29/01/2026 - 14:35
Mistura de conto de fadas romântico com questões contemporâneas, série romântica da Netflix redefinou gênero de drama histórico. Por que franquia repercute e o que esperar da 4ª temporada.Com o início da quarta temporada de Bridgerton nesta quinta-feira (29/01), retorna às telas uma das séries de maior sucesso da era do streaming . Agora, o foco se volta para Benedict Bridgerton, o terceiro dos quatro filhos da viúva Violet Bridgerton, que na verdade não quer se casar, mas sim continuar sua vida como artista e boêmio. Em um baile de máscaras, ele encontra uma beleza misteriosa que o eletriza desde o primeiro instante. Antes da meia-noite, a “mulher de prata” desaparece – e em sua fuga apressada, perde uma luva (os paralelos com a Cinderela dos irmãos Grimm não são coincidência) – e Benedict agora tenta encontrar a dona da luva. Ele só está procurando no lugar errado, porque a bela misteriosa não é quem parece ser…
Mais uma vez, Bridgerton conta um conto de fadas com padrões bem familiares: histórias de amor, escândalos, bailes e trajes suntuosos. Mas o fascínio permanece intacto. Isso porque esses contos de fadas são combinados com uma sensibilidade moderna. A precisão histórica não é o foco – pelo contrário, o gênero da ficção histórica é redefinido nesta produção.
Passado que nunca houve
Na visão de Bridgerton, a Inglaterra do início do século 19 surge como um mundo de fantasia luxuoso. Pobreza, miséria e dificuldades sociais são praticamente inexistentes. As damas vestem-se opulentamente, e os cavalheiros são igualmente adornados com babados e laços. A vida parece ser um ciclo interminável de bailes e encontros sociais, dominado pela riqueza, beleza e etiqueta.
O elenco também impressiona. A cor da pele é irrelevante; a aristocracia é diversa – até mesmo a rainha. Este mundo não é historicamente preciso, mas deliberadamente inclusivo. Bridgerton cria um mundo seguro e belo onde os maiores conflitos são de natureza emocional.
Visualmente, Bridgerton é propositalmente opulenta. As cores são mais intensas, os figurinos mais suntuosos, os cenários maiores do que o necessário. Cada cena é concebida para causar impacto – quase como uma pintura. Em um cenário midiático fortemente influenciado por imagens, essa estética funciona perfeitamente. A série não é apenas para ser assistida, mas para ser compartilhada, citada e reconhecida. O espetáculo não é um fim em si mesmo, mas sim parte da estratégia narrativa.
Estrutura clara, emoções poderosas
Cada temporada da série, baseada na série de romances de mesmo nome da autora americana Julia Quinn, concentra-se em uma história de amor. Isso proporciona estrutura e clareza emocional. Ao redor do casal central, Bridgerton desenvolve uma complexa teia de personagens secundários, conflitos familiares, escândalos e normas sociais. O final feliz geralmente é previsível – a jornada até lá é o que torna a série emocionante. Essa mistura de previsibilidade e drama faz com que a série seja fácil de assistir sem ser superficial.
Cruciais são as emoções transmitidas por quase todas as imagens, todas as cenas, todas as linhas de diálogo: desejo, vergonha, poder, ciúme. No baile, a orquestra de cordas toca música pop moderna no estilo de Mozart; as danças são extravagantes e quase grotescas; o diálogo emprega uma linguagem ligeiramente antiquada e poética, mas que parece originária do presente. Pois no cerne das histórias que Bridgerton conta estão temas que ressoam globalmente: questões contemporâneas de relacionamento dentro de estruturas de poder ultrapassadas, casamentos arranjados, desejos proibidos e restrições sociais.
Sexualidade como questão de identidade feminina
A série se caracteriza pela sua representação aberta da sexualidade. A maioria das cenas é marcada por um erotismo caloroso e romântico, não intencionalmente provocativo, mas que ainda assim levanta a questão: Quem tem o direito de desejar? Quem arrisca a própria reputação? Quem decide sobre intimidade, sobre os corpos, sobre o futuro?
O desejo feminino, em particular, ocupa o centro das atenções. Bridgerton conta as histórias de mulheres que aprendem a expressar seus desejos – independentemente da idade ou da imagem corporal. Convenções históricas são utilizadas para explorar temas modernos como consentimento, autodeterminação e trabalho emocional.
Elenco diversificado
A diversidade intencional do elenco é fundamental para o impacto da série. Essa abordagem narrativa tem suas origens culturais no musical da Broadway Hamilton, que em 2015 escalou atores não brancos para interpretar os Pais Fundadores dos EUA. A história não foi corrigida, mas reinterpretada.
A produtora e escritora Shonda Rhimes, criadora de Bridgerton e outra séries de sucesso, adaptou esse princípio para a televisão. Ao montar seu elenco, ela não levou em conta a cor da pele dos atores. Em vez disso, priorizou a adequação ao papel, a fim de promover a diversidade e evitar representações estereotipadas.
Com Bridgerton, Rhimes demonstrou que esse modelo também funciona no formato de grande drama histórico. Muitas séries agora seguem essa abordagem – do spin-off de Bridgerton, Rainha Charlotte, a The Great, The Buccaneers e Marie Antoinette, e até mesmo séries de fantasia como A Casa do Dragão e The Witcher.
A precisão histórica não é abandonada, mas reinterpretada. A história é entendida como interpretação, não como uma apresentação museológica de uma era passada. Bridgerton é deliberadamente artificial, misturando contos de fadas românticos com questões modernas, e talvez seja por isso que seja tão emocionalmente crível. E tão fascinante.
