25/08/2026 - 20:51
Salpas, tunicados pelágicos de crescimento vertiginoso, são investigadas por cientistas. Capazes de formar imensas correntes de clones, elas são algumas das armas naturais mais eficientes no sequestro de carbono do planeta.
As salpas são tunicados gelatinosos transparentes que podem formar correntes flutuantes com vários metros de comprimento. Esses seres se movem por propulsão a jato enquanto filtram incansavelmente o fitoplâncton. Possuindo um ciclo de vida ultrarrápido que alterna entre fases solitárias e coloniais, elas podem gerar “explosões” populacionais (blooms) massivas da noite para o dia. Habitantes das zonas epipelágicas e mesopelágicas, as salpas desempenham um papel crucial no combate às mudanças climáticas ao transportarem enormes quantidades de carbono para o fundo do mar.
Um fascinante e enigmático organismo gelatinoso do oceano aberto, a salpa tem capturado a atenção de ecologistas e oceanógrafos globalmente. Frequentemente confundidas com águas-vivas pelos banhistas, essas criaturas transparentes em formato de barril são, na verdade, do filo dos cordados — o que significa que estão muito mais próximas evolutivamente dos seres humanos do que dos cnidários.
Enquanto o surgimento massivo de pirossomas nas costas do Pacífico acendeu alertas sobre anomalias térmicas, as salpas continuam a ser um fenômeno de eficiência reprodutiva e ecológica. Raramente compreendidas pelo público geral, essas criaturas gelatinosas parecem simples, mas são dotadas de capacidades extraordinárias.
Em observações oceânicas globais, pesquisadores registram com frequência blooms de salpas que chegam a cobrir milhares de quilômetros quadrados do oceano. Uma única corrente de clones interligados nadando em sincronia pode atingir metros de comprimento, transformando a água em uma verdadeira “sopa de gelatina” viva.
O que define um indivíduo Salpa? (O Frenesi da Clonagem)
Apesar de sua aparência externa simples — uma fita gelatinosa transparente cruzada por bandas musculares visíveis —, a salpa possui um dos ciclos de vida mais dinâmicos e rápidos do reino animal. Ela alterna entre duas gerações distintas para garantir a conquista de territórios ricos em alimento:
Diferente dos sifonóforos, onde a colônia é formada por indivíduos com funções completamente distintas que não sobrevivem separados, a salpa foca seu esforço evolutivo na velocidade de cópia:
Oozoides (Fase Solitária): É o indivíduo assexuado que nasce e vive nadando sozinho. Quando encontra fartura de algas, ele não bota ovos; em vez disso, produz internamente uma corrente (estolão) composta por dezenas ou centenas de clones minúsculos de si mesmo, soltando-os na água.
Blastozoides (Fase Colonial): Esses clones nascem já interligados, formando as belas correntes em espiral ou retas que ondulam pelos mares. Eles nadam, comem em sincronia e, nesta fase, são sexuados. Após liberarem seus próprios embriões (que voltarão a ser oozoides solitários), a corrente se desfaz.
O Dilema Biológico: A velocidade absurda deste ciclo alternado faz da salpa o animal multicelular de crescimento mais rápido na Terra. Uma geração inteira pode amadurecer em 48 horas. Se há uma proliferação de algas no oceano, bilhões de salpas podem “brotar” em poucos dias para devorá-las, o que nos faz questionar os limites da reprodução programada na biologia marinha.
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Propulsão a jato: a máquina perfeita
Diferente da maioria das criaturas marinhas, as salpas resolveram dois grandes problemas de sobrevivência com uma única ação. Elas respiram, se alimentam e se movem usando um sistema contínuo de “propulsão a jato”. Ao contrair suas cintas musculares, elas sugam a água pela abertura frontal, fazem essa água passar por uma malha de muco finíssima que captura o fitoplâncton microscópico, e a expelem pela abertura traseira, impulsionando-se para frente.
“Quando nos deparamos com um grande ‘bloom’ de salpas no oceano aberto, não estamos apenas vendo um fenômeno visualmente curioso, mas testemunhando o ‘aspirador biológico’ mais rápido e eficiente da natureza, capaz de alterar a química do mar e sequestrar carbono em taxas extraordinárias.” — Dra. Marina Torres, Oceanógrafa e Pesquisadora de Dinâmica Pelágica.
Impactos ecológicos e a Bomba Biológica de Carbono
À medida que as mudanças climáticas alteram correntes e temperaturas, a distribuição das salpas tem gerado preocupação, especialmente no Oceano Antártico. Com o aquecimento das águas, as salpas estão invadindo o território do Krill (o alimento principal de baleias e pinguins) em direção ao sul. Como as salpas têm baixo teor calórico em comparação aos crustáceos, essa substituição ameaça toda a teia alimentar polar.
Contudo, elas são verdadeiras heroínas do clima. Como se alimentam de fitoplâncton da superfície (que absorveu grandes quantidades de CO2 da atmosfera terrestre), as salpas geram pelotas fecais extremamente densas e pesadas. Esses resíduos ricos em carbono afundam como pedras até as profundezas abissais, longe do ciclo atmosférico. Além disso, quando o bloom acaba, as bilhões de salpas mortas também afundam rapidamente. Esse processo, parte crucial da “bomba biológica de carbono”, estoca bilhões de toneladas de carbono no fundo do mar, mitigando o aquecimento global.

O estudo contínuo dessas criaturas extraordinárias oferece pistas preciosas sobre os limites da reprodução biológica e sobre como a vida marinha está regulando o clima de um planeta em rápida transformação. Enquanto a tecnologia nos permite monitorar mudanças térmicas via satélite, as salpas permanecem como um lembrete vivo de que as soluções mais impactantes da natureza podem ser completamente invisíveis, gelatinosas e se moverem a jato.
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