10/01/2026 - 16:25
Nos maiores protestos contra o regime dos iatolás em três anos, iranianos gritam “viva o rei!”, em referência ao filho exilado do antigo xá. Até onde Pahlavi pode unir forças opositoras ao governo dentro e fora do país?Reza Pahlavi, 65 anos, filho primogênito do último monarca do Irã , é considerado um dos mais proeminentes opositores do regime dos iatolás no Irã. Desde a revolução de 1979 , ele tem sido uma pedra no sapato da liderança do país, que teme uma mudança de regime apoiada por potências estrangeiras, como os Estados Unidos.
Às vésperas de os protestos completarem duas semanas e com o país tendo internet e serviços de telefonia bloqueados , Pahlavi disse que se prepara para “voltar à pátria” para que, no “momento da vitória de nossa revolução”, possa “estar ao lado” da “grande nação do Irã”.
Pahlavi reivindica um papel de liderança na oposição. Há anos que não há mais no Irã uma força política reconhecida pelos manifestantes como uma oposição credível. Por isso muitas pessoas no país depositam suas esperanças no apoio do exterior. Durante os atuais protestos – os maiores em três anos – manifestantes gritam “viva o rei!”, numa referência direta ao filho exilado do antigo xá.
O acadêmico iraniano Sadegh Sibakalam, um crítico do regime, diz que o atual apoio a Pahlavi deve-se menos às qualidades de liderança dele e mais à incompetência, má gestão e decisões equivocadas do regime iraniano.
Pahlavi vive nos Estados Unidos desde a deposição de seu pai e defende o fim da república islâmica. “Para muitos iranianos, ele é um farol de esperança, alguém que evoca uma era de progresso sob o governo de seu pai, que terminou com a revolução de 1979”, diz a jornalista Moloud Hajizadeh. Ela já foi presa diversas vezes por suas reportagens críticas sobre a repressão aos movimentos de protesto. Hajizadeh fugiu do Irã em 2021 e vive na Noruega.
“Nasci depois da revolução de 1979 e cresci no sistema educacional da República Islâmica”, diz ela. “Na escola, nos apresentaram um retrato sombrio da era do Xá, caracterizado por opressão, corrupção e discriminação. Mas vivenciamos exatamente essas injustiças todos os dias no Irã – e elas até pioraram. Apenas uma pequena classe privilegiada se beneficia dos recursos do país, enquanto a maioria da sociedade vive na pobreza. Esses recursos são desperdiçados em nome de uma ideologia que não trouxe nada ao povo iraniano e não implementou nenhuma estratégia de desenvolvimento.”
Anseio por prosperidade e estabilidade
Ela compartilha essa avaliação com muitos iranianos que não têm lembranças do período anterior a 1979. Alguns chegam a acusar a geração mais velha de ter arruinado seu futuro com a revolução. Bahareh Hedayat, uma proeminente ativista dos direitos das mulheres e cientista política no Irã, afirmou em março de 2025: “Muitos anseiam pelo retorno da monarquia. O caminho trilhado pelo xá foi o correto, e a geração atual está seguindo seu sonho.”
Aos olhos de muitos iranianos, o xá é considerado um patriota com grandes planos. Entre aproximadamente 1969 e 1979, o Irã vivenciou um período de forte crescimento econômico, com taxas de crescimento anual real de 8% a 11%. Além disso, o sistema educacional e a infraestrutura foram modernizados – fundamentos que continuam a moldar o país até hoje.
“É claro que nem tudo era perfeito, e a polícia secreta Savak reprimia duramente as figuras da oposição”, afirma Jamshid Assadi, especialista em economia iraniano que lutou contra a monarquia quando jovem revolucionário de esquerda. Hoje, ele exilado na França e apoia Reza Pahlavi.
“Mas o que veio depois é muito pior. Nos últimos anos, os movimentos de protesto foram brutalmente reprimidos, principalmente por falta de uma liderança clara. A oposição no exterior pode oferecer apoio, e acredito que o príncipe Reza Pahlavi pode assumir essa liderança. No entanto, também é óbvio que ele não conseguirá unir a todos. Por exemplo, grupos com posições antiocidentais e anti-Israel não o apoiarão. Trabalhar dentro da oposição será tão difícil quanto lutar contra o regime iraniano.”
