02/01/2026 - 10:00
Líder venezuelano evita comentar ataque americano em seu território, mas se diz disposto a conversar com governo Trump “onde e quando eles quiserem”. Segundo ONGs, país ainda mantém 900 presos políticos.A Venezuela anunciou nesta quinta-feira (01/01) a libertação de 88 pessoas presas por protestarem contra a contestada vitória do presidente Nicolás Maduro nas eleições de julho de 2024, no mais recente gesto de boa vontade do regime venezuelano que se encontra sob forte pressão dos Estados Unidos.
Maduro impôs uma violenta repressão aos opositores que rejeitaram o resultado oficial, que o conduziu a um terceiro mandato de seis anos na Presidência, embora a oposição tenha divulgado dados que, segundo afirma, comprovariam a vitória de seu candidato.
A repressão brutal imposta pelo regime resultou na morte de 28 pessoas e na prisão de cerca de 2.400 manifestantes, incluindo dezenas de menores de idade.
Desde então, mais de 2 mil manifestantes foram libertados, segundo registros oficiais.
ONGs: 900 presos políticos ainda detidos
O Ministério da Justiça venezuelano informou nesta quinta-feira que as 88 pessoas libertadas haviam sido detidas “por crimes cometidos durante ações violentas de grupos extremistas”.
Duas entidades de direitos humanos, o Comitê para a Liberdade dos Presos Políticos e o Comitê de Mães em Defesa da Verdade, haviam relatado anteriormente a libertação de pelo menos 87 presos.
Em 25 de dezembro, Caracas já havia anunciado a libertação de 99 prisioneiros como “uma expressão concreta do compromisso do Estado com a paz, o diálogo e a justiça”. O governo venezuelano afirma que não mantém presos políticos, mas sim políticos presos, e que os detidos teriam tentado desestabilizar o país.
ONGs venezuelanas estimam que cerca de 900 presos políticos ainda estejam detidos, incluindo pessoas presas antes das eleições.
Pressão americana
Maduro tem adotado recentemente um tom mais conciliador, diante da ameaça de ação militar por parte do governo do presidente Donald Trump, que acusa o venezuelano de apoiar o narcotráfico, o terrorismo e outros crimes.
Em meio à recente escalada nas tensões entre os dois países, Caracas acusa Washington de tentar derrubar o governo para se apoderar da riqueza petrolífera do país. Trump, na semana passada, disse que seria uma jogada “inteligente” de Maduro renunciar.
Desde agosto, os EUA vêm intensificando a pressão, com o envio de uma força naval ao mar do Caribe. A Casa Branca autorizou recentemente uma série de ataques a embarcações suspeitas de transportar drogas para o território americano, além de apreender navios petroleiros alvos de sanções internacionais e de fechar parcialmente o espaço aéreo venezuelano.
Trump também anunciou nesta semana que forças americanas atingiram e destruíram um porto supostamente utilizado para o carregamento de barcos venezuelanos que seriam usados por traficantes, no que pode ser considerado o primeiro ataque terrestre na Venezuela da campanha militar dos EUA para combater o narcotráfico e pressionar o regime de Maduro.
Maduro evita comentar ataque dos EUA
Maduro, em entrevista à emissora estatal venezuelana nesta quinta-feira, evitou comentar o ataque americano e disse estar aberto à cooperação com Washington.
“Onde eles quiserem e quando eles quiserem”, disse Maduro sobre a possibilidade de um diálogo com o governo americano sobre narcotráfico, petróleo e migração.
Questionado diretamente se confirmava ou negava o ataque, ele disse que “isso pode ser algo sobre o qual conversaremos em alguns dias”.
Maduro insistiu que a Venezuela conseguiu se defender bem enquanto os EUA realizavam sua campanha militar no mar. “Nosso povo está seguro e em paz”, afirmou.
Na entrevista, Maduro disse que não fala com Trump desde a conversa que tiveram em 12 de novembro, a qual descreveu como cordial e respeitosa. “Acho que aquela conversa foi até agradável, mas desde então a evolução não tem sido agradável. Vamos esperar”, disse. “Se eles quiserem conversar seriamente sobre um acordo para combater o narcotráfico, estamos prontos.”
Petro diz que ataque foi em Maracaibo
O presidente colombiano, Gustavo Petro – que também se tornou alvo da pressão americana no continente – alimentou rumores sobre o local do ataque, dizendo que Trump bombardeou uma fábrica em Maracaibo onde “eles misturam pasta de coca para fazer cocaína”.
A declaração levou alguns a especularem nas redes sociais que um incêndio nos armazéns da distribuidora atacadista de produtos químicos Primazol, em Maracaibo, poderia estar relacionado ao ataque, o que foi negado pelo presidente da empresa.
rc/md (AFP, Reuters)
