Eleição que deu à premiê japonesa mais de dois terços dos deputados no Parlamento foi comemorada por Trump, mas pode reacender conflitos na região.A primeira-ministra Sanae Takaichi obteve uma vitória retumbante nas eleições gerais de domingo (08/02) do Japão, com o seu Partido Liberal Democrático (LDP) garantindo uma maioria qualificada de dois terços na poderosa câmara baixa do parlamento nacional.

Juntamente com o parceiro Partido da Inovação do Japão (Ishin) e vários aliados independentes, a coalizão governista do LDP conta agora com 352 dos 465 deputados no Legislativo.

O triunfo eleitoral concede a Takaichi um mandato para levar adiante iniciativas de política externa e de segurança que deverão agradar os aliados de longa data, mas não os rivais regionais.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi rápido em parabenizar Takaichi pela “vitória esmagadora”, acrescentando que foi uma honra para ele ter anunciado apoio à campanha da japonesa alguns dias antes.

“Desejo a você muito sucesso na aprovação de sua agenda conservadora, Paz Através da Força”, escreveu Trump nas redes sociais.

Por outro lado, a reação da China tem sido discreta, com a mídia estatal do país limitando sua cobertura, nesta segunda (09/02), a um anúncio protocolar do resultado que deu a vitória a Takaichi.

Segundo analistas, isso deve mudar nos próximos dias, à medida em que Pequim calibra sua posição em relação a uma líder que garantiu amplos poderes – algo que, em parte, também é possível dizer que foi resultado da pressão chinesa.

Tentativa de desestabilização

“A China tem tentado desestabilizar o governo Takaichi criticando comentários que ela fez em novembro sobre Taiwan”, diz Ben Ascione, professor-assistente de política e relações internacionais da Universidade de Waseda, em Tóquio.

As relações diplomáticas entre Pequim e Tóquio, que já estavam desgastadas, deterioraram-se ainda mais em novembro, depois que Takaichi afirmou, no parlamento japonês, que uma crise envolvendo Taiwan poderia ser uma ameaça à segurança nacional do Japão, que seria obrigado a se envolver.

As declarações da primeira-ministra geraram críticas severas por parte de Pequim.

“Do ponto de vista político, Takaichi e o Partido Comunista Chinês estão em lados opostos, e o partido tem feito o possível para retratá‑la como revisionista histórica, enfatizando o apoio dela ao Santuário Yasukuni”, explica Ascione à DW, referindo-se ao santuário no centro de Tóquio que homenageia os mortos na guerra do Japão, mas continua controverso porque também inclui 14 criminosos de guerra condenados pela Justiça do país.

“A questão é até que ponto a vitória de Takaichi foi resultado dos ataques da China”, reflete o especialista, ressaltando a preocupação cada vez maior da população japonesa com aumento da pressão de Pequim sobre Taiwan.

A China enxerga Taiwan como parte de seu território e promete colocar a ilha democrática autônoma sob o controle de Pequim, mesmo que, para isso, seja necessário usar a força.

Outra fonte de tensão entre Tóquio e Pequim envolve disputas territoriais sobre um grupo de pequenas ilhas e rochas desabitadas no Mar da China Oriental.

Como ficam as relações entre China e Japão agora?

Com as relações entre os dois países em um dos pontos mais baixos da história recente, os próximos movimentos de ambos serão decisivos para indicar o rumo da relação, segundo Ascione.

“Parece não fazer sentido para Pequim continuar tentando desestabilizar Takaichi agora que ela não é mais vulnerável politicamente, então talvez os dois lados possam concordar que discordam em questões históricas e territoriais, e que há um caminho a seguir”, aponta.

Uma maneira de fazer isso seria Takaichi seguir os passos do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe. Ele foi a Pequim em 2018, após uma tensão considerável nas relações entre os dois países relacionada às ilhas do Mar da China Oriental, conhecidas como Diaoyu na China e Senkaku no Japão, e assinou uma série de acordos sobre cooperação econômica e comércio, o que serviu para amenizar a questão.

Hiromi Murakami, professora de ciências políticas da Temple University em Tóquio, afirma que uma medida semelhante por parte de Takaichi poderia proporcionar uma saída para os dois governos sem que nenhum dos lados perca muito prestígio.

Ela, no entanto, enfatiza que a primeira-ministra pode tomar um caminho diferente.

“Se Takaichi decidir prestar homenagem em Yasukuni, aumentar novamente os gastos com a defesa ou levar adiante planos de reescrever a Constituição do pós-guerra, a China não vai reagir bem”, alerta Murakami. “E Pequim tem alguns mecanismos econômicos poderosos de que pode lançar mão.”

A China instruiu os cidadãos a não viajarem ao Japão nas férias e restringiu severamente as exportações de minerais raros essenciais para o Japão. Segundo a professora, Pequim também já proibiu, no passado, as importações de produtos marinhos – e esse é outro ponto de pressão que poderia voltar à pauta.

“Em conjunto, o impacto na economia e na sociedade japonesas seria muito sério”, observa ela. “E isso é importante para Takaichi porque, embora a segurança nacional tenha sido um fator importante para os eleitores, o aumento dos preços e do custo de vida foi a questão principal.”

“Trump tem todos os motivos para estar feliz com Takaichi”

As relações com os EUA, no entanto, estão prestes a alcançar novos patamares sob a nova administração Takaichi.

“Vimos Takaichi abraçar os EUA como parceiro ao aceitar tarifas e concordar em assumir mais responsabilidades de defesa na região, aumentando os gastos com as forças japonesas. Logo, Trump tem todos os motivos para estar feliz”, acrescenta Murakami.

“E ele sabe que, enquanto Takaichi estiver no poder, ela vai fazer o que os EUA quiserem, porque o Japão precisa das garantias de segurança americanas.”

Ascione concorda que a prioridade da política externa da premiê do Japão seja “cultivar uma relação mais forte com os EUA como forma de dissuadir a China” – mesmo que as tarifas de 15% sobre as exportações japonesas tenham causado problemas para as empresas locais e prejudicado a economia nacional.

“A relação de Tóquio com os EUA pode se desgastar por causa das questões econômicas, mas acredito que Takaichi vá reforçar a aliança de segurança com os EUA e enfatizar os as relações bilaterais quando for a Washington em breve”, afirma o professor Universidade de Waseda.

Trump confirmou que se reunirá com Takaichi na Casa Branca, em 19 de março. A expectativa é que a líder japonesa detalhe a primeira rodada de um provável aporte 550 bilhões de dólares (R$ 2,86 trilhões) em investimentos nos EUA para consolidar o apoio de Washington no futuro.