“Chegou a hora da mudança de regime”
Reza Pahlavi precisa agora provar suas habilidades de liderança. Ele vê o Irã em uma posição historicamente frágil, especialmente após os ataques aéreos israelenses e americanos de junho passado. Esses ataques, explica ele, não são direcionados contra o povo iraniano, mas sim para enfraquecer a liderança do país. Ele convoca a oposição a se unir pela mudança de regime.
Em julho passado, ele se reuniu em Munique com mais de 500 exilados iranianos, dissidentes, ativistas e representantes de grupos étnicos na Convenção para a Cooperação Nacional para Salvar o Irã. Pahlavi defende um afastamento da política externa ideologicamente motivada do Irã, como a ameaça de destruição de Israel. Essa política é rejeitada pela maioria dos iranianos. Os movimentos de protesto frequentemente entoam: “Nem Gaza nem Líbano – nossas vidas pelo Irã!”
Para seus apoiadores, Reza Pahlavi continua sendo o príncipe herdeiro do Irã. No entanto, ele ainda não decidiu se pretende restaurar a monarquia. Os críticos o acusam de ter pouco conhecimento da sociedade iraniana após 47 anos de exílio. Ele também é criticado por depender de ajuda externa e por não ter condenado os recentes ataques militares contra seu país.
Assadi explica: “Ele não pode ser responsabilizado pela política externa do Irã, que é direcionada contra Israel, nem pelos alertas emitidos pela Organização de Energia Atômica sobre o enriquecimento de urânio.” Ao mesmo tempo, ele enfatiza: “Ele defende a preservação da integridade territorial do Irã e está usando a atual fragilidade do regime para unir a oposição.”
Pahlavi exige que, após a queda do regime, o povo iraniano decida sobre a forma de governo em um referendo – se uma república com presidente e primeiro-ministro, uma república parlamentar ou uma monarquia constitucional nos moldes da Suécia. Outras figuras proeminentes da oposição também apoiam essa ideia.
“A união é o segredo da vitória”
A ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2003, Shirin Ebadi, apoia essa reivindicação e também defendeu a mudança de regime em uma mensagem em vídeo para a Conferência de Segurança de Munique realizada em fevereiro. Ela enfatiza: “O governo e a Constituição atuais não permitem reformas. Para alcançar um governo democrático e laico, não há outro caminho senão derrubar o regime e realizar um referendo sob supervisão da ONU.”
Ebadi considera a união das forças de oposição crucial. “A união é o segredo da nossa vitória. Assim que superarmos nossas diferenças políticas, poderemos derrubar o regime juntos”, afirma.
Pahlavi também destaca a importância de uma oposição unida e a necessidade de obter apoio não apenas do exterior, mas também dentro do Irã e de setores das estruturas de poder. Segundo ele, mais de 50 mil potenciais desertores entraram em contato com seu movimento por meio de sua plataforma online. Ainda é preciso verificar quantos deles são funcionários de alto escalão, como membros do clero ou da Guarda Revolucionária.
Campanhas de desinformação
Não é segredo que a Guarda Revolucionária opera não apenas militarmente, mas também digitalmente. Desde os protestos de 2009, o regime construiu um exército cibernético que usa identidades falsas em redes sociais, ataca membros da oposição e jornalistas e tenta influenciar o discurso público.
Em seu livro publicado em2025, Twitter Activism in Iran: Social Media and Democracy in Authoritarian Regimes (Ativismo no Twitter no Irã: Mídias Sociais e Democracia em Regimes Autoritários, em tradução livre), o cientista político Hossein Kermani descreve as estratégias que o regime iraniano utiliza para controlar e direcionar a comunicação online.
Perfis anônimos, por exemplo, se fazem passar por apoiadores de Pahlavi, mas usam seu alcance para desacreditar outras figuras da oposição, artistas e profissionais da mídia. Isso divide a oposição e impede a cooperação.
