguidos por Rússia (21%), França (8%), Alemanha (7%) e China (5%). Juntos, esses cinco países forneceram 74% de todas as armas comercializadas entre 2000 e 2024.
Ao mudar o foco para os importadores de armas, é possível notar o domínio dos cinco maiores fornecedores em cada região, embora os dados de importação capturem apenas uma parte da dependência de um país em relação aos fornecedores de equipamentos de defesa.
Por exemplo, os dados de importação não revelam quanto um país gasta em sistemas de defesa no geral, e quanto desse total é destinado à importação de armas do exterior. Isso permitiria entender o quanto um país é realmente dependente do fornecimento de armas estrangeiras. No entanto, não existem atualmente dados suficientemente confiáveis e precisos para fazer essa análise em nível internacional.
Analistas do think tank Bruegel e do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) também apontam que os produtos de defesa fabricados na Europa por meio de joint ventures com fabricantes americanos não estariam representados nos dados de exportação e importação.
A indústria de defesa abrange mais do que bens físicos, como armas, incluindo inteligência compartilhada, vigilância e pessoal para estruturas de controle e comando em organizações multilaterais. Além do hardware, os produtos de defesa incluem software e atualizações que tornam os governos dependentes dos fabricantes por anos após a compra inicial.
Os dados sobre o comércio de armas provavelmente subestimam o quão profundamente interdependentes são os setores de defesa de diferentes países. Ainda assim, os dados sobre o comércio de armas podem oferecer informações sobre a relação entre importadores e exportadores.
Além da Europa, quem importa mais armas dos EUA?
Embora os países da Oceania sejam os que proporcionalmente mais compram armas americanas, o volume total de importação é comparativamente baixo. Os países europeus e asiáticos, por outro lado, têm volumes de importação bastante elevados e uma grande parte das armas que importam vem dos Estados Unidos.
De 2000 a 2024, 46% das armas importadas para a Europa vieram dos EUA. No mesmo período, os países asiáticos adquiriram 35% de suas armas dos Estados Unidos. Essas porcentagens foram ainda maiores entre 2020 e 2024, o que demonstra como os americanos se tornaram um parceiro comercial de armas ainda mais importante para esses países.
“Não há como mudar a dependência dos EUA no curto prazo”, dz Aylin Matle, cientista política e pesquisadora sênior do Centro de Segurança e Defesa do Conselho Alemão de Relações Exteriores. “Um exemplo é a decisão de muitos países europeus de comprar caças F-35 dos EUA. Isso significa que eles permanecem vinculados a esses sistemas por pelo menos uma década e dependem do fornecimento de peças de reposição do país fabricante.”
Os padrões de comércio variam amplamente dentro de cada região. Entre os países europeus, as participações dos Estados Unidos nas importações vão de até 96% na Holanda a apenas 17% na Hungria.
Dos 50 países responsáveis pela maior parte das importações de armas de 2020 a 2024, em 19 deles mais da metade do que foi comprado veio dos Estados Unidos. Essas relações comerciais têm raízes profundas. Para quase todas essas nações, trata-se de uma continuação de uma forte relação de importação de armas com os EUA, ou mesmo de um aumento em 2020-2024 em comparação com outros períodos de cinco anos desde 2000.
Matle indicou o Japão, a Coreia do Sul e as Filipinas como países asiáticos com dependências especialmente altas dos Estados Unidos. “Esses países observam com muita atenção a atual postura americana em relação à Europa, com sua exigência por maior compartilhamento de encargos”, diz. “O primeiro governo Trump, assim como o governo Biden, também pediu aos países da região do Indo-Pacífico que gastassem mais em defesa, mas não tão drasticamente quanto na Europa.”
Diminuir dependência dos EUA forjando novas alianças
Matle afirma que o retorno de Trump à Casa Branca gerou apreensão nesses países, “não apenas por causa da dependência da indústria de defesa, mas também pela promessa de proteção caso surja um confronto com a China”.
Sua pesquisa se concentra em como países selecionados da Europa e do Indo-Pacífico veem suas respectivas situações de ameaça, quais conexões e semelhanças existem e se isso pode levar à cooperação. Ela descobriu que, desde o retorno de Trump, os governos forjaram novas alianças, incluindo o recente estabelecimento de mais acordos de cooperação com países europeus.
“Tenho fortes suspeitas de que isso continuará a aumentar em função dos atuais desenvolvimentos das políticas de segurança”, diz Matle, “mesmo que no futuro haja uma administração americana mais simpática aos europeus”.
Hora de diversificar os parceiros comerciais?
Há também países que mostram um padrão contrário à forte dependência de um único fornecedor, como os Estados Unidos, diversificando as importações. Grécia, Catar e Índia compram os mesmos sistemas de vários fornecedores, o que resulta no que Pieter Wezeman, pesquisador sênior do Programa de Transferências de Armas do SIPRI, chamou de logística “de pesadelo” em campo ao operar os sistemas em conjunto.
“Esses são exemplos clássicos em que existem razões políticas para diversificar, mas também é muito claro que isso pode levantar grandes questionamentos sobre a eficiência logística”, diz Wezeman.
O Brasil, por outro lado, importa de diferentes países, mas adquire diferentes tipos de armas de cada um. Ele cita o exemplo dos submarinos, que o país só compra dos franceses.
Como seria uma estratégia de defesa resiliente?
Matle, Wezeman e outros analistas afirmam que a autossuficiência é fundamental para a resiliência.
“Em um cenário que envolva um conflito no Indo-Pacífico, é lógico que a indústria de defesa dos EUA priorize o fornecimento de armamentos para suas Forças Armadas, em vez de cumprir contratos com os europeus. Se, nesse cenário, houver simultaneamente um confronto com a Rússia no flanco leste da Otan, a indústria europeia também deverá estar em condições de fornecer armamentos para suas Forças Armadas”, explica Matle.
A União Europeia parece ter adotado essa estratégia com seu plano Readiness 2030 (“Prontidão 2030”), que visa fortalecer a base industrial da EU por meio de planos de financiamento para incentivar os Estados-membros a investir em produtos de defesa fabricados dentro do bloco.
Wezeman afirma que a indústria de defesa da UE já estaria em condições de armar rapidamente as Forças Armadas europeias; seria apenas uma questão de prioridades. Por um lado, “há uma capacidade significativa na Europa, que não é necessariamente usada para a própria Europa”, explica o analista. “Há exportações muito significativas para outras partes do mundo.” Ele, porém, acrescenta que, “dentro da Europa, houve um forte esforço para manter exportações significativas de armas, e acho que também podemos esperar isso de uma futura indústria de armamentos na Europa”.
Se a indústria de defesa da UE quiser aumentar a escala para abastecer suas Forças Armadas e, ao mesmo tempo, manter ou mesmo expandir suas exportações, inevitavelmente terá de enfrentar outro desafio. Os minerais de terras raras são cruciais para a fabricação de produtos de defesa, e atualmente existe apenas um fornecedor principal: a China.
“A curto prazo, não há alternativas reais”, observa Matle. “Não há outros países onde as terras raras possam ser produzidas tão rapidamente e nessa escala.”
Portanto, ao se tornar mais independente da indústria de defesa dos EUA, a UE pode acabar se tornando mais dependente de outro grande ator – que também já demonstrou não hesitar em usar seu poder a seu favor.
