Estudo aponta que fêmeas de tartarugas mediterrâneas se jogam de penhasco para fugir de machos violentos. Desequilíbrio extremo entre os sexos ameaça a população da espécie em ilha na Macedônia do Norte.Um novo estudo sugere que a agressão sexual dos machos pode ser a razão pela qual as tartarugas do Mediterrâneo (Testudo hermanni) fêmeas se jogam de penhascos na ilha de Golem Grad, no Grande Lago Prespa, na Macedônia do Norte. Os cientistas descrevem o fenômeno como um “suicídio demográfico”.

A pesquisa, publicada na revista científica Ecology Letters, documenta um caso de desequilíbrio extremo entre os sexos da espécie. Segundo os dados, em algumas áreas há até 19 machos para cada fêmea. No total, a população gira em torno de 1.000 tartarugas na ilha.

Os pesquisadores observaram que esse desequilíbrio leva a tentativas de acasalamento por violência. Algumas fêmeas, exaustas após serem perseguidas por vários pretendentes, sobem até o topo dos penhascos e se lançam no vazio como forma de escapar. Muitas acabam morrendo em consequência da queda, o que diminui a população de tartarugas na ilha..

A projeção é que, no atual cenário, a última grande fêmea de Golem Grad deve morrer em 2083. Em condições normais, as tartarugas mediterrâneas, ou tartaruga-de-Hermann, podem viver até cerca de 100 anos.

Tentativas de acasalamento com violência

Ao constatar que um número incomumente alto de fêmeas morria jovem, o ecólogo Dragan Arsovski, da Sociedade Ecológica da Macedônia, decidiu examinar o comportamento reprodutivo da espécie e verificou que vários machos perseguem simultaneamente uma única fêmea.

“Literalmente, ela fica soterrada pelos machos”, disse Arsovski ao jornal americano New York Times. Além disso, as tentativas de acasalamento são marcadas por violência: os machos investem contra as fêmeas, mordem até fazê‑las sangrar e as perfuram com a ponta afiada da cauda. Como resultado, até três quartos das fêmeas de Golem Grad apresentam lesões na região genital.

Embora também haja registros de machos caindo dos penhascos, Arsovski afirmou que existe uma “proporção significativamente maior de fêmeas que morrem dessa forma”.

“Vórtice de extinção”

Para ampliar os resultados, experimentos adicionais reforçaram as observações de campo: ao colocar fêmeas da ilha diante de penhascos simulados, os pesquisadores observaram que elas se lançavam voluntariamente na presença de machos, enquanto fêmeas de uma população continental vizinha não o faziam.

O estudo também aponta que fêmeas assediadas se reproduzem menos e têm taxas de sobrevivência anual inferiores às das fêmeas do continente.

Ao jornal britânico The Times, Jeanine Refsnider, ecóloga da Universidade de Toledo, afirmou que a agressão sexual dos machos “parece estar provocando um vórtice de extinção” das fêmeas. Ela acrescentou que nunca havia visto nada parecido em um ambiente natural sem interferência humana direta.

Até agora, não se sabe como surgiu o desequilíbrio extremo entre machos e fêmeas na ilha. Uma das teorias sugere que a flutuação possa ter sido inicialmente aleatória, já que no continente há ligeiramente mais fêmeas do que machos.

Outra hipótese aponta para uma introdução de animais promovida por humanos, gerando o desiquilíbrio. A tese é apoiada por números gravados nos cascos de alguns dos machos mais velhos.