Pressionado até por aliados, presidente americano tenta reduzir tensões após mortes de dois civis em ações de agentes federais, elogia diálogo com líderes democratas e reorganiza operações de imigração em Minneapolis.Após semanas de ataques verbais aos líderes democratas do estado americano de Minnesota, o presidente dos EUA, Donald Trump, adotou um tom conciliatório ao realizar ligações telefônicas com o governador Tim Walz e com o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey. A drástica mudança de tom sinaliza um aparente recuo de sua ofensiva anti-imigração que levou a confrontos generalizados na cidade e deixou dois cidadãos americanos mortos.

Outro sinal da mudança de tom da Casa Branca foi a confirmação de que Gregory Bovino, figura central do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) na operação federal em Minneapolis, deixará a força-tarefa juntamente com alguns dos agentes federais mobilizados no local.

A mudança de postura acontece após a morte a tiros do enfermeiro Alex Pretti por agentes federais, o que levantou críticas, inclusive entre republicanos, sobre a forma agressiva como o governo Trump vem conduzindo a deportação de imigrantes no local.

A informação foi divulgada por Frey. Segundo ele, “alguns agentes federais” deixarão a cidade nesta terça-feira. Ele não deu detalhes sobre quantos e quais, mas disse que Trump teria concordado que a situação não pode continuar como está.

Bovino sofre pressão por falhas na operação

Defensor da política anti-imigração de Trump, Bovino se tornou o rosto público da operação federallançada em Minneapolis. De postura “linha-dura”, ele é frequentemente visto liderando grupos de agentes federais fortemente armados circulando pelas ruas da cidade.

Sua atuação em repressões federais altamente visíveis, incluindo operações que provocaram manifestações em massa em Los Angeles, Chicago, Charlotte e Minneapolis, já atraía críticas de autoridades, inclusive de aliados de Trump.

Mas a morte de Pretti, morto a tiros à queima-roupa por agentes de imigração enquanto protestava em Minneapolis, pressionou ainda mais a liderança de Bovino. Ele foi criticado por afirmar que Pretti planejava “massacrar” policiais, mesmo quando vídeos do confronto contradiziam essa narrativa. Bovino também afirmou, em entrevista à CNN, que os agentes envolvidos no caso seriam as verdadeiras vítimas.

Trump e autoridades do Departamento de Segurança Interna haviam adotado postura semelhante em relação a outra ativista local, Renee Good, de 37 anos, mãe de três filhos, responsabilizando-a por sua própria morte após ela ter sido baleada por um agente federal do ICE dentro de seu carro, em 7 de janeiro.

Dezenas de manifestantes se reuniram do lado de fora de um hotel onde acreditavam que Bovino estava hospedado após a notícia de sua saída. “Continuarei pressionando para que o restante envolvido nesta operação vá embora”, acrescentou Frey.

Trump elogia conversa com governador

A Casa Branca ainda não confirmou oficialmente a saída de Bovino, mas, nas redes sociais, Trump afirmou que colocaria Tom Homan, chamado por ele de “czar da fronteira”, no comando das operações do ICE em Minnesota. Também de postura linha-dura, ele deve se encontrar com Frey nesta terça-feira.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que Homan seria “o principal ponto de contato no local em Minneapolis” durante a continuidade das operações de agentes federais de imigração. Trump publicou na segunda-feira nas redes sociais que Homan se reportaria diretamente a ele.

Após dizer que fez “muitos progressos” na conversa com Frey, o presidente americano também afirmou que teve uma conversa muito boa com o governador de Minnesota, Tim Walz, um democrata a quem ele tem acusado repetidamente de corrupção.

“Na verdade, parecíamos estar em sintonia”, escreveu o presidente em uma publicação nas redes sociais. Walz “ficou feliz que Tom Homan estivesse indo para Minnesota, e eu também estou”, escreveu Trump.

Walz disse que a ligação foi “produtiva” e que Trump concordou com uma investigação imparcial dos tiroteios. Segundo a Casa Branca, os dois políticos concordaram que a polícia deve entregar ao governo federal imigrantes “irregulares com antecedentes criminais ou mandados abertos”, enquanto o ICE reduziria o número de agentes nas ruas da cidade.

Aliados de Trump criticam atuação do ICE

Em outro sinal de que o apoio à ofensiva de deportações de Trump vem enfraquecendo, um importante candidato republicano ao governo estadual de Minnesota, Chris Madel, desistiu da disputa nesta segunda-feira, dizendo que a repressão havia ido longe demais e tornado a corrida impossível para um republicano.

“Não posso apoiar a punição declarada dos republicanos nacionais aos cidadãos do nosso estado, nem posso me considerar membro de um partido que faria isso”, disse ele em um vídeo.

Já o governador republicano do Texas, Greg Abbott, forte apoiador de Trump, afirmou que a Casa Branca precisa “recalibrar” sua atuação em Minnesota. Por usa vez, o governador republicano de Vermont, Phil Scott, pediu para Trump reiniciar e arrefecer a abordagem.

“Na melhor das hipóteses, essas operações federais de imigração representam uma falha completa de coordenação de práticas aceitáveis de segurança pública, execução da lei e liderança”, disse Scott. “Na pior, trata-se de intimidação federal deliberada e incitação contra cidadãos americanos, resultando no assassinato de americanos.”

Justiça avalia suspensão da operação

Os governos de Minnesota e de Minneapolis buscam na Justiça federal a suspensão da operação anti-imigração. A ação judicial pede que a Justiça determine a redução do número de agentes e policiais federais em Minnesota ao nível anterior à operação e que limite o alcance dela.

Em audiência no tribunal na segunda-feira, um advogado do governo federal afirmou que cerca de 2 mil agentes do ICE estavam em campo, juntamente com pelo menos mil agentes da patrulha de fronteira.

O caso tem implicações para outros estados que foram ou podem se tornar alvos de operações federais intensificadas de fiscalização imigratória. Procuradores-gerais de 19 estados e do Distrito de Columbia, liderados pela Califórnia, apresentaram um parecer como amicus curiae em apoio a Minnesota. A decisão ainda não foi tomada.

gq/as (Reuters, AFP, AP)