16/02/2026 - 11:53
Grupos armados usam reservas como bases para o comércio ilegal e ataques contra a população. Governo busca recuperar o controle sobre essas áreas de conservação.O grupo militante islâmico Boko Haram é conhecido por organizar e disseminar o terrorismo a partir da Floresta de Sambisa, no nordeste da Nigéria. A floresta se tornou uma base fundamental depois que o Exército nigeriano expulsou o grupo militante de áreas povoadas como Maiduguri, a capital do estado de Borno. O Boko Haram é classificado como organização terrorista pela União Europeia, pela ONU e por outros órgãos.
Outrora lar de uma reserva de vida selvagem famosa por sua rica fauna, Sambisa se tornou por vários anos o centro de operações do Boko Haram, de onde o grupo aterroriza comunidades e realiza ataques. A floresta abrange aproximadamente 60 mil quilômetros quadrados e se estende por diversos estados do nordeste do país, incluindo Borno, Yobe, Gombe e Bauchi. Também está relativamente próxima das fronteiras com o Chade e Camarões.
Essa abordagem foi copiada em todo o país: no noroeste e no centro da Nigéria, reservas florestais como os Parques Nacionais de Kainji, Kwiambana, Kamuku e Alawa também se tornaram refúgios estratégicos para criminosos e terroristas.
De área protegida a espaço sem lei
As reservas florestais da Nigéria nunca foram criadas com a ameaça do terrorismo em mente. Embora existam leis para proteger as florestas da extração de recursos, segundo o analista Ladd Serwat, da organização Armed Conflict Location and Event Data (Acled), o governo tem capacidade limitada para monitorar e prevenir atividades ilegais.
“A polícia e os militares geralmente não patrulham as florestas, mas sim utilizam bloqueios de estradas fora dessas áreas protegidas para interceptar, por exemplo, caminhões de madeira”, disse Serwat.
Para Malik Samuel, pesquisador sênior do think tank pan-africano Good Governance Africa, a má gestão florestal, a corrupção e o subfinanciamento crônico resultaram em florestas em grande parte não mapeadas, não monitoradas e desprotegidas.
Segundo Samuel, os grupos armados exploram essa situação porque “a floresta lhes oferece proteção e oportunidades de subsistência, seja através da caça de animais selvagens ou do cultivo de alimentos”.
Analistas afirmam que a negligência burocrática em relação às florestas, aliada à sobreposição de responsabilidades federais e estaduais, resultou em vastas áreas sem governança. Isso facilita a movimentação de grupos armados sem serem detectados e sem resistência.
Exploração ilegal da floresta financia o Boko Haram
O terreno acidentado, o isolamento, a vastidão e o acesso rodoviário limitado tornam as reservas florestais ideais para grupos terroristas. Muitas florestas conectam vários estados ou fazem fronteira com países vizinhos. Elas são frequentemente usadas para atividades ilegais e oferecem proteção natural contra a pressão militar.
“Há partes dessas florestas onde nem mesmo durante o dia se consegue enxergar direito. Às vezes, é preciso até usar uma lanterna”, diz Samuel, que realizou diversos estudos sobre grupos armados no norte da Nigéria. “Mesmo que as forças de segurança usem vigilância aérea, é difícil sobrevoar áreas densamente florestadas.”
Segundo o analista Ladd Serwat, os terroristas realizam negócios ilegais nas florestas para financiar suas atividades. E conquistariam o apoio das comunidades locais próximas às florestas, permitindo atividades econômicas que, de outra forma, seriam restritas – “ou sujeitas a altas taxas de extorsão por parte do Estado”.
No nordeste, o comércio de animais selvagens, particularmente elefantes e javalis, bem como de ouro ilegal, há muito tempo é uma fonte de financiamento para o Boko Haram. No noroeste do país, a mineração ilegal de ouro e o contrabando alimentam o terrorismo. A mídia local noticiou em 2025 que isso custava à Nigéria anualmente cerca de 9 bilhões de dólares (R$ 47 bilhões).
Moradores pagam o preço
As reservas e florestas se tornaram fonte de medo para muitas comunidades vizinhas. Muitos agricultores foram deslocados devido à devastação causada por terroristas nessas áreas: eles cometem atos de violência, extorquem impostos, sequestram pessoas para pedir resgate ou forçam os moradores locais a trabalhar para eles.
“Essas áreas se tornaram zonas proibidas para os agricultores. A Nigéria é, em grande parte, uma sociedade agrária, e a maioria das pessoas pratica agricultura de subsistência. Se elas não têm mais acesso às suas terras agrícolas devido à insegurança, a insegurança alimentar se instala”, diz Samuel.
A desnutrição que aflige muitas pessoas no norte da Nigéria não se deve “a uma repentina falta de alimentos, mas sim a agentes violentos que sistematicamente negam aos agricultores o acesso às suas terras”, acrescenta ele.
Devido ao envolvimento de grupos armados e seus cúmplices em atividades ilegais de extração de madeira, mineração e tráfico de animais selvagens, os esforços de conservação também entraram em colapso em muitas dessas reservas.
“Eles se apresentam como um governo alternativo porque sabem muito bem que o Estado não está presente nessas áreas”, disse Samuel à DW. “Eles se apresentam como a melhor alternativa, às vezes se comprometendo com objetivos como fortalecimento econômico e resolução de conflitos”, acrescentou.
Vislumbre de esperança?
Até o final de dezembro de 2025, o governo nigeriano havia treinado mais de 7 mil guardas florestais em um programa intensivo de três meses. O objetivo dos guardas é manter terroristas, bandidos e outras organizações criminosas longe de áreas florestais e de difícil acesso.
Segundo o analista Ladd Serwat, no entanto, soluções duradouras também devem incluir abordagens não militares, como o fortalecimento da gestão florestal e a melhoria da coleta de informações nas comunidades locais.
“Uma abordagem militar mais dura é dispendiosa e muitas vezes contraproducente quando se trata de construir relações sólidas com a população local”, disse Serwat. Os meios de subsistência da população local devem ser levados em consideração, acrescentou. “Isso não deve ser tratado como uma questão secundária.”
