Sem energia, sem calefação, sem água: esta é a dura realidade na capital ucraniana. Frio abaixo de zero agrava os danos da guerra. Operários lutam para manter funcionando o mínimo que ainda existe.Neste inverno no Hemisfério Norte, centenas de arranha-céus em Kiev viraram verdadeiras armadilhas geladas de concreto. Após os ataques maciços de mísseis russos às instalações de energia da Ucrânia, não há eletricidade nem aquecimento. Funcionários da companhia de energia, assim como encanadores particulares, estão tentando fazer com que esses prédios congelados voltem à vida. O trabalho que eles realizam nos porões gelados, de forma muitas vezes invisível, é muito requisitado.

Na capital ucraniana, é extremamente difícil encontrar profissionais disponíveis que possam substituir um cabo de energia danificado por sobrecarga na rede ou drenar a água fria dos canos de aquecimento. Bairros inteiros estão sem aquecimento central porque as usinas elétricas foram destruídas. Sempre que possível, encanadores, técnicos de aquecimento e eletricistas trabalham incansavelmente para restabelecer o fornecimento de água, aquecimento e eletricidade às residências. A DW conversou com alguns deles.

Escassez de trabalhadores jovens

Oleh Karpov é dono de uma empresa de encanamento e aquecimento. Junto com sua equipe, ele é contratado pelos condomínios para cuidar dos sistemas de encanamento e aquecimento dos prédios residenciais de Kiev. Karpov diz que este ano tem sido um verdadeiro teste para ele. Seu dia de trabalho começa às 4h ou 5h, quando a maior parte da cidade ainda está dormindo, e termina bem depois da meia-noite.

Desde o início do ano, a equipe de Karpov tem trabalhado praticamente sem parar. O empresário relata que seus funcionários estão exaustos física e emocionalmente, e que vão trabalhar mesmo com febre de 39 graus.

“Às vezes conseguimos dormir duas ou três horas. Ontem cheguei em casa, nem tomei banho, fui dormir às 2h e acordei às 5h30. Estamos cansados ​​e doentes, mas saímos para atender às chamadas”, diz Karpov. “Sabemos que, caso contrário, a situação ficará ainda pior para o prédio e seus moradores.”

Karpov é um veterano de guerra que recebeu baixa por motivos de saúde. A maioria de sua equipe é composta por homens mais velhos. Alguns deles voltaram da frente de batalha com ferimentos graves e enfrentam limitações físicas.

“Dos meus 25 funcionários, restam apenas oito. Alguns estão na frente de batalha, outros no exterior. Funcionários de empresas privadas não podem ser dispensados ​​do serviço militar como os funcionários de empresas estatais ou municipais. Há uma enorme escassez de mão de obra. Tenho um soldador de 62 anos e um eletricista com mais de 60. Além disso, há um homem com deficiência grave e um encanador que é um deslocado interno dos territórios ocupados pela Rússia e também tem problemas de saúde. Os jovens não querem fazer este trabalho, então nós o fazemos”, diz o empresário.

Mortes por exaustão

Equipes de emergência compostas por mecânicos e eletricistas estão trabalhando em ritmo acelerado para ajudar o máximo possível de moradores de Kiev.

“Não há profissionais de emergência suficientes. É por isso que as pessoas estão trabalhando dois ou três dias seguidos sem descanso. Elas estão quase entrando em colapso. Dois chaveiros morreram de exaustão. Muitos sofrem esgotamento mental ou hipotermia”, escreveu no Facebook o deputado Oleksiy Kucherenko, vice-presidente da comissão parlamentar de energia, habitação e municípios.

O prefeito da capital, Vitali Klitschko, confirmou a morte de um chaveiro em janeiro, aos 60 anos, enquanto trabalhava em um apartamento. A prefeitura planeja conceder um auxílio financeiro único equivalente a aproximadamente mil euros (R$ 6,2 mil) às famílias de trabalhadores que morreram enquanto atuavam em prédios residenciais e instalações municipais.

Desejo por maior reconhecimento

Empreiteiros particulares como Oleh Karpov prestam serviços principalmente a edifícios com associações de condomínio. Por isso, eles não recebem uma remuneração maior, já que estão vinculados a planos de negócios de longo prazo. Esses contratos são elaborados para um número específico de trabalhos e mal contemplam as situações extremas que se seguem aos ataques aéreos russos.

“É por isso que eu mesmo pago os trabalhos dos eletricistas ou encanadores, assim eu dou a eles um descanso e deixo que tirem folga”, diz Karpov.

Mas, segundo ele, a parte mais difícil do trabalho não é o cansaço extremo, os canos velhos ou os cabos queimados, e sim a falta de um reconhecimento básico.

“Eles nos chamam de preguiçosos, xingam, são agressivos e exigem que desafiemos as leis da física. Em um prédio com 300 apartamentos, talvez uma pessoa nos agradeça, enquanto todos os outros afirmam que estamos fazendo um trabalho porco. Em situações como essa, é fácil perder a esperança e querer desistir”, admite.

“Faço meu trabalho da melhor maneira possível”

Leonid Kulytsky tem 59 anos e trabalha como eletricista há quase 30. Mas afirma que este inverno está sendo o mais difícil de toda a sua carreira. Ele só consegue chegar em casa por algumas horas para descansar.

Como muitos moradores de Kiev estão sem aquecimento em suas casas devido à destruição das usinas elétricas, eles aproveitam as poucas horas de eletricidade disponíveis. No entanto, a rede elétrica não foi projetada para o funcionamento simultâneo de tantos aparelhos de alto consumo de energia.

“Assim que a energia volta, as pessoas ligam tudo de uma vez: caldeiras, aquecedores e chaleiras. Isso faz queimar cabos, fios e quadros de distribuição. Mas temos que ir até as pessoas porque elas estão congelando e, de outra forma, ficariam completamente sem energia. Temos que fazer algo para que elas possam se aquecer novamente”, diz Kulytsky.

Apesar da extrema pressão, ele não se considera um herói. É simplesmente um dever para com a humanidade, diz Kulytsky, cujo filho está atualmente lutando na linha de frente.

Ele lembra que os soldados ucranianos enfrentam dificuldades ainda maiores nas trincheiras. “A Rússia está nos levando à exaustão. Mas estamos resistindo”, enfatiza. “Estou fazendo meu trabalho da melhor maneira possível. O mais importante é que nossos filhos saiam desta guerra vivos e saudáveis.”